GRUPO ESCOLAR SÃO
FRANCISCO
José Henrique Ferreira
Leite
Escritor bissexto
Ontem, dia 30 de julho de 2012, pus os pés em um lugar que há
52 anos não visitava. Enquanto fazia algumas fotos fiquei pensando porque
passei tanto tempo sem voltar a um lugar que foi tão importante para a minha
vida e de muitos amigos, uns inclusive que já partiram para a outra dimensão. Coisa
que não sei explicar. Só sei que sem ter falado no assunto anteriormente e sem
ninguém para me despertar, automaticamente acordei por volta das quatro da
matina com algo cutucando minha cabeça e trazendo-me recordações do meu antigo
e inesquecível Grupo escolar São Francisco. Foi nessa escola que, um dia, um
mundo novo se descortinou para mim na primeira aula do ano letivo de 1960. Começava
ali, no Grupo Escolar São Francisco, primeira série do primário, minha vida de
eterno estudante. Daquele dia em diante nunca mais desgrudei dos livros ou de
rabiscar alguma coisa diariamente. Aprendi a devorar livros com a fome dos
bichos que acordam depois de longa temporada de hibernação. E é ao Grupo São
Francisco com seu corpo docente dos meus tempos de primário que responsabilizo
por essa fome que tenho de livros e das boas histórias de época.
Para minha sorte e grande regozijo, o prédio onde funcionou o
antigo Grupo São Francisco conserva a mesma arquitetura de quando foi
construído. A única diferença é que naquele distante ano de 1960 a área ao
redor do prédio não tinha muro. De longe se via a edificação bem diferente das
demais em que funcionavam outras escolas daquele tempo. Observando-se a partir
da escola, para todos os lados se via o capinzal do qual emergiam as plantas
típicas do lavrado. Para os lados do
hoje Parque Anauá, coisa de uns 300 metros adiante havia uma extensa baixa que
no inverno virava uma grande lagoa. Nos intervalos, mesmo com a severa
proibição, um bando de meninos danados corria pra tomar banho no límpido espelho
d’água.
Posso dizer, sem medo de errar e sem saudosismo piegas: o
ensino repassado pelas professoras do Grupo São Francisco tinha seu valor! No
final de ano ou de cada semestre não havia necessidade de recuperação. Quando
muito, aquilo que se chamava de segunda época, no período das férias de janeiro
e fevereiro. Mas ai de quem ficava pra segunda época... Tinha que se rebolar!
Aluno preguiçoso repetia até passar ou dava no pé. A história se repetia nas
demais unidades de ensino contemporâneas.
Quando comecei minha primeira série estava com 11 anos.
Comecei minha vida de estudante um pouco tarde. Cheguei a Boa Vista em agosto
de 1959 vindo de uma localidade totalmente desconhecida das brenhas do
Maranhão. Não sabia ler nem escrever. Aliás, nunca tinha visto ao que se
chamava na época de cartilha do ABC. Mesmo assim minha tia já se decidira por
me matricular na primeira série do primário (saltando o pré-primário) ao chegar
o início do ano letivo de 1960. E aqui cabe um parêntese para tratar desse
assunto. Como iniciaria na primeira série sem saber patavina de leitura, de
escrita e de tabuada? Mas aqui entra a primeira parte da história para poder chegar
ao Grupo Escolar São Francisco. Minha diligente tia Ester já pensara em tudo.
Em conversa com a professora Lidia Coelho (Tavares, após o casamento), esta
assumira o compromisso de desasnar o moleque sambudo que chegara do Maranhão.
Sambudo sim, mas doido para aprender a ler! Não encontrei dificuldades diante
dos rudimentos do saber. Do que posso lembrar, só estranhei mesmo a primeira
cartilha. A professora me dissera: olha aqui, tudo o que existe no mundo tem
nome, e esses nomes se escrevem com as letras do alfabeto que se constitui de 23
letras que vão de A a Z. Você vai aprender a reconhecer as letras relacionando-as
aos objetos, animais ou aves desta cartilha. Por exemplo:
– Que figura é este da
primeira página?
– É uma asa, respondi.
– Muito bem! Pois o nome
asa começa com a letra A, entendeu?
– Sim, professora. Respondi.
