O
ANTIGO MERCADO
José
Henrique Ferreira Leite
Escritor
bissexto.
Não tenho dúvida de que aqueles que tinham entre oito a dez
anos em 1960, hoje sessentões, devem lembrar muito bem do mercado que ficava na
Rua Floriano Peixoto fazendo fundo para o Rio Branco, exatamente no local onde
hoje funciona o Centro Multicultural de Boa Vista. Chegava-se ao mercado
descendo pelos degraus da curta escada que ainda está mo mesmo lugarzinho, e
que se inicia entre duas colunas do velho muro de balaústres construído pelos
dois primeiros governadores do Território do Rio Branco.
Particularmente, conservo vivas recordações do velho mercado.
Era pra lá que ao completar meus doze anos, de vez em quando, pela parte da
tarde, ia ajudar meu tio postiço Antônio Seabra no pesado serviço da acanhada
fábrica de gelo que ocupava parte da ala esquerda de quem entrava no prédio. O
mercado tinha um desenho interessante: quatro edificações unidas pelos cantos
formando um quadrilátero, deixando internamente um amplo espaço descoberto. A
área descoberta servia para a circulação de mercadorias e movimentação dos
frequentadores do mercado. O prédio foi especialmente divido em vários boxes para
o comércio de carne e mercadorias variadas de primeira necessidade.
Dos que faziam do
mercado seu local de trabalho, os magarefes predominavam no pedaço e eram bem
conhecidos de todos que trabalhavam ou iam fazer compras ali. Era uma classe
barulhenta. Nos meus momentos de folga, quando todas as fôrmas já estavam
cheias d’água e nos seus devidos lugares para fazer o gelo, gostava de ficar
ouvindo os gritos, brincadeiras e piadas daqueles homens que pareciam ser muito
felizes. Dos magarefes lembro bem do seu Pedro Maçarico, Pagão, Palheta,
Raimundo Magarefe, entre outros que atendiam a clientela com muita animação e
esbanjando bom humor. Meu tio postiço Antônio Seabra, responsável pela fábrica
de gelo, se misturava com eles para contar suas piadas. Contava-as diariamente
sem nunca repetir uma só. A turma que ganhava o pão de cada dia ali fazia roda
para ouvi-lo. Ficou conhecido como o maior contador de piadas do mercado. Para
sua tranquilidade o Otoniel não aparecera ainda por essas bandas. Havia piadas
de todos os níveis e para todos os gostos. Esses momentos de folgança iam até
que um dos magarefes – batendo com força e repetidamente o afiador de facas na
bancada – avisava que a carne estava chegando do curre[1].
Aquele aviso mudava toda a movimentação do mercado. Cada um que já tinha
deixado sua cesta marcando lugar na fila do magarefe de sua preferência corria
para evitar que algum furão entrasse na sua frente e fosse atendido primeiro.
Não faltava gente dessa natureza. Por exemplo, se era pessoa do alto escalão do
governo o melhor era ficar calado mesmo. Esses sempre gozaram de privilégios em
qualquer lugar do Brasil. Não seria em uma comunidade simples e provinciana
como a nossa que isso não haveria de acontecer. Adiantaria reclamar? Deixemos
isso pra lá e vamos cuidar de outras figuras e fatos que marcaram a vida do
velho mercado de Boa Vista. Já falamos dos magarefes, a classe mais numerosa,
barulhenta e organizada do mercado. Agora é a vez dos proprietários de boxes
que vendiam mercadorias em geral. Minha memória acusa três desses comerciantes: o senhor Vicente Eloi,
que ocupava dois boxes. Seu comércio era sortido e tinha ótima freguesia. Além
disso, dominava o mercado com o melhor café torrado e moído na hora. O cheiro
do gostoso café se espalhava por todo o ambiente do mercado. Outro comerciante
era o senhor Antônio Venâncio, que ocupava um boxe menos sortido, mas era sócio
de seu compadre Vicente Eloi em outros negócios. Por último, um sujeito branco
cheio de sardas, baixo e atarracado, entonado no seu indefectível conjunto de
calças e camisa de linho branco ou amarelo sempre bem engomado. Nunca soube do
seu nome. Todos o conheciam pelo apelido de Russo (ou Ruço?). Tinha fama de
rico e ocupava sozinho três boxes. Seu estoque de mercadorias era o maior do
mercado.
Não devo esquecer, porém, que do lado de fora do mercado
floresceu um movimentado comércio paralelo que vendia os mais variados produtos
e mercadorias. A fiscalização era quase nenhuma. Cada um ia chegando, construía
e instalava seu quiosque no padrão e no lugar em que bem entendesse. Eram
instalações precárias com pouca preocupação com a estética e a higiene. Aliás,
os restos estragados dos produtos desse descuidado comércio, bem como dos que
funcionavam dentro do mercado – frutas, verduras, cascas, papelão, vidros,
ossos, sangue, etc. –, tudo era jogado na ribanceira do rio. O que não caía na
água os cachorros e urubus tomavam de conta. De qualquer maneira, nunca se
ouviu falar de problemas de contaminação séria entre os que trabalhavam ali ou
dos seus usuários. Bem, eu era menino e dessas coisas não cuidava ainda.
