terça-feira, 11 de dezembro de 2012




SUSTO DE MATAR

José Henrique Ferreira Leite

Escritor bissexto.


        Não poucas vezes, ao longo da vida, vivemos momentos de intensa felicidade, tristeza e grandes sustos. Somos seres limitados. Não podemos fugir disso. No quadro dessas limitações está nossa total incapacidade de prever o que nos acontecerá já nos momentos seguintes, nos próximos segundos. Diante dessa absoluta falta de aptidão para prever o futuro, o dia a dia, por vezes, nos prega alguns sustos. Sustos que podem até trazer surpresas agradáveis. Sustos ocorrem, porém, que se fosse possível antevê-los passaríamos há milhares de quilômetros deles.
        Trinta e quatro anos já se passaram – mas lembro com toda nitidez – desde que levei um desses sustos de deixar o sujeito totalmente paralisado. Sim, porque no caso do susto que passo a contar, falar só da falta de ação não diz do verdadeiro estado em que fiquei. Na verdade, fiquei em situação de total desespero.
        O ano era o de 1978. O Coral da Secretaria de Educação e Cultura do então Território Federal de Roraima, sob a batuta do saudoso maestro Dirson Costa, era o que de bom possuía a terrinha em termos de cultura musical. O Coral da SEC, como era conhecido, depois de alguns anos de criterioso trabalho e rotineiros ensaios transformara-se em um dos bons corais do Brasil. Tanto que, à época vinha de alguns périplos por algumas capitais do país. A toda hora o coral recebia convites para encontros e temporadas Brasil afora. Até convites para apresentações internacionais. De Caracas e Lima os convites já estavam confirmados. O repertório dos seus quarenta e oito figurantes era de muito bom gosto, consistente e variado. Ia do rico acervo folclórico e popular brasileiro de todos os tempos e de diversos países. Sem contar que, o forte do repertório do grupo baseava-se em peças dos grandes compositores clássicos.
        O coral tinha uma diretoria comprometida e atuante. Naquele ano o grupo todo se empenhara na realização de uma série de promoções para angariar fundos com vistas a cobrir parte das despesas de viagem a Recife, onde iria participar de um encontro nacional de corais. Só uma parte dos recursos, porque naqueles bons tempos, o Governo do então Território Federal, que compreendia a importância da cultura, entrava com a maior parte das despesas de viagem do grupo. Havia sensibilidade da área governamental em relação àqueles que tinham talento, amor, disposição e coragem para enfrentar os duros e longos ensaios e viagens para levar o nome de Roraima aos mais distantes recantos do Brasil e países vizinhos. No caso, a viagem se daria em duas etapas: Até Belém, ida e volta com passagens de avião pagas pelo Governo. De Belém a Recife, ida e volta, despesas com frete de ônibus por conta dos componentes do coral. Por isso, as promoções para arrecadar recursos.
        Em 1978 a população de Boa Vista não chegava a 100 mil pessoas. Dava para envolver significativa parcela da sociedade em favor de uma específica atividade cultural. Para aquela viagem promoveu-se vários eventos como festas dançantes, bingo, feijoada, rifas de animais doados por fazendeiros, sorteio de quadros dos reconhecidos pintores regionais Walniro e Cardoso e um livro de ouro para receber doações de empresários, comerciantes e quaisquer outras pessoas que quisessem participar do projeto. Na época ainda existiam os mecenas da cultura. Além disso, como estímulo às doações, o coral se apresentava no Palácio da cultura, escolas, igrejas e sedes de municípios vizinhos.

        As promoções deram certo. Juntou-se recurso suficiente para fretar o ônibus e pagar alimentação para todo o grupo durante a viagem e mais uma pequena provisão para despesas não previstas.
        Aqui começa concretamente a história do grande susto que levei. Na qualidade de presidente do grupo, do qual gozava total confiança, saí de Boa Vista três dias antes da viagem para fretar o ônibus e esperar a turma já no aeroporto de Ponta Pelada, Belém, e dali mesmo seguir viagem para Recife. Na época não se dispunha dos bons e seguros cartões de plástico (débito/crédito) hoje tão difundidos e necessários. Tampouco, os caixas eletrônicos que tanto facilitam nossas vidas hoje em dia.