Mas a coisa empacou logo na quinta, sexta e sétima letras:
Que bichão era aquele com enormes orelhas e rabo na cabeça e na bunda? E o animal
seguinte, um bicho deitado numa imensa superfície branca como algodão, com
arremedo de patas e uma bola no focinho? E o outro, tão alto que alcançava as
copas das árvores? Hoje sei que se Gilberto Freire tivesse idealizado aquela
cartilha jamais teria colocado para ilustrá-la objetos, animais ou aves
desconhecidos dos brasileiros carentes de alfabetização. Quem nas mesmas
condições e tendo vindo de um lugar como aquele de onde cheguei saberia
identificar de primeira um elefante, uma foca ou uma girafa? Ou bichos como
hipopótamo, javali, lhama e zebra? Frutas como maçã e uva? Lugares como um
Oasis ou ainda embarcações como um navio? Nunca tinha visto e nem sabia da
existência desses bichos, coisas ou lugares. Por aí se vê minha dificuldade
inicial no tal processo de aprendizagem do alfabeto. Ainda bem que o problema
foi passageiro. Graças o ímpeto com que busquei aprender. No natal do mesmo ano,
um pouco mais de três meses e meio, já brindava os de casa com a correta
leitura de quaisquer textos que aparecessem e a tabuada na ponta da língua.
O aprendizado continuou. E agora sentimos que é o momento
certo de fazer lembrança do saudoso Grupo São Francisco, da diretora e das
professoras. Sim, diretora e professoras porque lá no Grupo São Francisco não
existia a figura masculina do diretor e professor. Pelo menos enquanto fui
aluno daquela escola. A Diretora chamava-se Joana da Silva e as professoras:
Diva Sindeaux, Doquinha Cavalcanti, Lidia Coelho, Lúcia Menezes de Bezerra e
Catarina Miraboa. Todas elas excelentes professoras. Uma aula de uma dessas
professoras é o que modernamente se poderia chamar de show de bola!
A disciplina da escola era rígida; tanto no aspecto
comportamental como em relação à cobrança das matérias. Mas não se diga que
havia um clima de medo. Isso não. Diante de atos de indisciplina, briga entre
colegas e o que hoje se chama de bullyng – que já existia, e muito! – a
diretora resolvia todas as paradas sem precisar chamar pais ou responsáveis.
Ninguém tinha coragem de enfrentar ou ameaçar professores como nos dias atuais.
Os alunos se pelavam de medo do quarto escuro[1].
Com relação a esse tal quarto escuro posso revelar hoje: não existia. E por que
digo isso? Porque nesse período de grupo São Francisco, talvez eu tenha sido o
aluno que mais brigou! Também, pudera! Recém-chegado do interior do Maranhão,
todo moleque que se dizia da cidade queria limpar as mãos em mim. Bullyng,
puro! Tinha que me defender. No início apanhei bastante... Mas, da metade pro
fim virei galo de briga e nunca mais levei desaforo pra casa nem levei a pior.
Inúmeras vezes fui levado à diretoria para – como acreditavam os colegas – ser
trancafiado no quarto escuro. Mas aqui cabe nova revelação: A cada briga – que acontecia
sempre no intervalo – a diretora Joana chamava minha professora para se
informar sobre meu comportamento em sala e minhas notas. A resposta como sempre
conspirava a meu favor. Comportamento excelente e notas nunca abaixo de
noventa, respondia a professora. Naquele tempo computavam-se as notas de zero a
cem. Para os melhores alunos tinha até cem estrelado (100*). A diretora Joana, então, botava-me de frente
pra ela na sua mesa e mandava-me ler algum texto do livro “Meu Tesouro”, da
professora Zélia, correspondente a série que eu estava fazendo. Fiz isso até a
quarta série e nunca vi o tal quarto escuro. Como se diz hoje, nota dez para a
saudosa e querida diretora Joana, que com sabedoria soube me defender dos meus
agressores e, de quebra, fez despertar-me o gosto pela leitura em situação tão
adversa. Acrescente-se ainda, não permitindo que eu virasse um moleque
revoltado avesso à escola.
Poderia relacionar inúmeras passagens das quais fui
protagonista e às vezes quase vítima durante meu período como aluno do Grupo
Escolar São Francisco. Contarei somente duas para terminar e não cansar tanto o
leitor:
A primeira história em questão se deu na véspera do natal de
1960. Adianto que foi minha segunda decepção com tal “bom” velhinho de barbas
brancas. No natal passado ele me aprontara uma de lascar! Não vale a pena
repetir esta história aqui. Mas vamos a esta segunda decepção: A turma estava
bastante animada sabendo que o natal estava às portas. A professora Lidia
Coelho na aula anterior avisara que todos se preparassem para fazer um pedido
por escrito ao Papai Noel. Na realidade, a professora pretendia matar dois
coelhos com uma só paulada: ensinar os alunos sobre um dos personagens mais
queridos da cristandade e treiná-los na arte de escrever textos mais elaborados.
Confesso que a decepção do natal anterior me deixara um tanto
ressabiado com o “bom” velhinho. Mas como respeitava muito a professora que me
ensinara a ler e escrever confiei que um pedido recomendado por ela
sensibilizaria o tal Papai Noel. Ato contínuo ela passou para cada aluno uma folha
de papel almaço com pauta dizendo que o pedido deveria ser feito em no mínimo
dez linhas e máximo a critério de cada um. De pronto fiz a margem e comecei a escrever.
