ELIM,
MEU PARAÍSO SECRETO
José Henrique Ferreira
Leite
Escritor bissexto.
Alguém duvida da existência de paraísos na terra? Pois não
duvidem, eles existem. E não precisa ser um lugar com árvores, rios, cascatas,
pássaros e um céu azul sempre estrelado com anjos vestidos de branco pra lá e
pra cá. Tudo bem que um lugar assim é mesmo um paraíso. Mas, às vezes, o
paraíso para alguém basta que atenda suas expectativas naquilo que lhe traz
felicidade. E não há felicidade eterna. Isso simplesmente não existe. Se
existir pode ser tudo, menos felicidade. Não sei por que, mas a cristandade
deslocou o paraíso para fora da terra colocando-o não se sabe onde. Se se
perguntar a qualquer cristão, desses que acreditam que o paraíso fica fora da
terra dirá que está no céu ou que o paraíso é o próprio céu. Mas, e onde está o
céu? Nenhum cristão sabe responder. Conclusão: no máximo saberá dizer que o céu
ou paraíso é um lugar de muito gozo. Bem, essa é uma discussão para ser
resolvida pelos teólogos; ou quem sabe, para ser definida no dia do juízo
final. Por enquanto cuidemos dos paraísos que existiram ou existem na terra. Eu
por exemplo, conheço vários paraísos aqui pertinho de Boa Vista e mais distantes,
mas todos aqui na terra. Quero falar de um deles, agora.
No mês de outubro de 1959 – esse foi talvez o ano mais
importante de minha vida – com uma semana de antecedência, a meninada de casa
foi avisada de que no sábado seguinte haveria piquenique da igreja. Coisa nova
para mim. Recém-chegado na cidade e na igreja batista, não sabia nada dos
costumes dessa gente. Mas diante da
alegria dos meus primos e vizinhos – que já sabiam o que era um piquenique –
embarquei na onda e fiquei muito animado também. E não foi animação à toa.
Quando chegou finalmente o dia tão esperado, por volta das oito e meia da manhã
uma velha caminhoneta dos gringos da igreja chegou ao portão de casa para levar
toda a família para o tal piquenique. Dez pessoas entre adultos e crianças
embarcaram naquele veículo. A caforinga saiu lotada com destino ao local do
convescote. Mas que lugar era esse que despertava tanto interesse quando se
falava em piquenique da igreja? Adiante revelarei. Por enquanto direi que
ficava dentro dos limites da propriedade da Igreja Batista Regular de Boa
Vista, uma considerável área de 41 hectares, hoje tomada pelo Bairro “Parque
Caçari”. Atualmente a área da igreja está reduzida a menos de dez hectares, mas
com estrutura para encontros, convenções, seminários e retiros espirituais.
Voltando ao fio da meada, com a nossa chegada dava-se a
última viagem da velha caminhoneta. No local pude observar que já tinha um
punhado de gente da igreja aboletada debaixo de árvores de copas verdíssimas,
toalhas estendidas sobre a areia muito fina e branca e a água cristalina do rio
Cauamé lambendo os pés das pessoas. De longe dava pra sentir o cheiro gostoso –
de galinha caipira bem temperada, macarrão, vatapá e farofa – carregado pela
fresca brisa de outubro. Todos os anos e naquela mesma data mais de quarenta
pessoas da igreja entre adultos, jovens, adolescentes e crianças se reuniam
naquele lugar para um dia de descontração e descanso. Já todos reunidos o líder
da igreja fazia pequena preleção seguida de oração e recomendações. Após esse
momento todos estavam liberados para o banho, jogos e pescaria. Fiquei
encantado com o lugar. Amor à primeira vista! Não que não houvesse lugares tão
ou até mais bonitos do que aquele. Sim, havia. Mas aquele se tornou especial
para mim. E o motivo se verá a seguir.
Foi lá, naquele sítio, que vivi os melhores dias da minha
vida no fim da infância (estava com onze anos), toda a adolescência e parte da
juventude. Três fortes lembranças me incitaram a escrever este texto: Em
primeiro lugar foi naquele oásis que do terceiro piquenique em diante comecei a
sentir pela primeira vez o despertar de umas vibrações estranhas quando via
passar por perto certa garota da igreja. Eros por certo já me cutucava a libido.
Foi lá que, sem que houvesse alguém para me explicar – era muito novo para
entender dessas coisas – fui tomado por uma sensação avassaladora que me fazia
olhar para aquela sílfide como fosse a encarnação de uma deusa a ser cultuada.
Mas o estranho é que junto com as vibrações de pura veneração brotavam também
ímpetos de abraçar e beijar aquela fada. Foi naquele lugar, dos treze anos em
diante que pela primeira vez o mundo das fantasias infantis foi cedendo espaço
a sensações que antes desconhecia. Foi ali, no meu paraíso secreto que, mesmo
nos raros momentos em que pude tocar as mãos ou flagrar um fortuito olhar
daquela diva quase inacessível que descobri a paixão. Paixão que tantos anos
depois faz lembrar-me das alterações emocionais, do suor frio e do aumento da
pressão e do ritmo cardíaco que a presença dela causava em mim. Vão-se mais de cinquenta
anos, mas recordo dos arrepios e da felicidade indescritível que sentia diante
daquela fada de carne e osso. Aquilo não era apenas atração fraternal. Era
atração hormonal.