Embarquei com toda a grana arrecadada nas promoções. Algo (se atualizada) em torno de 30 mil reais. Como naquele momento não tinha uma bolsa a tiracolo, peguei a grana toda e coloquei dentro de uma daquelas pastas de cartolina com elástico e meti-a num enorme envelope pardo. Passei fita adesiva (durex) para fechar o envelope e escrevi em letras bem graúdas: “Encomenda aos cuidados do senhor José Henrique Ferreira Leite para ser entregue na casa das madres em Recife”. No outro lado do envelope tinha o meu endereço e telefone de Boa Vista e o mesmo do local em que o coral se hospedaria em Recife, um casarão habitado por madres. Viajei com aquela “encomenda” colada debaixo do braço. Compraria uma bolsa a tiracolo logo ao chegar ao aeroporto de Manaus no intervalo da conexão do voo para Belém.
        Cheguei na capital Manauara por volta das duas horas da madrugada. O voo para Belém estava previsto para as sete da manhã. Não era prudente nem compensaria ir para algum hotel da cidade naquele horário. Resolvi ficar ali mesmo no aeroporto até que abrissem as lojas. Nas vitrines de várias delas vi bonitas bolsas do tipo que desejava comprar.
        Como o movimento no aeroporto era quase nenhum, resolvi acomodar-me em uma das poltronas da sala de espera. Mas ao chegar à sala dei de cara com a colega Fátima Nogueira, integrante do coral, que vinha de um encontro de professores em Brasília e que também esperava conexão para Belém onde se juntaria ao grupo. Seu voo estava previsto para as oito horas em outra companhia aérea. No que Começamos a papear, informando-lhe o horário e a companhia em que viajaria, convenceu-me a transferir meu bilhete de passagem para o seu voo. Pertinho de onde estávamos, coisa de uns cinquenta metros, ficava o balcão da companhia da colega. Fui até lá pra fazer a transferência de voo. Maldita transferência! No que peguei o meu bilhete de passagem para entregar à funcionária que efetuaria a mudança, tirei o bendito envelope que carregava colado debaixo do braço esquerdo e o coloquei sobre o balcão com os cotovelos em cima dele. Efetuada a operação de mudança de voo, peguei o novo bilhete e saí tranquilamente, agora balançando os dois braços. Nem notei que algo se despregara do meu corpo.
        Lá pelas quatro da madruga, já cansado de papear, pedi licença da colega e busquei um jeitinho na desconfortável poltrona para tirar uma soneca. Ao tentar forrar a cabeça com o tal envelope recheado de dinheiro, a surpresa! Ele tinha sumido. Meu Deus! Como teria alguém furtado aquele pacote que andava grudado no meu corpo? Fiquei pálido e totalmente perturbado! Contei rapidamente para a colega o que tinha acontecido. E agora, o que fazer?
Naquele horário, afora alguns taxistas que conversavam na área externa do aeroporto não havia mais ninguém. Somente eu e a colega Fátima Nogueira naquela sala de espera. Em estado de choque, esquecera totalmente de que saíra para providenciar a transferência de voo. Minha colega então falou:
– José, meu amigo, vi quando você saiu com aquele pacote debaixo do braço. Quem sabe não o deixaste em cima do balcão na hora de transferir o bilhete? A funcionária com certeza o guardou até o dono o procurar. Desespera, não...
        Nem quis ouvir mais nada. Saí em desembestada carreira chegando àquele balcão em pouquíssimos segundos. Não havia mais ninguém ali. Mas, em uma das prateleiras do balcão, lá estava um envelope pardo exatamente igual ao que carregava debaixo do braço desde que saíra de Boa Vista. Não pensei duas vezes: De um salto passei pra dentro do compartimento, agarrei com força o bendito envelope e corri para o banheiro mais próximo. Tranquei-me em um dos boxes e sentei no vaso já me desmanchando por dentro. Rasguei o envelope. Arranquei os elásticos da pasta e conferi a grana ali mesmo. Cédula por cédula. Não havia motivo para tanto desespero. O dinheiro estava todo ali.
        Ao retornar para junto da colega meu ânimo já era outro. A barriga totalmente esvaziada não doía mais e meu coração que havia disparado agora estava no seu tic-tac normal. O sono era coisa do passado. Estava amanhecendo. Algumas lojas já abriam suas portas. Corri para a mais próxima que abriu, comprei uma bonita bolsa a tiracolo da boa marca Sansonite e botei tudo dentro dela; inclusive o susto e a promessa da amiga Fátima de que jamais contaria essa história sem a minha permissão. Como estou contando isso agora, ela está livre para falar.
