domingo, 23 de setembro de 2012


GRUPO ESCOLAR SÃO FRANCISCO
José Henrique Ferreira Leite
Escritor bissexto

        Ontem, dia 30 de julho de 2012, pus os pés em um lugar que há 52 anos não visitava. Enquanto fazia algumas fotos fiquei pensando porque passei tanto tempo sem voltar a um lugar que foi tão importante para a minha vida e de muitos amigos, uns inclusive que já partiram para a outra dimensão. Coisa que não sei explicar. Só sei que sem ter falado no assunto anteriormente e sem ninguém para me despertar, automaticamente acordei por volta das quatro da matina com algo cutucando minha cabeça e trazendo-me recordações do meu antigo e inesquecível Grupo escolar São Francisco. Foi nessa escola que, um dia, um mundo novo se descortinou para mim na primeira aula do ano letivo de 1960. Começava ali, no Grupo Escolar São Francisco, primeira série do primário, minha vida de eterno estudante. Daquele dia em diante nunca mais desgrudei dos livros ou de rabiscar alguma coisa diariamente. Aprendi a devorar livros com a fome dos bichos que acordam depois de longa temporada de hibernação. E é ao Grupo São Francisco com seu corpo docente dos meus tempos de primário que responsabilizo por essa fome que tenho de livros e das boas histórias de época.
        Para minha sorte e grande regozijo, o prédio onde funcionou o antigo Grupo São Francisco conserva a mesma arquitetura de quando foi construído. A única diferença é que naquele distante ano de 1960 a área ao redor do prédio não tinha muro. De longe se via a edificação bem diferente das demais em que funcionavam outras escolas daquele tempo. Observando-se a partir da escola, para todos os lados se via o capinzal do qual emergiam as plantas típicas do lavrado.  Para os lados do hoje Parque Anauá, coisa de uns 300 metros adiante havia uma extensa baixa que no inverno virava uma grande lagoa. Nos intervalos, mesmo com a severa proibição, um bando de meninos danados corria pra tomar banho no límpido espelho d’água.
        Posso dizer, sem medo de errar e sem saudosismo piegas: o ensino repassado pelas professoras do Grupo São Francisco tinha seu valor! No final de ano ou de cada semestre não havia necessidade de recuperação. Quando muito, aquilo que se chamava de segunda época, no período das férias de janeiro e fevereiro. Mas ai de quem ficava pra segunda época... Tinha que se rebolar! Aluno preguiçoso repetia até passar ou dava no pé. A história se repetia nas demais unidades de ensino contemporâneas.
        Quando comecei minha primeira série estava com 11 anos. Comecei minha vida de estudante um pouco tarde. Cheguei a Boa Vista em agosto de 1959 vindo de uma localidade totalmente desconhecida das brenhas do Maranhão. Não sabia ler nem escrever. Aliás, nunca tinha visto ao que se chamava na época de cartilha do ABC. Mesmo assim minha tia já se decidira por me matricular na primeira série do primário (saltando o pré-primário) ao chegar o início do ano letivo de 1960. E aqui cabe um parêntese para tratar desse assunto. Como iniciaria na primeira série sem saber patavina de leitura, de escrita e de tabuada? Mas aqui entra a primeira parte da história para poder chegar ao Grupo Escolar São Francisco. Minha diligente tia Ester já pensara em tudo. Em conversa com a professora Lidia Coelho (Tavares, após o casamento), esta assumira o compromisso de desasnar o moleque sambudo que chegara do Maranhão. Sambudo sim, mas doido para aprender a ler! Não encontrei dificuldades diante dos rudimentos do saber. Do que posso lembrar, só estranhei mesmo a primeira cartilha. A professora me dissera: olha aqui, tudo o que existe no mundo tem nome, e esses nomes se escrevem com as letras do alfabeto que se constitui de 23 letras que vão de A a Z. Você vai aprender a reconhecer as letras relacionando-as aos objetos, animais ou aves desta cartilha. Por exemplo:
– Que figura é este da primeira página?
– É uma asa, respondi.
– Muito bem! Pois o nome asa começa com a letra A, entendeu?
 – Sim, professora. Respondi.