Precariedade das instalações e higiene deficiente à parte,
não consigo lembrar-me dos nomes dos comerciantes que atuavam do lado de fora
do mercado, com exceção de um: o inesquecível Tenório. Quem daqueles que iam ao mercado para comprar
carne não se recorda dele? O homem vendia o melhor mungunzá da cidade naquele
mercado. Não tinha sentido algum ir ao mercado e não passar pelo Tenório para
tomar uma boa porção do delicioso mungunzá temperado com canela, servido numa tigela
branca fumegando. Tenório era sinônimo de parada obrigatória. Tem mais: Ao
domingos, quem quer que fosse ao mercado tinha que levar uma ou duas latas de
leite ninho bem limpinhas para trazer daquele mungunzá pra casa. No café da
manhã dos domingos de muitas famílias rio-branquenses daquele tempo não podia
faltar na mesa o delicioso mungunzá do Tenório.
Outro hábito da época: comprar gelo no mercado. Normalmente
um terço ou meia barra. Dependendo da necessidade da casa. O senhor Antônio
Seabra sabia recortar com perícia uma barra de gelo. Não estragava quase nada.
Para chegar a casa com a pedra d’água intacta, o comprador enrolava-a num saco
de estopa com serragem de madeira ou palha de arroz e a prendia na garupa da
bicicleta. Explica-se: na maioria das casas das famílias da década de 50 e 60,
não havia geladeira, nem freezer nem caixa de isopor. Só as famílias mais
abonadas, desfrutavam desse luxo. E geladeira tocada a querosene. Comprava-se
este combustível em latas de dezoito litros. O bom era o que trazia o desenho
de um jacaré. Quem não possuía geladeira nem podia comprar gelo todo dia
remediava-se com bons potes de barro. Tinha deles que com o ventinho constante
do verão esfriava tanto que suava[2].
Esse era dos bons! Se o pote não era do tipo suador, enrolava-se um saco de
estopa molhado em torno dele e o problema estava resolvido. O bichinho virava
uma geladeira! Em última instância, quando tinha gelo em casa jogavam-se umas pedras
dentro do pote, e pronto!
Mas a fábrica de gelo do mercado atendia outra demanda: a dos
vendedores de rala-rala. Nesse caso a compra era maior. Vendedores da Praça
capitão Clóvis como seu (....) e(....) compravam normalmente uma barra e meia
em dia de semana e três ou quatro barras para os sábados e domingos. Nestes
dias o mercado fechava. O processo para a conservação do gelo era o mesmo.
Usavam serragem de madeira ou palha de arroz. As barras eram acondicionadas em
um dos compartimentos dos seus carrinhos de madeira de vender rala-rala.
Não gostaria de encerrar o texto com relato que não fizesse
boa lembrança do velho mercado de Boa Vista. Mas, por compromisso com a verdade
vejo-me obrigado a lembrar dos repetidos episódios que ali aconteceram em
certos momentos do início da década de 60. O que não diminui sua importância no
contexto histórico em que existiu. No ano de 1961, não sei o porquê, deu de
faltar carne na cidade. Nem todo dia da semana tinha o produto. Às vezes
faltava a semana toda. E, para piorar as coisas, o câmbio negro não custou a
aparecer. O comércio paralelo ditava o preço ao seu bel prazer. Pouca carne
chegava ao mercado. Para poder comprar, as pessoas tinham que correr pra lá já
pelas duas horas da madrugada. Havia gente que dormia colado ao portão quando
ouvia falar que a bendita carne chegaria pela madrugada. Até hoje não entendi o
porquê daquele horário tão impróprio. Mas foi assim por um largo período
daquele ano. O pior de tudo isso é que, além do horário, não havia o mínimo de
educação e respeito da parte dos adultos em relação aos meninos e velhos que se
acotovelavam na frente do portão fechado, na esperança de poder comprar seu
quilinho de carne. Ao ser aberto o portão, a multidão arrojava-se para dentro
do mercado feito estouro de uma boiada. Ai de quem caísse! Saía dali todo
machucado. Essa é uma página triste daquele saudoso mercado e que me faz lembrar
do velhinho de olhos empapuçados apelidado de Amigo da Onça que, sem forças
para enfrentar o tropel chegava ainda pela tarde no boxe do senhor Vicente Eloi
e tascava: Ô seu Vincente... Vinhará carne amanhã?
O mais... Só boas
lembranças!
[1]
Ouvia os mais velhos pronunciarem curre. Tudo indica, porém, que a palavra
correta é curro; ou seja, uma espécie de curral de espera do gado que vai ser
morto para consumo. Originalmente era e é o lugar anexo à praça de touros, e
onde estes ficam antes e depois da corrida.
[2]
Existiam potes de barro com fama de que esfriava bem a água. Dizia que esfriava
que suava, ou seja, pelos poros do pote brotavam minúsculas gotas d’água
deixando a parede externa úmida.
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