        Tirei uma boa lição disso. Não se deve andar por aí com envelopes soltos. Em algum momento ou em algum lugar você poderá esquecê-los.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012


UMA VIAGEM PRA NUNCA ESQUECER.
José Henrique F. Leite
Escritor bissexto


        A ansiedade pulsava nos corações daqueles circunspectos senhores. Alguns não conseguiam esconder o medo que sentiam por estarem na iminência de voar pela primeira vez. No pátio do acanhado aeroporto da pacata Boa Vista, que ainda dormia, os motores de um velho DC-3 da Força aérea Brasileira roncavam desesperadamente, fazendo toda a sua estrutura tremer. Dos canos de descarga em brasa viva saía uma grossa coluna de fumaça esbranquiçada. Seu Antônio Guida, um calejado agricultor da região do Taiano, passageiro daquele voo, irrequieto e pálido aproximou-se do mecânico da aeronave e disparou:
        - Ôoo seu oficiá, nois vai vuar nessa besta fera fumaçando assim?
        - Não se preocupe cidadão, esse é o avião mais seguro que já foi fabricado no mundo. Nem os alemães conseguiram derrubá-lo na segunda guerra mundial.
O velho passageiro aquiesceu. Mas sua expressão severa denotava que não ficara de todo satisfeito com as ponderações do confiante mecânico. A lividez estampada na cara do rijo agricultor dizia do seu grande arrependimento por ter topado aquela viagem a Brasília. Para reforçar os seus temores, um casal de maçaricos que morava na beirada da pista de pouso, incomodado com o movimento anormal daquela manhã, denunciou a invasão do seu território do jeito que os maçaricos sabem fazer, ou seja, esguelando-se a mil decibéis! Coisas de maçaricos. Para o seu Guida, aquilo soou como aviso, um sinal de mau agouro. Ora, mas se ninguém até ali se manifestara, desistindo da tal viagem, não seria ele, cabra macho que já enfrentara até onça na mata, que iria dar tamanha mostra de frouxidão. Já estava com um pé na escada, que viesse o resto, então.
Assim começava a viagem mais dramática e inusitada da minha vida, a começar pelos sujeitos que me acompanhavam e a encomenda que deveria entregar a uma alta autoridade da República.
Estávamos ainda envoltos pela penumbra daquela manhã em que o sol timidamente dardejava os primeiros raios, quando se ouviu a voz grave do comandante dando a ordem de embarque. Entre discretos sussurros, dez tensos senhores de meia-idade, esbarrando-se uns nos outros, subiram e tomaram assento na desconfortável aeronave. Não havia poltronas. Os assentos, todos de ferro, ficavam dispostos em duas fileiras fixadas no piso e recostados nas laterais da fuselagem do avião, de sorte que os passageiros ficavam um de frente para o outro, atracados por rudes cintos de segurança.
O voo previa escalas nas cidades de Manaus e Marabá, com pernoite na cidade de Porto Nacional e, finalmente, Brasília.
Os heroicos passageiros tinham sido escolhidos entre trabalhadores rurais e urbanos para participarem de um seminário sobre administração sindical – pasmem – patrocinado pela Presidência da República. Vivia-se àquela época, 1977, o período de distensão política do general Geisel, que impôs a transição da ditadura militar para o regime democrático de forma lenta e gradual. Tão lenta que, depois dele ainda veio o grosseiro general Batista Figueiredo, um presidente que gostava mais do cheiro dos cavalos do que do contato com o povo.
Viajar com aqueles homens, na maioria rudes trabalhadores, não foi tarefa fácil. Não tão delicada, porém, do que levar a encomenda da tal autoridade, vice-presidente da República. E veja-se que encomenda! Um casal de jaburus para enfeitar os gramados do palácio que leva o nome daqueles pernaltas.
Quem conheceu o Palácio Hélio Campos da década de setenta deve lembrar-se de um casal de jaburus que vivia ali. Com a morte da fêmea, o macho triste e agressivo passou a oferecer perigo a quem dele se aproximava. Com o pedido do vice-presidente surgiu a oportunidade de arranjar-lhe uma nova companheira. E ela existia e já o esperava no zoológico de Manaus.  
