quarta-feira, 24 de outubro de 2012


ELIM, MEU PARAÍSO SECRETO
José Henrique Ferreira Leite
Escritor bissexto.
       
        Alguém duvida da existência de paraísos na terra? Pois não duvidem, eles existem. E não precisa ser um lugar com árvores, rios, cascatas, pássaros e um céu azul sempre estrelado com anjos vestidos de branco pra lá e pra cá. Tudo bem que um lugar assim é mesmo um paraíso. Mas, às vezes, o paraíso para alguém basta que atenda suas expectativas naquilo que lhe traz felicidade. E não há felicidade eterna. Isso simplesmente não existe. Se existir pode ser tudo, menos felicidade. Não sei por que, mas a cristandade deslocou o paraíso para fora da terra colocando-o não se sabe onde. Se se perguntar a qualquer cristão, desses que acreditam que o paraíso fica fora da terra dirá que está no céu ou que o paraíso é o próprio céu. Mas, e onde está o céu? Nenhum cristão sabe responder. Conclusão: no máximo saberá dizer que o céu ou paraíso é um lugar de muito gozo. Bem, essa é uma discussão para ser resolvida pelos teólogos; ou quem sabe, para ser definida no dia do juízo final. Por enquanto cuidemos dos paraísos que existiram ou existem na terra. Eu por exemplo, conheço vários paraísos aqui pertinho de Boa Vista e mais distantes, mas todos aqui na terra. Quero falar de um deles, agora.
        No mês de outubro de 1959 – esse foi talvez o ano mais importante de minha vida – com uma semana de antecedência, a meninada de casa foi avisada de que no sábado seguinte haveria piquenique da igreja. Coisa nova para mim. Recém-chegado na cidade e na igreja batista, não sabia nada dos costumes dessa gente.  Mas diante da alegria dos meus primos e vizinhos – que já sabiam o que era um piquenique – embarquei na onda e fiquei muito animado também. E não foi animação à toa. Quando chegou finalmente o dia tão esperado, por volta das oito e meia da manhã uma velha caminhoneta dos gringos da igreja chegou ao portão de casa para levar toda a família para o tal piquenique. Dez pessoas entre adultos e crianças embarcaram naquele veículo. A caforinga saiu lotada com destino ao local do convescote. Mas que lugar era esse que despertava tanto interesse quando se falava em piquenique da igreja? Adiante revelarei. Por enquanto direi que ficava dentro dos limites da propriedade da Igreja Batista Regular de Boa Vista, uma considerável área de 41 hectares, hoje tomada pelo Bairro “Parque Caçari”. Atualmente a área da igreja está reduzida a menos de dez hectares, mas com estrutura para encontros, convenções, seminários e retiros espirituais.  
        Voltando ao fio da meada, com a nossa chegada dava-se a última viagem da velha caminhoneta. No local pude observar que já tinha um punhado de gente da igreja aboletada debaixo de árvores de copas verdíssimas, toalhas estendidas sobre a areia muito fina e branca e a água cristalina do rio Cauamé lambendo os pés das pessoas. De longe dava pra sentir o cheiro gostoso – de galinha caipira bem temperada, macarrão, vatapá e farofa – carregado pela fresca brisa de outubro. Todos os anos e naquela mesma data mais de quarenta pessoas da igreja entre adultos, jovens, adolescentes e crianças se reuniam naquele lugar para um dia de descontração e descanso. Já todos reunidos o líder da igreja fazia pequena preleção seguida de oração e recomendações. Após esse momento todos estavam liberados para o banho, jogos e pescaria. Fiquei encantado com o lugar. Amor à primeira vista! Não que não houvesse lugares tão ou até mais bonitos do que aquele. Sim, havia. Mas aquele se tornou especial para mim. E o motivo se verá a seguir.      
        Foi lá, naquele sítio, que vivi os melhores dias da minha vida no fim da infância (estava com onze anos), toda a adolescência e parte da juventude. Três fortes lembranças me incitaram a escrever este texto: Em primeiro lugar foi naquele oásis que do terceiro piquenique em diante comecei a sentir pela primeira vez o despertar de umas vibrações estranhas quando via passar por perto certa garota da igreja. Eros por certo já me cutucava a libido. Foi lá que, sem que houvesse alguém para me explicar – era muito novo para entender dessas coisas – fui tomado por uma sensação avassaladora que me fazia olhar para aquela sílfide como fosse a encarnação de uma deusa a ser cultuada. Mas o estranho é que junto com as vibrações de pura veneração brotavam também ímpetos de abraçar e beijar aquela fada. Foi naquele lugar, dos treze anos em diante que pela primeira vez o mundo das fantasias infantis foi cedendo espaço a sensações que antes desconhecia. Foi ali, no meu paraíso secreto que, mesmo nos raros momentos em que pude tocar as mãos ou flagrar um fortuito olhar daquela diva quase inacessível que descobri a paixão. Paixão que tantos anos depois faz lembrar-me das alterações emocionais, do suor frio e do aumento da pressão e do ritmo cardíaco que a presença dela causava em mim. Vão-se mais de cinquenta anos, mas recordo dos arrepios e da felicidade indescritível que sentia diante daquela fada de carne e osso. Aquilo não era apenas atração fraternal. Era atração hormonal.
