O PARQUINHO DA VILLE ROY
Texto de José Henrique Leite
Escritor bissexto.
Meses finais
de 1962. Eu com 14 anos incompletos. Um adolescente ainda, mas já acompanhando
com algum interesse o que acontecia na aparentemente pacata Boa Vista. Os
eleitores rio-branquenses (roraimenses, a partir de 13 de dezembro de 1962) nem
bem tinham saradas as feridas do ferrenho pleito de 1958 e já enfrentavam nova
campanha política para escolher seu único deputado federal. Saiu vitorioso o à
época governador do Amazonas senhor Gilberto Mestrinho Raposo, que tinha como
suplente o General Valois[1].
Este perdera para a gloriosa coligação quatros anos atrás. Mestrinho bateu com
larga vantagem de votos a dupla Café-com-Leite[2]
formada pelos saudosos médicos Francisco Elesbão e Sylvio Lofego Botelho.
Mas o que
tem a ver o senhor Gilberto Mestrinho[3]
com o título do texto? Tudo a ver. Veremos logo à frente. Foi ele – como anota
o escritor Aimberê Freitas em uma das suas obras – que inventou por estas
plagas a praga do “aliciamento profissional dos eleitores no Território”, ou seja,
a compra de votos. Daí a explicação para sua retumbante vitória. Gilberto
Mestrinho, segundo Aimberê, “investiu maciçamente na campanha onde, até
uma rádio clandestina, denominada Rádio Parima, foi utilizada. (...) promoveu a
distribuição, em grande escala, de alimentos, sapatos, óculos, roupa, passagens
aéreas, etc.” E é aqui que entra a ligação do senhor Gilberto Mestrinho
com a história do Parquinho da Ville Roy. No Centro Cívico, no espaço entre o
hoje hotel Aypana e a estátua do Garimpeiro foi inaugurado um parquinho com
vários brinquedos. De olho nas eleições para deputado no período legislativo de
1963 a 1966, Gilberto Mestrinho Raposo não esquecera nem das crianças. Claro,
raposo que era (ou raposa?), investia nas crianças certo de que os pais
saberiam ser gratos por causa daqueles mimos, na hora de votar. Uma novidade,
já que à época não se dava nem a mínima para as crianças e adolescentes. Tanto
é verdade, que, nas duas únicas praças que existiam – Praça da Bandeira e Praça
Capitão Clóvis –, na primeira instalaram velhos canhões do Fortim de São
Joaquim e, na outra, só prepararam quadras para jogo de basquetebol, tênis e
voleibol. Brinquedos para a criançada, neca! Passado na casca do alho, Gilberto
Mestrinho acertou na mosca ao instalar aquele parquinho. Sabia como agradar
gregos e troianos. Tornou-se o ídolo das crianças, das mães e da grande maioria
dos eleitores masculinos. Não tivesse sido cassado pelo golpe militar de 64, o
senhor Mestrinho (Boto Tucuchi) teria fincado raízes profundas no tecido social
e político do Território.
Política à
parte, o parquinho foi o que de melhor aconteceu para as crianças naquele ano
de 1962. Tinha gangorra, carrossel, balanços, escorregadores, sobe-sobe barras
paralelas, etc. Daí pra frente, enquanto durou a campanha eleitoral – e só
durante a campanha e mais alguns meses – nas tardes de domingo ou nos finais de
aula, quem morava no Centro ou estudava ali por perto aproveitava o máximo
daqueles brinquedos. Não só esses meninos eram os privilegiados, o parquinho
atraía também dezenas de crianças vindas do São Francisco, São Vicente, São
Pedro, Caxangá e Caetano Filho, os bairros de Boa Vista da época.
Brinquei naquele
parquinho poucas vezes. Fazia isso escondido. Não porque já fosse grande para
os brinquedos. Nada disso. Todos da minha idade podiam brincar ali. É que eu
morava longe e fui um menino de muitos afazeres em casa. Não tinha muita folga
pra sair assim. Mas o fato de não brincar no parquinho do senhor Gilberto com a
frequência que desejava não me deixou pra baixo, não. Pelo contrário, foi fonte
de inspiração. Ora, se eu não podia ir ao parquinho, por que não construir um
em casa? O quintal era enorme! Dito e feito. Com a ideia na cabeça, junto com
meu irmão Dilmar e alguns vizinhos começamos de imediato a execução do projeto:
em primeiro lugar juntamos todo o material necessário. Em pouco tempo toras de
madeira, pranchas, tábuas, varas de bambus, pernamancas e cordas já estavam
espalhados pelo quintal.
