segunda-feira, 30 de julho de 2012

Postei anteriormente a crônica "O PARQUINHO DA VILLE ROY". Hoje vai uma poesia. De agora em diante, o leitor poderá ler semanalmente, de forma intercalada, textos em prosa ou em verso. De vez em quando, fotos, também. Inicialmente as crônicas estarão relacionadas aos fatos e experiências que vivi e testemunhei a partir do do final da década de 50 do século passado, quando cheguei a Boa Vista, e assim irei avançando no tempo. Essa é uma iniciativa pessoal de arrancar do fundo do baú de minhas memórias referidos fatos e experiências. Vou precisar da crítica, da correção e do incentivo dos meus contemporâneos. Não se acanhem em fazê-lo. Essa foi a forma que imaginei de contar história (s) sem me preocupar ou apelar para os métodos e técnicas dos especialistas dessa matéria. Aliás, não faço história. conto histórias, o que é bem diferente. Antecipadamente obrigado pelas visitas, curtidas e comentários a respeito dos textos.

ACRÓSTICO ONTOLÓGICO

José Henrique Ferreira Leite
Poeta bissexto

Jazo – imerso – no breu da noite.
O pensamento visita ermos lugares,
Sai em vôo cego, rumo ao imponderável,
Expandindo-se por caminhos insondáveis.

Hirto, olhos fixos no infinito,
Eras passam velozes.
Nada vejo. Nada apalpo.
Refletindo, caio no vácuo.
Inquiro tudo. Sondo o imensurável:
Que é o Universo? Que significa, enfim?
Um desejo me assalta, atormenta a alma:
Entender a vida e a morte. A eternidade.

Fecho os olhos. Navego na amplidão.
Especulo. Excogito a imensidão escura.
Raios de luz rasgam sulcos na noite,
Resvalando em minhas retinas
Estrelas cadentes incendiadas.
Iridescentes bólidos errantes
Riscam – velozes – o firmamento,
Arrebentam em estilhaços fulgurantes.

Leio no imenso e escuro Universo,
Extraordinárias notícias galácticas,
Intrincados fenômenos celestes.
Tomo ciência da grandeza de Deus
Escondida nas noites siderais. 

sexta-feira, 27 de julho de 2012


O PARQUINHO DA VILLE ROY
Texto de José Henrique Leite
Escritor bissexto.