A viagem que estava prevista para dois dias, durou três com dois pernoites.
 Ao chegar a Manaus, a companheira do Jaburu de Boa Vista não estava pronta para embarcar, o que obrigou a pernoitar ali. Na manhã seguinte, como ocorrera na manhã anterior, os motores da velha aeronave ao serem ligados começaram a roncar com as falhas já conhecidas. Dessa vez, porém, a coluna de fumaça saía mais densa e mais escura. O seu Guida, sempre observador e precavido notou a diferença. Ensaiou dizer alguma coisa, mas calou-se diante do olhar severo do mecânico.
A aeronave alçou voo de Manaus e seguia sem transtornos, quando já perto de Marabá um dos motores começou a pipocar, parando de vez, minutos depois. Diante do medo dos passageiros, o comandante imediatamente saiu de sua cabina de comando e, sem demonstrar nenhuma preocupação, pediu calma, informando que o avião tinha condições de voar o restante do percurso com um só motor e pousar com segurança. Estava certo. Uma hora depois, sob os aplausos de todos, colocou aquela geringonça suavemente no chão de Marabá.
Aquela era uma situação que os tripulantes, ao que parece, já haviam encarado muitas vezes. O sargento mecânico conhecia as manhas daquela máquina. Não precisou de mais de quarenta minutos para fazer os motores rugirem novamente.
Nova ordem de embarque e lá estávamos obedientes e submissos dentro daquela geringonça que a toda hora ameaçava despencar. Não completara vinte minutos de voo e o segundo motor que até ali resistira bravamente, também deu sinais de que iria parar. Foi o que aconteceu logo a seguir. O medo tomou conta de vez dos passageiros. Só os jaburus pareciam não se preocupar com aquele alvoroço todo. Também, pudera, sabiam voar...  Mas o comandante era dos bons. Pouco tempo depois estávamos pisando o chão de Marabá outra vez. Nesse ponto alguns já queriam desistir da viagem. Mas de que jeito? Como voltar pra casa daquele lugar tão desconhecido?
Não havia outra opção senão encarar o velho avião mais uma vez. Ele já provara por duas vezes que era duro na queda. E, entre orações, rezas e esconjuros, outra vez embarcamos naquela geringonça, agora com proa direcionada para Belém, onde o comandante contava com a possibilidade de trocá-la por outra que pudesse levar a todos sãos e salvos ao destino traçado.
 Afora os pipocos dos motores que se repetiram na decolagem, nada de mais extraordinário aconteceu até Brasília. Isso fez renovar as esperanças e colocar fé nas palavras do mecânico de que se os alemães não conseguiram derrubar aquela aeronave, não seriam alguns pipocos que o fariam.         
O segundo pernoite foi nos alojamentos do aeroporto militar de Belém. Malgrado o cansaço, ninguém conseguia dormir. As conversas giravam sempre em torno do longo e desastrado voo. Será que aquela velha carcaça voadora suportaria o tranco até Brasília? A desconfiança era grande. No dia seguinte, contudo, embarcamos em um aparentemente mais conservado DC-3, o que trouxe relativa tranquilidade aos ressabiados passageiros.
Como das vezes anteriores, a decolagem foi às cinco horas da manhã. Depois de mais de duas horas de voo sem maiores percalços, a confiança de todos retornava pouco a pouco. Já havia até disposição para comer algo, coisa que no dia anterior ninguém sentira vontade. Não era para menos!
Os jaburus recusavam alimentos. Durante os três dias de viagem simplesmente rejeitaram os peixes oferecidos.
 Enfim, Porto Nacional, última escala antes de chegar a Brasília. Nessa altura é bom lembrar-se de dois personagens que fizeram parte daquela inesquecível viagem. O Salomão Filho, na época um rapaz dos seus vinte anos de idade que pegara carona em Boa Vista. Ia encontrar-se com o pai que já estava em Brasília para uma reunião de agropecuaristas. A outra carona, uma mulher atraente de aparentes quarenta anos, que se dizia enfermeira, embarcou em Belém, entocando-se na cabine de comando. Das vezes que saiu para conhecer os demais colegas de viagem, mostrou-se comunicativa e desenvolta. Tinha um jeito misterioso de falar e de olhar. Era, na verdade, uma personagem intrigante. Mas foi muito útil como se demonstrará a seguir.