        Em segundo lugar, outros momentos de grande alegria proporcionados pelo meu paraíso secreto aconteciam a partir da tardezinha das sextas-feiras até o final do dia seguinte. E que momentos! O que poderia acontecer de melhor na vida de um adolescente do início da década de sessenta do que passar a noite com amigos correndo pra lá e pra cá na imensa praia Caçari, no Elim? Algo melhor do que já com sono deitar-se de papo pro ar de olhos grudados na imensidão do céu salpicado de estrelas? Coisa mais fascinante do que assistir, momento após momento, estrelas cadentes riscando a escuridão celeste?
        E, as pescarias... Quanto peixe se pescava! E, ali mesmo, sobre um rústico jirau de varas verdes um enorme pirandirá era imediatamente assado e comido vorazmente! Repito: sair com os colegas da Ville Roy para pescar no caçari era a maior das diversões do meu tempo. Pelo menos para mim. Fazia de tudo pra dar conta das tarefas de casa até meio dia das sextas-feiras. A molecada da vizinhança toda ajudava. Lá pelas quatro da tarde saíamos em bando e só voltávamos sábado à tardinha. Normalmente a pescaria rendia muitos peixes: O Cauamé tinha uma variedade e uma quantidade enorme deles. Entre outros: Tucunaré, surubim, jandiá (jundiá), pirandirá, pirapucu, pirarara, sulamba, pescada, Aracu, pacu, cará, matrinxã, jaraqui, mandi, curimatã, cubiu, sardinha, jacundá etc. Tinha também uma grande variedade de piabas que pegávamos para fazer isca. A do rabinho vermelho era a preferida dos tucunarés, pirandirás e pirapucus, peixes vorazes e valentes na linha! Às vezes a pescaria era tão boa que era preciso dar uma viagem a cidade trazendo a peixada para não apodrecer. Isso dava uma reforçada no cardápio da casa. A pescaria era um programa e tanto! Mas, exigia certos cuidados: primeiro com as cobras venenosas na beira do rio e as sucuris dentro d’água. Dificilmente eram vistas, mas todo mundo sabia que elas estavam ali pertinho da gente. Além das cobras venenosas e das sucuris no rio, dois outros bichos da água metiam medo e era preciso muito cuidado com eles: as raias (arraias) com suas ferroadas de dor insuportável e custosas de sarar e o poraquês cujos choques podiam até matar. Acidentes com bichos como esses era fim de pescaria, na certa! A molecada já sabia: caminhar dentro d’água arrastando os pés na areia para evitar ferroada das arraias. Não tomar banho perto de galhadas nem locais profundos e de muitas pedras; aqueles eram os lugares preferidos dos poraquês e das sucuris. No mais era só alegria!
        Por último, quando já saía da adolescência para a fase jovem devo lembrar os retiros espirituais da igreja durante o período da quadra carnavalesca. O local para esse evento ficava e ainda hoje fica na parte alta do lugar, afastado uns trezentos metros da praia. Todo ano um mês antes do retiro se construía rústicos barracões de palha para pernoite e demais atividades do evento. Ainda bem jovem, sempre participei dos retiros da igreja com muito interesse e responsabilidade. Os retiros me proporcionaram momentos de muito prazer: Ora pelos importantes estudos bíblicos e assuntos outros de interesse da comunidade batista, ora pelos momentos de lazer e brincadeiras de salão e jogos variados, ora pelas boas oportunidades de engatar um namoro há muito desejado. Em relação ao último item jamais me esquecerei de duas lindas moçoilas da igreja que em momentos diferentes estraçalharam meu coração: Lóis e Loilde. As amei de verdade. Mas na época não tinha pedigree suficiente para convencer seus pais de que um dia perderia as pulgas (risos).   Dos primeiros retiros reforço, porém, meu grande interesse pelas atividades ditas espirituais. Encarava e sempre encarei a aprendizagem bíblica com muita seriedade e honestidade. Mesmo discordando muitas vezes de certos preletores convidados. Às vezes, diante de textos bíblicos intrincados o hermeneuta escorregava feio! Mas aquilo me despertava mais ainda o interesse e a vontade de fazer altas indagações sobre o tema. Se para alguns esses eram momentos enfadonhos, para mim eram de grande interesse. Foram momentos úteis de grande proveito e que me deram a base teológica dos princípios cristãos que abracei para sempre. Mas não me transformei num tipo religioso ortodoxo nem conservei idiossincrasias que alguns contemporâneos meus ainda adotam. Virei um cristão de livre pensar.
        Por fim, pondo um ponto final neste texto, faço lembrança de uma frase que me foi dita por uma grande amiga e ex-missionária presbiteriana, Julieta. Disse-me ela ao tentarmos compreender o paraíso descrito no apocalipse: “Sabe, José, esse paraíso do apocalipse com ruas calçadas de ouro e encravadas de pedras preciosas não me atrai muito, não! Um paraíso sem o sol, sem as estrelas, sem os mares, sem árvores, sem pássaros... Sei não... Acho que a terra com uma pequena reforma daria um melhor paraíso!” Concordei com ela na bucha!
        Por isso é que meu paraíso secreto tinha tudo isso de que ela falou. Um ELIM me bastaria!

2 comentários:

  1. Concordo também meu irmão, com uma boa reforma aqui na terra daria um ótimo paraíso. Abraços, Wilson F Leite.

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  2. O relato da primeira paixão me deixou com arrepios, assim como, concordar que o paraíso é no nosso planeta!!!

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