        Mas a coisa empacou logo na quinta, sexta e sétima letras: Que bichão era aquele com enormes orelhas e rabo na cabeça e na bunda? E o animal seguinte, um bicho deitado numa imensa superfície branca como algodão, com arremedo de patas e uma bola no focinho? E o outro, tão alto que alcançava as copas das árvores? Hoje sei que se Gilberto Freire tivesse idealizado aquela cartilha jamais teria colocado para ilustrá-la objetos, animais ou aves desconhecidos dos brasileiros carentes de alfabetização. Quem nas mesmas condições e tendo vindo de um lugar como aquele de onde cheguei saberia identificar de primeira um elefante, uma foca ou uma girafa? Ou bichos como hipopótamo, javali, lhama e zebra? Frutas como maçã e uva? Lugares como um Oasis ou ainda embarcações como um navio? Nunca tinha visto e nem sabia da existência desses bichos, coisas ou lugares. Por aí se vê minha dificuldade inicial no tal processo de aprendizagem do alfabeto. Ainda bem que o problema foi passageiro. Graças o ímpeto com que busquei aprender. No natal do mesmo ano, um pouco mais de três meses e meio, já brindava os de casa com a correta leitura de quaisquer textos que aparecessem e a tabuada na ponta da língua.
        O aprendizado continuou. E agora sentimos que é o momento certo de fazer lembrança do saudoso Grupo São Francisco, da diretora e das professoras. Sim, diretora e professoras porque lá no Grupo São Francisco não existia a figura masculina do diretor e professor. Pelo menos enquanto fui aluno daquela escola. A Diretora chamava-se Joana da Silva e as professoras: Diva Sindeaux, Doquinha Cavalcanti, Lidia Coelho, Lúcia Menezes de Bezerra e Catarina Miraboa. Todas elas excelentes professoras. Uma aula de uma dessas professoras é o que modernamente se poderia chamar de show de bola!
        A disciplina da escola era rígida; tanto no aspecto comportamental como em relação à cobrança das matérias. Mas não se diga que havia um clima de medo. Isso não. Diante de atos de indisciplina, briga entre colegas e o que hoje se chama de bullyng – que já existia, e muito! – a diretora resolvia todas as paradas sem precisar chamar pais ou responsáveis. Ninguém tinha coragem de enfrentar ou ameaçar professores como nos dias atuais. Os alunos se pelavam de medo do quarto escuro[1]. Com relação a esse tal quarto escuro posso revelar hoje: não existia. E por que digo isso? Porque nesse período de grupo São Francisco, talvez eu tenha sido o aluno que mais brigou! Também, pudera! Recém-chegado do interior do Maranhão, todo moleque que se dizia da cidade queria limpar as mãos em mim. Bullyng, puro! Tinha que me defender. No início apanhei bastante... Mas, da metade pro fim virei galo de briga e nunca mais levei desaforo pra casa nem levei a pior. Inúmeras vezes fui levado à diretoria para – como acreditavam os colegas – ser trancafiado no quarto escuro. Mas aqui cabe nova revelação: A cada briga – que acontecia sempre no intervalo – a diretora Joana chamava minha professora para se informar sobre meu comportamento em sala e minhas notas. A resposta como sempre conspirava a meu favor. Comportamento excelente e notas nunca abaixo de noventa, respondia a professora. Naquele tempo computavam-se as notas de zero a cem. Para os melhores alunos tinha até cem estrelado (100*).  A diretora Joana, então, botava-me de frente pra ela na sua mesa e mandava-me ler algum texto do livro “Meu Tesouro”, da professora Zélia, correspondente a série que eu estava fazendo. Fiz isso até a quarta série e nunca vi o tal quarto escuro. Como se diz hoje, nota dez para a saudosa e querida diretora Joana, que com sabedoria soube me defender dos meus agressores e, de quebra, fez despertar-me o gosto pela leitura em situação tão adversa. Acrescente-se ainda, não permitindo que eu virasse um moleque revoltado avesso à escola.
        Poderia relacionar inúmeras passagens das quais fui protagonista e às vezes quase vítima durante meu período como aluno do Grupo Escolar São Francisco. Contarei somente duas para terminar e não cansar tanto o leitor:
        A primeira história em questão se deu na véspera do natal de 1960. Adianto que foi minha segunda decepção com tal “bom” velhinho de barbas brancas. No natal passado ele me aprontara uma de lascar! Não vale a pena repetir esta história aqui. Mas vamos a esta segunda decepção: A turma estava bastante animada sabendo que o natal estava às portas. A professora Lidia Coelho na aula anterior avisara que todos se preparassem para fazer um pedido por escrito ao Papai Noel. Na realidade, a professora pretendia matar dois coelhos com uma só paulada: ensinar os alunos sobre um dos personagens mais queridos da cristandade e treiná-los na arte de escrever textos mais elaborados.