Ao levantar voo de Porto Nacional, o cansaço era geral. Ninguém aguentava mais ficar sentado naqueles assentos de ferro. Cada um se arrumava como podia, procurando uma posição menos desconfortável. E, aqui, entra na história a figura do primeiro carona, um sujeito magricela e alto que possuía um enorme nariz, aliás, possui, pois está vivinho da silva.
Todos caiam de sono quando o magricela buscando posição mais confortável desafivelou o cinto de segurança e escorou-se no engradado em que estava um dos jaburus. O pernalta, que há a três dias não comia, meteu o enorme bico por uma das brechas do engradado e aplicou certeiro golpe naquele narigão, quase o decepando da cara do infeliz. Foi um momento de pavor! No primeiro instante, ninguém sabia o que tinha acontecido com o carona que, aos pulos, com a cara lavada de sangue e o nariz dependurado gritava desesperado: foi o jaburu, foi o jaburu! O bicho queria comer o meu nariz... A tal enfermeira, então, entrou em ação e pôs as ventas do sujeito no lugar, segurando-as até chegar a Brasília.
Assim chegamos a Brasília: Um grupo de estropiados trabalhadores, um carona com seu grande nariz seccionado e um casal de famintos jaburus. Ainda bem que chegados à capital do país, fomos alojados em um excelente hotel, o que nos permitiu uma bela noite de sono. Quanto ao carona, foi encaminhado a uma clínica para reparar o narigão avariado. Não se sabe se as aves sobreviveram, uma vez que durante a viagem rejeitaram os peixes oferecidos e o único alimento que despertou o apetite de um dos pernaltas escapou-lhe por um triz. Aquele enorme nariz bem que daria uma boa refeição para o faminto jaburu.
A semana na capital do país deixou a turma de trabalhadores deslumbrada. Rapidamente todos esqueceram a dramática viagem. O assunto agora estava voltado para o seminário, os passeios turísticos pela cidade, a excelente hospedagem, a apetitosa comida e o encontro com o presidente Geisel no palácio do planalto.
Mas, algo me atormentava. O retorno previsto para as cinco da manhã do sábado que estava às portas. Até ali eu me esforçara para demonstrar coragem e calma. Mas só eu sabia do medo que se apossara de mim. Não dormi um só minuto daquela noite que antecedeu o retorno. Porém, meus companheiros de viagem, com exceção do senhor Guida, davam sinais de tranqu/ilidade e mostravam-se felizes. Nenhuma lembrança da fatídica viagem da semana anterior parecia atormentá-los.
Cinco horas da manhã no aeroporto Internacional de Brasília. O ronco dos motores do velho DC-3 já se fazia ouvir. Seu Guida, despachado como sempre, não vendo sair fumaça escura dessa vez, foi logo disparando: É... Meus amigo, num tô vendo sair fumaça feia desse aí, não! Agora nois vai chegar é ligeiro! Tô falando pra vocês.
 E o velho DC-3 não decepcionou, mesmo. No mesmo dia, já pertinho das cinco horas da tarde, como previsto, estávamos na capital amazonense. Deu até tempo para fazer umas comprinhas na Zona Franca de Manaus.
Cinco horas da manhã. Aeroporto de Ponta Pelada. Pessoal na pista e mais uma vez o ronco dos motores do velho DC-3.
- E aí seu Guida, tá feliz? Perguntou um dos companheiros de viagem. Daqui a pouco, a gente bota os pés na terrinha, né?
- Num sei, não! Tu num tá vendo que a besta fera tá cum barulho deferente, agora? E oia a fumaça preta de novo! Agora só tá faltando os diabo dos maçarico...
O seu Guida estava certo. Com menos de duas horas de vôo os motores do avião começaram a pipocar. Agora eram os dois ao mesmo tempo. O avião começou a perder altura. Imediatamente o comandante saiu da cabina de comando e ordenou: sargento, abra a porta do avião. Vamos aliviar o peso da aeronave. Quem tiver dinheiro, documentos ou outros objetos de valor dentro das malas ou sacolas, retire-os para si e joguem toda a bagagem fora, imediatamente. Se necessário, vamos fazer um pouso de emergência no primeiro retão da estrada. Todos nos seus assentos com os cintos de segurança afivelados, peito sobre as pernas e boa sorte! 