Em segundo lugar, outros momentos de grande alegria proporcionados
pelo meu paraíso secreto aconteciam a partir da tardezinha das sextas-feiras
até o final do dia seguinte. E que momentos! O que poderia acontecer de melhor
na vida de um adolescente do início da década de sessenta do que passar a noite
com amigos correndo pra lá e pra cá na imensa praia Caçari, no Elim? Algo
melhor do que já com sono deitar-se de papo pro ar de olhos grudados na
imensidão do céu salpicado de estrelas? Coisa mais fascinante do que assistir,
momento após momento, estrelas cadentes riscando a escuridão celeste?
E, as pescarias... Quanto peixe se pescava! E, ali mesmo, sobre
um rústico jirau de varas verdes um enorme pirandirá era imediatamente assado e
comido vorazmente! Repito: sair com os colegas da Ville Roy para pescar no
caçari era a maior das diversões do meu tempo. Pelo menos para mim. Fazia de
tudo pra dar conta das tarefas de casa até meio dia das sextas-feiras. A
molecada da vizinhança toda ajudava. Lá pelas quatro da tarde saíamos em bando
e só voltávamos sábado à tardinha. Normalmente a pescaria rendia muitos peixes:
O Cauamé tinha uma variedade e uma quantidade enorme deles. Entre outros:
Tucunaré, surubim, jandiá (jundiá), pirandirá, pirapucu, pirarara, sulamba,
pescada, Aracu, pacu, cará, matrinxã, jaraqui, mandi, curimatã, cubiu, sardinha,
jacundá etc. Tinha também uma grande variedade de piabas que pegávamos para
fazer isca. A do rabinho vermelho era a preferida dos tucunarés, pirandirás e
pirapucus, peixes vorazes e valentes na linha! Às vezes a pescaria era tão boa
que era preciso dar uma viagem a cidade trazendo a peixada para não apodrecer.
Isso dava uma reforçada no cardápio da casa. A pescaria era um programa e
tanto! Mas, exigia certos cuidados: primeiro com as cobras venenosas na beira
do rio e as sucuris dentro d’água. Dificilmente eram vistas, mas todo mundo
sabia que elas estavam ali pertinho da gente. Além das cobras venenosas e das
sucuris no rio, dois outros bichos da água metiam medo e era preciso muito
cuidado com eles: as raias (arraias) com suas ferroadas de dor insuportável e
custosas de sarar e o poraquês cujos choques podiam até matar. Acidentes com
bichos como esses era fim de pescaria, na certa! A molecada já sabia: caminhar
dentro d’água arrastando os pés na areia para evitar ferroada das arraias. Não
tomar banho perto de galhadas nem locais profundos e de muitas pedras; aqueles
eram os lugares preferidos dos poraquês e das sucuris. No mais era só alegria!
Por último, quando já saía da adolescência para a fase jovem
devo lembrar os retiros espirituais da igreja durante o período da quadra
carnavalesca. O local para esse evento ficava e ainda hoje fica na parte alta
do lugar, afastado uns trezentos metros da praia. Todo ano um mês antes do
retiro se construía rústicos barracões de palha para pernoite e demais
atividades do evento. Ainda bem jovem, sempre participei dos retiros da igreja
com muito interesse e responsabilidade. Os retiros me proporcionaram momentos
de muito prazer: Ora pelos importantes estudos bíblicos e assuntos outros de
interesse da comunidade batista, ora pelos momentos de lazer e brincadeiras de
salão e jogos variados, ora pelas boas oportunidades de engatar um namoro há
muito desejado. Em relação ao último item jamais me esquecerei de duas lindas
moçoilas da igreja que em momentos diferentes estraçalharam meu coração: Lóis e
Loilde. As amei de verdade. Mas na época não tinha pedigree suficiente para convencer
seus pais de que um dia perderia as pulgas (risos). Dos
primeiros retiros reforço, porém, meu grande interesse pelas atividades ditas
espirituais. Encarava e sempre encarei a aprendizagem bíblica com muita
seriedade e honestidade. Mesmo discordando muitas vezes de certos preletores
convidados. Às vezes, diante de textos bíblicos intrincados o hermeneuta
escorregava feio! Mas aquilo me despertava mais ainda o interesse e a vontade
de fazer altas indagações sobre o tema. Se para alguns esses eram momentos
enfadonhos, para mim eram de grande interesse. Foram momentos úteis de grande
proveito e que me deram a base teológica dos princípios cristãos que abracei
para sempre. Mas não me transformei num tipo religioso ortodoxo nem conservei
idiossincrasias que alguns contemporâneos meus ainda adotam. Virei um cristão
de livre pensar.
Por fim, pondo um ponto final neste texto, faço lembrança de
uma frase que me foi dita por uma grande amiga e ex-missionária presbiteriana,
Julieta. Disse-me ela ao tentarmos compreender o paraíso descrito no apocalipse:
“Sabe, José, esse paraíso do apocalipse com ruas calçadas de ouro e encravadas
de pedras preciosas não me atrai muito, não! Um paraíso sem o sol, sem as
estrelas, sem os mares, sem árvores, sem pássaros... Sei não... Acho que a
terra com uma pequena reforma daria um melhor paraíso!” Concordei com ela na
bucha!
Por isso é que meu paraíso secreto tinha tudo isso de que ela
falou. Um ELIM me bastaria!