        Confesso que a decepção do natal anterior me deixara um tanto ressabiado com o “bom” velhinho. Mas como respeitava muito a professora que me ensinara a ler e escrever confiei que um pedido recomendado por ela sensibilizaria o tal Papai Noel. Ato contínuo ela passou para cada aluno uma folha de papel almaço com pauta dizendo que o pedido deveria ser feito em no mínimo dez linhas e máximo a critério de cada um.  De pronto fiz a margem e comecei a escrever. Enchi a primeira página, a segunda, a terceira, e quando estava terminando as últimas linhas da quarta página notei que faltava muita coisa ainda para terminar o pedido. Solicitei outra folha da professora. Nisso todos já tinham entregado seus pedidos e eu ainda pela metade. A professora ficou intrigada com tanta escrevinhação! Viu-se obrigada a perguntar-me o que tanto pedia ao Papai Noel. Advertiu-me: só vale um pedido meu jovem. Eu sei professora. É que estou pedindo uma bicicleta de três marchas, com todos os equipamentos e acessórios. Estou relacionando tudo. Não quero que esse Papai Noel esqueça nada. No natal passado ele me deu a porcaria de um minúsculo carrinho de plástico. Estou falando tudo isso pra ele. O pedido é um só, mas quero que ele se lembre de tudo. A senhora pode me dar mais uma folha de papel? A professora Lidia me deu mais uma folha. Ao finalizar o texto ela ficou espantada! Entreguei-lhe as duas folhas de papel com as oito páginas totalmente preenchidas. Comentou isso com a diretora e os demais professores. Soube que ficaram impressionados! Mas, e o Papai Noel? O salafrário nunca passou em casa para me entregar a bicicleta que pedi. Mais uma que ele aprontou pra cima de mim. E tem sido assim até hoje. Às favas com esse tal bom velhinho.
        Outra parada indigesta que tive de suportar por vários meses, acossado que fui pela gozação de meus colegas, se relaciona a visita que o então governador do Território fez ao Grupo. O governador chamava-se Francisco de Assis Albuquerque Peixoto. Este tomou posse no dia 23 de fevereiro de 1963 por indicação de Gilberto Mestrinho que tinha sido eleito deputado pelo Território na eleição do final do ano anterior. O governador, aproveitando para conhecer as escolas e seus funcionários, com o diretor de educação e a diretora do Grupo fazia o levantamento de quantas crianças precisariam de farda e sapatos para as comemorações do dia 7 de setembro daquele ano. O próprio governador indo de sala em sala botava o olho aluno por aluno e ia dizendo quem precisava ou não de novo fardamento.  Ao chegar a minha vez fiz como minha professora Catarina tinha ensinado e como todos faziam na presença do governador: com um leve declinar de cabeça o cumprimentei respeitosamente e continuei de pé para que ele me olhasse direitinho e externasse sua decisão. Decepção! Para minha surpresa o governador falou: esse aqui está muito limpo e com a farda em ordem. Não está precisando de fardamento novo. Os pais com certeza podem arcar com as despesas dele. O fardamento é para criança pobre. Engoli aquilo em seco e corei de indignação! Imediatamente enchi-me de coragem, levantei a perna direita e mostrei o solado do sapato com um enorme buraco. Falei:
– Seu governador, eu sou pobre, moro com meus tios, só tenho essa farda e ganhei estes sapatos dos americanos da minha igreja.
– Mas que menino audacioso é esse, diretora? Anotem duas fardas e dois pares de sapatos pra ele. Foi a única coisa que disse. Com um leve sorriso mandou que me sentasse. Obedeci-o, estatelado!
        Um mês depois, se não me falha a memória, por volta do dia 22 ou 23 de agosto daquele ano o diretor de educação apareceu para entregar as novas fardas e sapatos para os alunos necessitados. A audácia (ou desespero?) me agraciara com duplo fardamento e sapatos. Que bom, finalmente iria calçar sapatos de primeira mão. Até ali minhas roupas e sapatos eram todas de segunda mão doados pelos missionários gringos que frequentavam minha igreja. Mas paguei alto preço por isso. Meus desafetos, que ficaram morrendo de inveja, passaram a me perseguir mais ainda. Pior, desses que não gostavam de mim alguns estavam na fila e ouviram quando disse ao governador que tinha ganhado os sapatos dos americanos. Resultado: passaram a me aporrinhar a todo o momento com o apelido de Americano. E em que dava isso? Peleja todos os dias!
        Contudo, afora esses senões que ninguém podia controlar o Grupo Escolar São Francisco foi de grande importância na minha vida! O grupo, minha bondosa diretora Joana e as professoras mais queridas e competentes do mundo que passaram por minha vida!     