O avião perdia altura e agora voava baixo sobre a estrada. Era tempo de rezar e entregar a alma a Deus. A aeronave baixava cada vez mais. As copas das árvores mais altas já podiam ser vistas acima das nossas cabeças. Pavor generalizado! Só a tripulação se mantinha calma. Os dois motores pararam simultaneamente seguidos de vários baques sob nossos pés. Uma nuvem de poeira avermelhada fez a mata sumir. De repente uma forte pancada na asa direita fez a aeronave rodopiar sobre a piçarra, parando logo a seguir. Do assento do seu Guida ouviu-se um grito de alívio: Ai meu Deus! Nois tamo tudo vivo!
O velho DC-3 batera no tronco de uma imbaúba, o que o fizera rodopiar sobre o próprio eixo sem sair da estrada. Isso foi tudo. Ninguém saiu ferido com gravidade, a não ser alguns com pequenas escoriações e outros reclamando de dores na coluna por não terem se agachado direito.
De resto, não havia o que fazer a não ser exercitar a paciência e esperar os carros que vinham de Manaus – na época, um aqui outro acolá – e pedir deles uma carona. E foi de carona que os passageiros daquele velho DC-3 – que nem os alemães conseguiram derrubar – chegaram a Boa Vista.
Uma viagem pra jamais ser esquecida!           .

                    
     
  
PS: Relação de passageiros da inesquecível viagem:

1)   Antônio Guida – Taiano (in memoriam);
2)   Raulino Castro – Taiano (in memoriam);
3)   Jonas Lima –Cantá – (in memoriam);
4)   Raimundo Cardoso – Cantá (in memoriam);
5)   Alquelino Cunha – Boa Vista (in memoriam);
6)   Rubem Bento – Boa Vista (in memoriam);
7)   Adonias Araújo – Boa Vista (in memoriam);
8)   Alencar de Melo Magalhães – Boa Vista;
9)   Francisco das Chagas – Caracaraí;
10)  Salomão Lima Filho – Boa Vista;
11)  José Henrique Ferreira Leite – Boa Vista.       

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012


QUEM É MESMO O PAPAI NOEL?
José Henrique Ferreira Leite
Escritor bissexto

Uma vez, no mês de dezembro do ano de 1996, uma professora me pediu para escrever uma mensagem para ser lida na confraternização de natal dos funcionários, pais e alunos do colégio Objetivo de Boa Vista, onde eu era diretor administrativo. Queria que eu falasse sobre o Papai Noel. Alertei-a de que eu não era a pessoa mais indicada para aquela tarefa. Contei-lhe da minha experiência frustrante com o velhinho na minha infância.
Tinha dez anos, quando pela primeira ouvi falar no Papai Noel. Apresentaram-me como sendo um velhinho bom, de barbas brancas, que carregava nas costas um saco de presentes para as crianças de todas as idades do mundo todo. Mas isso não podia ser verdade. Fiquei desconfiado. Como, aos onze anos de idade, naquele dia 24 de dezembro de 1959, nunca tinha ouvido falar nesse bom velhinho? Por que ele nunca havia aparecido lá pelo Centro dos Protestantes, no Maranhão, onde até seis meses atrás eu morava? Ali, como muitos da minha idade, não passava de um moleque sambudo que perdera a mãe com apenas quatro anos e que vivia com um bando de irmãos na casa do avô paterno. O papai de verdade andava por aí, não se sabe por onde. Durante o ano ele raramente aparecia. Bem que esse tal Papai Noel poderia ter aparecido por lá nas ausências do Papai de verdade.