            Meses finais de 1962. Eu com 14 anos incompletos. Um adolescente ainda, mas já acompanhando com algum interesse o que acontecia na aparentemente pacata Boa Vista. Os eleitores rio-branquenses (roraimenses, a partir de 13 de dezembro de 1962) nem bem tinham saradas as feridas do ferrenho pleito de 1958 e já enfrentavam nova campanha política para escolher seu único deputado federal. Saiu vitorioso o à época governador do Amazonas senhor Gilberto Mestrinho Raposo, que tinha como suplente o General Valois[1]. Este perdera para a gloriosa coligação quatros anos atrás. Mestrinho bateu com larga vantagem de votos a dupla Café-com-Leite[2] formada pelos saudosos médicos Francisco Elesbão e Sylvio Lofego Botelho.
            Mas o que tem a ver o senhor Gilberto Mestrinho[3] com o título do texto? Tudo a ver. Veremos logo à frente. Foi ele – como anota o escritor Aimberê Freitas em uma das suas obras – que inventou por estas plagas a praga do “aliciamento profissional dos eleitores no Território”, ou seja, a compra de votos. Daí a explicação para sua retumbante vitória. Gilberto Mestrinho, segundo Aimberê, “investiu maciçamente na campanha onde, até uma rádio clandestina, denominada Rádio Parima, foi utilizada. (...) promoveu a distribuição, em grande escala, de alimentos, sapatos, óculos, roupa, passagens aéreas, etc.” E é aqui que entra a ligação do senhor Gilberto Mestrinho com a história do Parquinho da Ville Roy. No Centro Cívico, no espaço entre o hoje hotel Aypana e a estátua do Garimpeiro foi inaugurado um parquinho com vários brinquedos. De olho nas eleições para deputado no período legislativo de 1963 a 1966, Gilberto Mestrinho Raposo não esquecera nem das crianças. Claro, raposo que era (ou raposa?), investia nas crianças certo de que os pais saberiam ser gratos por causa daqueles mimos, na hora de votar. Uma novidade, já que à época não se dava nem a mínima para as crianças e adolescentes. Tanto é verdade, que, nas duas únicas praças que existiam – Praça da Bandeira e Praça Capitão Clóvis –, na primeira instalaram velhos canhões do Fortim de São Joaquim e, na outra, só prepararam quadras para jogo de basquetebol, tênis e voleibol. Brinquedos para a criançada, neca! Passado na casca do alho, Gilberto Mestrinho acertou na mosca ao instalar aquele parquinho. Sabia como agradar gregos e troianos. Tornou-se o ídolo das crianças, das mães e da grande maioria dos eleitores masculinos. Não tivesse sido cassado pelo golpe militar de 64, o senhor Mestrinho (Boto Tucuchi) teria fincado raízes profundas no tecido social e político do Território.
            Política à parte, o parquinho foi o que de melhor aconteceu para as crianças naquele ano de 1962. Tinha gangorra, carrossel, balanços, escorregadores, sobe-sobe barras paralelas, etc. Daí pra frente, enquanto durou a campanha eleitoral – e só durante a campanha e mais alguns meses – nas tardes de domingo ou nos finais de aula, quem morava no Centro ou estudava ali por perto aproveitava o máximo daqueles brinquedos. Não só esses meninos eram os privilegiados, o parquinho atraía também dezenas de crianças vindas do São Francisco, São Vicente, São Pedro, Caxangá e Caetano Filho, os bairros de Boa Vista da época.
            Brinquei naquele parquinho poucas vezes. Fazia isso escondido. Não porque já fosse grande para os brinquedos. Nada disso. Todos da minha idade podiam brincar ali. É que eu morava longe e fui um menino de muitos afazeres em casa. Não tinha muita folga pra sair assim. Mas o fato de não brincar no parquinho do senhor Gilberto com a frequência que desejava não me deixou pra baixo, não. Pelo contrário, foi fonte de inspiração. Ora, se eu não podia ir ao parquinho, por que não construir um em casa? O quintal era enorme! Dito e feito. Com a ideia na cabeça, junto com meu irmão Dilmar e alguns vizinhos começamos de imediato a execução do projeto: em primeiro lugar juntamos todo o material necessário. Em pouco tempo toras de madeira, pranchas, tábuas, varas de bambus, pernamancas e cordas já estavam espalhados pelo quintal.
            Não sei quanto custou o parquinho do senhor Gilberto Mestrinho, tampouco de onde ele tirou os recursos para construí-lo. Só desconfio. Nosso parquinho, porém, saiu do esforço, da criatividade e do trabalho de um punhado de crianças e adolescentes. Não custou um centavo sequer ao erário. Nem para sua construção nem para sua manutenção. Os troncos para as gangorras e gira-gira, nós as trouxemos do denso caimbezal que existia ali onde atualmente fica a Escola Rei Salomão. As varas de bambus para o sobe-sobe[4] e barras paralelas, fomos buscar na chácara do Dr. Borges (José Borges dos Santos), agrônomo da Secretaria de agricultura que possuía um bela chácara onde hoje está a Faculdade FARES, por trás do Colégio Gonçalves Dias. As Pranchas, tábuas e pernas-mancas para os escorregadores e balanços, foram doadas pelo senhor Davi Granjeiro, que tinha uma marcenaria ao lado de nossa casa, hoje a residência contígua ao estúdio Foto Júnior, na Ville Roy.
            Pensando bem, Além do preço de instalação e de manutenção a custo zero, o parquinho particular da Ville Roy, no qual todos os meninos da redondeza podiam brincar tinha lá suas vantagens: 1º. Foi instalado debaixo de duas frondosas mangueiras e entre gravioleiras, abacateiros e goiabeiras; 2º. Nesse parquinho tinha três brinquedos a mais do que o do senhor Mestrinho: um jogo de sibiribol[5], um espaço pra pular macaca (amarelinha) e um campinho de pelada em que uma das traves ficava grudada na cerca de arame que dava para uma rua sem nome (Hoje Presidente Costa e Silva) e a outra praticamente encostada ao banheiro tampado de tábuas. Uma das laterais fazia limites com a parede da casa do meu avô Joca e seguia na direção de troncos de coqueiros e cupuaçuzeiros, tanto para um lado quanto para o outro. A outra lateral saía numa linha sinuosa a partir do tronco de uma gravioleira driblando uma das gangorras e as barras paralelas findando na cerca de arame já mencionada; 3º. No local existiam vários pés de manguitas quase sempre carregados de teteias[6] vermelhinhas! Uma atração à parte daquele saudoso parquinho.
            Até hoje estou por ver um parque infanto-juvenil mais simples e mais atraente do que aquele.  Poderia ter coisa melhor para a molecada da época?
           

      
    
               


[1] FÉLIX VALOIS DE ARAÚJO, segundo governador do recém- criado Território do Rio Branco. Militar maranhense e figura lendária da política dos primeiros 15 anos do Território. Político inteligente e manhoso foi preciso uma coligação de forças partidárias para derrotá-lo em 1958. Depois dele só mesmo o senhor Otomar de Souza Pinto para superá-lo em artimanhas político-eleitoreiras. 
[2] Dupla CAFÉ-COM-LEITE: Dr. Elesbão (Negro) e Dr. Silvio (Branco). Dois sacerdotes da medicina da terra. Na política, por falta de vocação não fizeram história.
[3] Gilberto Mestrinho era governador do Amazonas. Para não deixar o Palácio Rio Negro, a fim de concorrer às eleições pelo seu Estado, arranjou-se com Valois como seu suplente e disputaram a única cadeira de deputado do Território, vencendo o pleito com retumbante vitória. 
[4] Brinquedo também conhecido por trepa-trepa, consiste em uma armação em forma de cubo confeccionada de varas de ferro soldadas umas nas outras formando uma espécie de quebra-cabeça para a  petizada escalar e se contorcer ali dentro. No nosso parquinho as varas eram de bambu e amaradas fortemente umas nas outras.
[5] SIBIRIBOL: jogo que consistia de um poste roliço (um caibro, por exemplo) fincado verticalmente no chão de onde de sua extremidade superior por meio de uma corda fina se pendurava uma pequena bola de borracha dentro de uma meia. O jogo comportava dois jogadores e consistia no seguinte: cada um na sua vez, com uma pá de madeira um pouco maior do que uma raquete de ping-pong lançava a bola para cima e tentava com vigorosas pazadas fazer com que o fio se enrolasse por completo no poste. O papel do adversário era justamente impedir que isso acontecesse. Deu pra entender, não é? Cada giro bem sucedido contava um ponto.  
[6] A fruta da manguita bem madura e avermelhada pela luz do sol.