[1] Um pequeno compartimento sem luz, que se dizia existir em toda escola pertinho da sala da diretoria. A lenda era a de que todo aluno que fosse flagrado brigando, faltando aula ou bagunçando na sala de aula era levado para aquele lugar. 

DETALHES DA ARQUITETURA DO GRUPO SÃO FRANCISCO -RORIAMA.








sábado, 15 de setembro de 2012


MEDO DE ASILO

José Henrique Ferreira Leite
Poeta bissexto

Muitas vezes questiono e indago:
Quando haverei eu de morrer?
A resposta é sempre a mesma:
Ninguém sabe ao certo dizer.

Será hoje, amanhã, no outro mês?
Ou agora, já no próximo instante?
Morrerei afinal na virada do ano?
Ou terei de viver tanto e bastante

Até que chegue provecta velhice?
Deus me livre que tal me ocorra
Tenho horror de parar num asilo.

 Se por medo de eventual rabugice
Puserem-me ali antes que eu morra,
Com mil perdões: boto fogo naquilo!


NOS TEMPOS DO PAPA-FIGO[1]
José Henrique F. Leite –
Escritor bissexto

Lá pelo final da década de cinquenta, precisamente o ano de 1959, Boa Vista não passava de uma cidadezinha provinciana, com seus – não mais de – dois mil habitantes. Respirava, ainda, o pesado ar de uma acirrada campanha política ocorrida no ano anterior, quando os ratos, liderados pelo astuto cacique político Félix Valois foram exemplarmente batidos pelos macacos que formaram a aguerrida coligação liderada por Valério Magalhães.
Naquele tempo, nas rodadas formadas pelos adultos nas frentes das suas casas, nos terreiros iluminados pela lua cheia, a façanha de um corajoso João Firmino, que silenciara a valentia de um pistoleiro de aluguel era uma das estórias recorrentes, entre muitas outras, entre um gole e outro do cheiroso cafezinho caseiro recém-passado servido no bule esmaltado. Além das futricas políticas, um assunto tão a gosto daquela pequena cidade, os adultos daquelas priscas eras aproveitavam os momentos ali reunidos para ouvir nos seus potentes Transglobe[2] de nove faixas, as poderosas transmissões da BBC de Londres e da “A voz da América”, que transmitiam notícias e propaganda política para o mundo, além do que, apresentavam boletins detalhados sobre a guerra do Vietnan, da guerra fria e da corrida do homem à lua travada entre americanos e russos.
Vivia-se, naquele tempo, distante do restante do país. A única notícia que chegava daquelas bandas e que tinha alguma repercussão naquelas tradicionais rodadas de bate-papo era a construção de Brasília, futura capital do Brasil, obra tocada com grande estardalhaço pelo então Presidente da República Jucelino Kubitscheck. Notícias daquela grandiosa obra chegavam ao Território do Rio Branco através da “Hora do Brasil”, depois “Voz do Brasil”, que os bons Transglobe, também captavam.
Já no final daquelas inesquecíveis rodadas, lá pelas nove e meia da noite – dormia-se cedo por aqueles tempos – alguém gritava pela meninada que se esbaldava em correrias brincando de geral, manja e bandeirinha.
Meninada! Vamos lá. Todos correndo para lavar os pés. Tá na hora de dormir.
Poxa, mãe! Deixa a gente brincar mais um pouquinho...
Ah, é? Pois podem ficar. Vamos ver quem o Papa-figo vai pegar essa noite!
Ai, meu Deus! O tal Papa-figo. E todos corriam para lavar os pés e caíam nas suas redes, amedrontados.