Não sei
quanto custou o parquinho do senhor Gilberto Mestrinho, tampouco de onde ele
tirou os recursos para construí-lo. Só desconfio. Nosso parquinho, porém, saiu
do esforço, da criatividade e do trabalho de um punhado de crianças e
adolescentes. Não custou um centavo sequer ao erário. Nem para sua construção
nem para sua manutenção. Os troncos para as gangorras e gira-gira, nós as
trouxemos do denso caimbezal que existia ali onde atualmente fica a Escola Rei
Salomão. As varas de bambus para o sobe-sobe[4]
e barras paralelas, fomos buscar na chácara do Dr. Borges (José Borges dos
Santos), agrônomo da Secretaria de agricultura que possuía um bela chácara onde
hoje está a Faculdade FARES, por trás do Colégio Gonçalves Dias. As Pranchas,
tábuas e pernas-mancas para os escorregadores e balanços, foram doadas pelo
senhor Davi Granjeiro, que tinha uma marcenaria ao lado de nossa casa, hoje a
residência contígua ao estúdio Foto Júnior, na Ville Roy.
Pensando
bem, Além do preço de instalação e de manutenção a custo zero, o parquinho
particular da Ville Roy, no qual todos os meninos da redondeza podiam brincar
tinha lá suas vantagens: 1º. Foi instalado debaixo de duas frondosas mangueiras
e entre gravioleiras, abacateiros e goiabeiras; 2º. Nesse parquinho tinha três
brinquedos a mais do que o do senhor Mestrinho: um jogo de sibiribol[5],
um espaço pra pular macaca (amarelinha) e um campinho de pelada em que uma das
traves ficava grudada na cerca de arame que dava para uma rua sem nome (Hoje Presidente
Costa e Silva) e a outra praticamente encostada ao banheiro tampado de tábuas.
Uma das laterais fazia limites com a parede da casa do meu avô Joca e seguia na
direção de troncos de coqueiros e cupuaçuzeiros, tanto para um lado quanto para
o outro. A outra lateral saía numa linha sinuosa a partir do tronco de uma
gravioleira driblando uma das gangorras e as barras paralelas findando na cerca
de arame já mencionada; 3º. No local existiam vários pés de manguitas quase
sempre carregados de teteias[6]
vermelhinhas! Uma atração à parte daquele saudoso parquinho.
Até hoje
estou por ver um parque infanto-juvenil mais simples e mais atraente do que
aquele. Poderia ter coisa melhor para a
molecada da época?
[1]
FÉLIX VALOIS DE ARAÚJO, segundo governador do recém- criado Território do Rio
Branco. Militar maranhense e figura lendária da política dos primeiros 15 anos
do Território. Político inteligente e manhoso foi preciso uma coligação de
forças partidárias para derrotá-lo em 1958. Depois dele só mesmo o senhor
Otomar de Souza Pinto para superá-lo em artimanhas político-eleitoreiras.
[2]
Dupla CAFÉ-COM-LEITE: Dr. Elesbão (Negro) e Dr. Silvio (Branco). Dois
sacerdotes da medicina da terra. Na política, por falta de vocação não fizeram
história.
[3]
Gilberto Mestrinho era governador do Amazonas. Para não deixar o Palácio Rio
Negro, a fim de concorrer às eleições pelo seu Estado, arranjou-se com Valois
como seu suplente e disputaram a única cadeira de deputado do Território,
vencendo o pleito com retumbante vitória.
[4]
Brinquedo também conhecido por trepa-trepa, consiste em uma armação em forma de
cubo confeccionada de varas de ferro soldadas umas nas outras formando uma
espécie de quebra-cabeça para a petizada
escalar e se contorcer ali dentro. No nosso parquinho as varas eram de bambu e
amaradas fortemente umas nas outras.
[5]
SIBIRIBOL: jogo que consistia de um poste roliço (um caibro, por exemplo)
fincado verticalmente no chão de onde de sua extremidade superior por meio de
uma corda fina se pendurava uma pequena bola de borracha dentro de uma meia. O
jogo comportava dois jogadores e consistia no seguinte: cada um na sua vez, com
uma pá de madeira um pouco maior do que uma raquete de ping-pong lançava a bola
para cima e tentava com vigorosas pazadas fazer com que o fio se enrolasse por
completo no poste. O papel do adversário era justamente impedir que isso
acontecesse. Deu pra entender, não é? Cada giro bem sucedido contava um ponto.
[6] A
fruta da manguita bem madura e avermelhada pela luz do sol.
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