Já em Boa Vista – trazido do Maranhão por duas tias com as quais passei a morar – não gostei de saber desse Papai Noel “bonzinho” que, como meu pai verdadeiro, só visitava as crianças uma vez por ano com algum presentinho. Eu não queria presentes. Eu queria um pai presente. Na minha cabeça de menino de onze anos esse tal Papai Noel não me incitava emoção nenhuma. Pelo contrário, tinha medo que me trouxesse mais contrariedade do que felicidade. E trouxe. Em primeiro lugar, disseram-me que tinha de dormir cedo na noite de natal. Ele não entregava o presente diretamente nas mãos das crianças. Era preciso estar dormindo porque ele passava meia-noite. Se a criança estivesse acordada, ele não deixava o presente debaixo da rede. Imaginem dormir com tanta ansiedade! Outra coisa me deixava embatucado: por que esse tal Papai Noel não passava cedo em casa e entregava os brinquedos diretamente para a criançada? Pra que tanto mistério? Mais uma: por que havia um tipo de Papai Noel que aparecia no campo de futebol João Mineiro ou na frente da casa do governador, na Jaime Brasil? Pude entender isso algum tempo depois. Mas de um detalhe não esqueço: tanto o primeiro presente que deixou debaixo da minha rede como os demais que ganhei no João Mineiro e na Jaime Brasil, nos anos seguintes, não passavam de presentinhos fajutos. O primeiro, um minúsculo carrinho de plástico que ao primeiro tranco, as rodinhas voaram pra bem longe. O segundo, uma luneta da cor de alumínio que não aproximava um centímetro sequer os objetos focados. As bolas de borrachas, que passei a receber nos natais seguintes, furavam ao primeiro toque no arame farpado das cercas que protegiam os quintais da época.  Uma lástima! Papai Noel sem-vergonha...   
        Bem, falei com minha amiga professora sobre essa pendenga que tinha com o velhinho da Lapônia imaginando que ela haveria de convidar outra pessoa para atender seu pedido. Que nada! Ela insistiu achando que aquela era uma boa oportunidade pra muita gente ouvir outro ponto de vista sobre o natal e o seu herói de barbas brancas.
Sem saída, topei o desafio. Escreveria um texto curto, pensei. Mas um texto que pudesse atingir o cerne da questão. Ou seja, com uma proposta que pudesse desmascarar o velhinho impostor que se instalara no imaginário das crianças como sendo o principal personagem do natal. Diria isso em vinte e cinco linhas, para lembrar que o dia 25 de dezembro é o dia de um menino muito jóia: o menino Jesus. Não desse tal “bom” velhinho de história fantasiosa e obscura.
        Aceitei o convite a contragosto. Escrevi de afogadilho. O texto saiu chinfrim. Porém, pela reação da maioria dos ouvintes o objetivo parece ter sido alcançado. O escrito causou bastante desconforto e pelo zunzunzum abrira um importante flanco de discussão sobre o assunto. Era o que a professora queria. Eu... Nem tanto.
Comecei o texto falando em rápidas palavras da fantasiosa e obscura história do Papai Noel, um pagão metamorfoseado e cristianizado – como foram muitas outras crenças e costumes – pela criatividade dos pais da igreja cristã primitiva. Que ninguém se engane, o bárbaro Papai Noel reformulado pela tradição cristã nunca deixou de ser pagão. Vejamos:
Affonso Romano de Sant’Anna, em seu livro de crônicas “Tempo de delicadeza”, põe luz sobre a origem do velhinho de barbas brancas. Diz ele que há duas origens do mito do Papai Noel. A mais comum está ligada a São Nicolau um santo que salvou marinheiros nas tempestades, libertou moças do cativeiro e ressuscitou crianças. Sua fama de bom velhinho vem daí.
A outra lenda – a mais provável – sobre sua origem antecede o cristianismo. Nessa história o Papai Noel não tem nada de bonzinho. Diz Affonso: o mito do velhinho que em pleno inverno europeu trazia às costas um saco cheio de presentes para distribuir às crianças, é, na verdade, a maneira como o imaginário cristão reformulou o mito arcaico que era exatamente o inverso do Papai Noel como hoje é conhecido. O personagem se chamava Nicolas. Estava sempre à frente de um bando de mascarados e por onde passava estalava seu chicote que fazia soar os sinos dependurados em seus trajes. O velho Nicolas e seu bando assaltavam os povoados e obrigavam seus habitantes a celebrarem com eles seus festins licenciosos. Por onde passavam sequestravam crianças e as punham dentro dos sacos que traziam. Essas incursões do bando liderado pelo velho Nicolas (Papai Noel) aconteciam exatamente no solstício do inverno europeu, vinte e cinco de dezembro, dia que a igreja, tempos depois, escolheu para fixar a data do nascimento de Jesus.