Era assim que os pais daquele tempo se faziam obedecer e respeitar. Bons tempos aqueles em que a meninada acreditava no Papa-figo, no Bicho-papão, na Mula-sem-cabeça, no lobisomem e outros monstros do lendário infantil. Hoje, a moçada sai pra balada só lá pela meia noite e meia das sextas-feiras, na exata hora em que, por aqueles tempos, essas criaturas horrendas saíam à caça de jovens rebeldes e desobedientes que se aventuravam altas horas adentro. Penso que está na hora daquelas figuras fantásticas se reabilitarem para pôr ordem nas madrugadas de hoje.
E, por falar em Papa-figo, faço aqui meu relato sobre meu encontro com um deles quando tinha onze anos.
Corria o finalzinho de 1959. As ruas à noite ficavam em total escuridão, ambiente ideal para esses seres sombrios vagarem. Durante o inverno as largas ruas da capital eram tomadas por uma erva daninha conhecida como mata-pasto. Sobravam para o trânsito estreitos e sinuosos caminhos de terra arenosa dentro daquele matagal infestado de formigas-de-fogo. Por esses caminhos, durante o dia, moradores da cidade circulavam a pé ou em suas bonitas Humber, bicicletas de fabricação inglesa, equipadas com suas sonoras campainhas – que iam abrindo caminho por onde passavam –, retrovisores e excelentes faróis alimentados por dínamos acoplados à roda dianteira.  Veículos automotores transitando pelas ruas era uma raridade. Dava pra contar nos dedos. É desse tempo, o seu Coruja, morador do Rói-Couro, que por essas ruas fazia todo tipo de serviço, principalmente mudanças, no seu bom e ecologicamente correto veículo puxado por uma bonita parelha de bois. 
De volta ao fio da meada, numa daquelas noites de lua em quarto crescente, eu e meu irmão (Dilmar), que tinha oito anos, fomos buscar nossa irmã (Irenilde), que trabalhava na casa de uma família de gringos. A casa ficava na José Magalhães. Das muitas, essa era nossa última obrigação do dia. Fazíamos o percurso sempre com muito medo de encontrar o tal Papa-figo ou o velho Mané-Lúcio, que tinha lá seus poderes mágicos, e que por isso mesmo era também uma das figuras que metia medo às crianças. Até àquele dia, ou melhor, até àquela noite nenhum desses temidos encontros havia acontecido. Mas naquela noite...
Foi assim: Depois de acender o petromax[3] e deixá-lo com sua chiadeira característica dependurado no lugar de sempre, saímos apressadamente para não voltarmos muito tarde. Mas, naquela noite – em que saí calçado num apertado par de sapatos de camurça de segunda mão, de bicos muito finos, presenteado por aqueles gringos – sem nenhuma explicação, sentia certo medo, mais do que das vezes anteriores. Sentia que alguma coisa ia acontecer naquela noite. E, aconteceu. Logo mais à frente, a uma quadra e meia de nossa casa vi um vulto se mexendo. Estávamos perto da taberna do seu Asterclides, um bom comerciante que morava ali próximo. O vulto vinha em nossa direção e, em questão de segundos eu e meu irmão nos vimos frente a frente com um indivíduo alto, magro, roupas rasgadas e cara desfigurada que a luz pálida da lua crescente mostrava de forma especialmente horripilante. Não tivemos dúvida, tratava-se do pavoroso Papa-figo. Pra aumentar mais nosso pavor, aquela figura soturna e esquálida, à medida que se aproximava balbuciava algo que soava aos nossos ouvidos como: eu sou o Papa-figo... Eu sou o Papa-figo!