Enchi a primeira página, a segunda, a terceira, e quando estava terminando as
últimas linhas da quarta página notei que faltava muita coisa ainda para
terminar o pedido. Solicitei outra folha da professora. Nisso todos já tinham
entregado seus pedidos e eu ainda pela metade. A professora ficou intrigada com
tanta escrevinhação! Viu-se obrigada a perguntar-me o que tanto pedia ao Papai
Noel. Advertiu-me: só vale um pedido meu jovem. Eu sei professora. É que estou
pedindo uma bicicleta de três marchas, com todos os equipamentos e acessórios.
Estou relacionando tudo. Não quero que esse Papai Noel esqueça nada. No natal
passado ele me deu a porcaria de um minúsculo carrinho de plástico. Estou falando
tudo isso pra ele. O pedido é um só, mas quero que ele se lembre de tudo. A
senhora pode me dar mais uma folha de papel? A professora Lidia me deu mais uma
folha. Ao finalizar o texto ela ficou espantada! Entreguei-lhe as duas folhas
de papel com as oito páginas totalmente preenchidas. Comentou isso com a
diretora e os demais professores. Soube que ficaram impressionados! Mas, e o
Papai Noel? O salafrário nunca passou em casa para me entregar a bicicleta que
pedi. Mais uma que ele aprontou pra cima de mim. E tem sido assim até hoje. Às
favas com esse tal bom velhinho.
Outra parada indigesta que tive de suportar por vários meses,
acossado que fui pela gozação de meus colegas, se relaciona a visita que o
então governador do Território fez ao Grupo. O governador chamava-se Francisco
de Assis Albuquerque Peixoto. Este tomou posse no dia 23 de fevereiro de 1963
por indicação de Gilberto Mestrinho que tinha sido eleito deputado pelo
Território na eleição do final do ano anterior. O governador, aproveitando para
conhecer as escolas e seus funcionários, com o diretor de educação e a diretora
do Grupo fazia o levantamento de quantas crianças precisariam de farda e
sapatos para as comemorações do dia 7 de setembro daquele ano. O próprio
governador indo de sala em sala botava o olho aluno por aluno e ia dizendo quem
precisava ou não de novo fardamento. Ao
chegar a minha vez fiz como minha professora Catarina tinha ensinado e como
todos faziam na presença do governador: com um leve declinar de cabeça o
cumprimentei respeitosamente e continuei de pé para que ele me olhasse
direitinho e externasse sua decisão. Decepção! Para minha surpresa o governador
falou: esse aqui está muito limpo e com a farda em ordem. Não está precisando
de fardamento novo. Os pais com certeza podem arcar com as despesas dele. O
fardamento é para criança pobre. Engoli aquilo em seco e corei de indignação!
Imediatamente enchi-me de coragem, levantei a perna direita e mostrei o solado
do sapato com um enorme buraco. Falei:
– Seu governador, eu sou
pobre, moro com meus tios, só tenho essa farda e ganhei estes sapatos dos
americanos da minha igreja.
– Mas que menino audacioso
é esse, diretora? Anotem duas fardas e dois pares de sapatos pra ele. Foi a
única coisa que disse. Com um leve sorriso mandou que me sentasse. Obedeci-o,
estatelado!
Um mês depois, se não me falha a memória, por volta do dia 22
ou 23 de agosto daquele ano o diretor de educação apareceu para entregar as
novas fardas e sapatos para os alunos necessitados. A audácia (ou desespero?) me
agraciara com duplo fardamento e sapatos. Que bom, finalmente iria calçar
sapatos de primeira mão. Até ali minhas roupas e sapatos eram todas de segunda
mão doados pelos missionários gringos que frequentavam minha igreja. Mas paguei
alto preço por isso. Meus desafetos, que ficaram morrendo de inveja, passaram a
me perseguir mais ainda. Pior, desses que não gostavam de mim alguns estavam na
fila e ouviram quando disse ao governador que tinha ganhado os sapatos dos
americanos. Resultado: passaram a me aporrinhar a todo o momento com o apelido
de Americano. E em que dava isso? Peleja todos os dias!
Contudo, afora esses senões que ninguém podia controlar o
Grupo Escolar São Francisco foi de grande importância na minha vida! O grupo,
minha bondosa diretora Joana e as professoras mais queridas e competentes do
mundo que passaram por minha vida!
[1] Um
pequeno compartimento sem luz, que se dizia existir em toda escola pertinho da
sala da diretoria. A lenda era a de que todo aluno que fosse flagrado brigando,
faltando aula ou bagunçando na sala de aula era levado para aquele lugar.
coloquei o comentário na matéria errada, W F L.
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