Há no inconsciente coletivo dos povos nórdicos, como também no dos franceses, belgas e alemães, a lembrança dessa horda de bandidos montados nos seus robustos cavalos. Affonso Romano anota que no folclore da região de Lorraine existe a figura do Pai com chicote, cuja ambiguidade remete tanto para o bárbaro que vinha chicoteando seus cavalos quanto ao Papai Noel que viaja docemente “chicoteando” suas renas. Romano informa ainda, que, coincidentemente, na biografia do São Nicolau, o chicote também aparece, mas de forma invertida. Na versão cristianizada o velho Nicolas que chicoteava passa a são Nicolau martirizado com um chicote. Na Alemanha, o “Klaubauf” é retratado na figura de um velho que carrega um saco para recolher crianças, remetendo ambiguamente para a mesma lenda. Na mesma linha, na Inglaterra esse vestígio da imagem arcaica e pré-cristã de Nicolau aparece no nome do capeta conhecido como “velho Nick”.               
Finalizei aquele texto firmando alguns pensamentos que até a mim pareceram muito fortes. Andei perto de me arrepender. Mas, finquei pé:
·         Papai Noel sempre foi um impostor.
·         Tomou sem nenhuma cerimônia o lugar do menino Deus.
·         Com aquele jeitão aparentemente bonachão ele pensa que engana a todas as crianças. A mim, por exemplo, só enganou uma vez.
·         O natal tem a ver com o menino Jesus, enquanto Papai Noel com a ganância comercial.
·         No natal do Papai Noel ele pratica extorsão contra os pais das crianças, compra tudo que lhe vem à cabeça, põe tudo no saco que carrega às costas e sai distribuindo o que não é seu.
·         Papai Noel não é um sujeito razoável. Ele é tão irracional quanto às renas que o conduzem.
·         Papai Noel é discriminador. Dá os melhores e mais caros presentes para quem menos precisa. Para os mais necessitados ele dá reles presentinhos ou, quando muito, as invariáveis cestas básicas que matam a fome das crianças pobres somente no dia do natal.
·         Um dia após o natal a barriga das crianças volta a roncar de fome. O “bom” velhinho já está longe... Lá para as bandas da Lapônia. Alguém sabe onde fica a Lapônia?
·         O tal Papai Noel não está nem aí para as crianças pobres da África ou dos guetos e becos das cidades grandes. Que morram! Ele só volta agora no ano que vem. Se voltar. Ultimamente ele anda de saco cheio com os pedidos cada vez mais exigentes das crianças pobres. Elas, também, querem tênis de marca, roupas de grife, celulares smartfones (Iphone, blackberry,galax S II),  tablets, etc.

            Como havia previsto, a maioria dos participantes daquela festa de natal saiu frustrada. Com o ímpeto de um iconoclasta havia jogado por terra uma das mais caras crendices (ou cretinices?) dos adultos. Uma violência despropositada – disseram alguns – contra o espírito do natal que animava aquela festa. Tem nada não, o objetivo foi alcançado. Neurônios foram despertados e vibraram vigorosamente. Alguns contra. Outros a favor. Tudo bem, a mim, já que a professora insistira, importava dar um choque naquela gente hipócrita que fazia as crianças acreditarem que o Papai Noel fora sempre esse vovozinho tão bonzinho! Gente que nunca havia pensado nos milhões de crianças que – como eu até aos 10 anos – no natal jamais receberam a visita do Papai Noel.
Naturalmente que, naquele natal de 1996, a frustração do menino de onze anos que viera dos cafundós do Judas do Maranhão era coisa do passado. Homem feito sabia muito bem quem era o tal velhinho. Papai Noel e eu nunca resolvemos nossa quizila particular. De qualquer forma, a essa altura do campeonato e pela força das circunstâncias obrigamo-nos a mútua tolerância. A uma convivência quase amigável. Obra de minha filha mais velha que, quando com três anos, numa bela noite de natal, deixando-se envolver pela lábia do barrigudo velhinho, que desta feita não esperou a menina pegar no sono, recebeu dele uma linda boneca de última geração. Isso foi o fim da picada. O sagaz condutor de renas convenceu-a definitivamente de sua fama de bonzinho. Os três filhos seguintes seguiram a mesma trilha. Todos foram aliciados pelo tal Papai Noel. Perdi a batalha. Transformei-me em mais uma vítima do “doce chicote” desse velhinho maquiavélico. Ou velho Nick?