Só tive tempo de tirar os sapatos, enfiar neles os dedos da mão esquerda, pegar meu irmão pelo braço e sair em desembestada carreira até a taberna do seu Asterclides que, felizmente, estava aberta. Vendo o pavor das nossas caras o bom homem nos serviu um copo d’água e arriscou:
- O que foi meninos, por acaso vocês viram o Papa-figo?
- Vimos, sim, seu Asterclides! E ele está bem ali, apontamos para o rumo donde tínhamos visto a coisa ruim.
- Tá bem... Vou mandar o Manéo dar um tiro nele. Ele nunca mais vai fazer medo a ninguém...
- Mas, e vocês, pra onde vão assim?
- Vamos buscar nossa irmã no trabalho dela, respondemos.
- Então, vou mandar o Manéo levar vocês até lá.
- Obrigado, seu Asterclides!
Em questão de minutos, eu na garupa e meu irmão encarapitado no varão da bicicleta do irmão de seu Asterclides chegamos ao nosso destino.
Mas, aquele não era o meu dia, ou melhor, minha noite. Algo ainda estava por acontecer para aumentar o meu calvário fazendo daquela data uma das piores que já vivi nos meus tempos de menino. O Papa-figo ficara para trás. Cautelosamente, porém, deixei para calçar os sapatos quando chegasse ao meu destino; o que fiz, não sem notar que, desta vez, foi um pouco mais trabalhoso do que das outras vezes. Mas, como estava com os pés empoeirados da carreira que empreendera descalço imaginei que essa fosse a razão para que os sapatos refugassem tanto os meus pés.
Ali chegando, como de costume, D. Atlea, a bondosa missionária americana nos fez sentar no seu confortável sofá servindo-nos como sempre fazia uma gostosa limonada com biscoitos. Desta vez, porém, ao baixar a bandeja para nos servir notei que aquela senhora de olhos azuis e arregalados mirava meus pés. Algo devia estar errado com eles, pensei. Mas o quê? A resposta veio em instantes na forma de uma exclamação, num português sofrível e de sotaque carregado: Ó, Jooosé Henriqueee, os seus sapatos estão brigados!
Explicar por que, não sei. Porém, aquela exclamação teve efeito quase tão devastador quanto aquele encontro com o Papa-figo. Se deste tremia de pavor, daquela delicada gringa, daí em diante, morria de vergonha!
        Felizmente, para fim dos meus sofrimentos, algum tempo depois descobri que o tal Papa-figo não existia. Era apenas um pé-inchado[4] que perambulava pelas ruas noite adentro. Quanto àquela missionária ficou pouco tempo por aqui. Retornou pra sua terra natal levando com ela o motivo de tanta vergonha.


[1] Papa-figo – Indivíduo muito mau que vagava pelas noites e, que segundo os mais velhos atacava crianças para tirar-lhes o fígado.
[2] Transglobe – Bonitos e excelentes aparelhos de rádio de nove faixas que captavam transmissões radiofônicas de todos os pontos do globo.
[3] Petromax – Certo tipo de lampião a querosene, com camisa, que dispunha de um mecanismo (êmbolo) para injetar ar comprimido no bujão, que por sua vez empurrava o querosene que alimentava a chama brilhante da camisa do petromax.
[4] Bêbado