terça-feira, 11 de dezembro de 2012




SUSTO DE MATAR

José Henrique Ferreira Leite

Escritor bissexto.


        Não poucas vezes, ao longo da vida, vivemos momentos de intensa felicidade, tristeza e grandes sustos. Somos seres limitados. Não podemos fugir disso. No quadro dessas limitações está nossa total incapacidade de prever o que nos acontecerá já nos momentos seguintes, nos próximos segundos. Diante dessa absoluta falta de aptidão para prever o futuro, o dia a dia, por vezes, nos prega alguns sustos. Sustos que podem até trazer surpresas agradáveis. Sustos ocorrem, porém, que se fosse possível antevê-los passaríamos há milhares de quilômetros deles.
        Trinta e quatro anos já se passaram – mas lembro com toda nitidez – desde que levei um desses sustos de deixar o sujeito totalmente paralisado. Sim, porque no caso do susto que passo a contar, falar só da falta de ação não diz do verdadeiro estado em que fiquei. Na verdade, fiquei em situação de total desespero.
        O ano era o de 1978. O Coral da Secretaria de Educação e Cultura do então Território Federal de Roraima, sob a batuta do saudoso maestro Dirson Costa, era o que de bom possuía a terrinha em termos de cultura musical. O Coral da SEC, como era conhecido, depois de alguns anos de criterioso trabalho e rotineiros ensaios transformara-se em um dos bons corais do Brasil. Tanto que, à época vinha de alguns périplos por algumas capitais do país. A toda hora o coral recebia convites para encontros e temporadas Brasil afora. Até convites para apresentações internacionais. De Caracas e Lima os convites já estavam confirmados. O repertório dos seus quarenta e oito figurantes era de muito bom gosto, consistente e variado. Ia do rico acervo folclórico e popular brasileiro de todos os tempos e de diversos países. Sem contar que, o forte do repertório do grupo baseava-se em peças dos grandes compositores clássicos.
        O coral tinha uma diretoria comprometida e atuante. Naquele ano o grupo todo se empenhara na realização de uma série de promoções para angariar fundos com vistas a cobrir parte das despesas de viagem a Recife, onde iria participar de um encontro nacional de corais. Só uma parte dos recursos, porque naqueles bons tempos, o Governo do então Território Federal, que compreendia a importância da cultura, entrava com a maior parte das despesas de viagem do grupo. Havia sensibilidade da área governamental em relação àqueles que tinham talento, amor, disposição e coragem para enfrentar os duros e longos ensaios e viagens para levar o nome de Roraima aos mais distantes recantos do Brasil e países vizinhos. No caso, a viagem se daria em duas etapas: Até Belém, ida e volta com passagens de avião pagas pelo Governo. De Belém a Recife, ida e volta, despesas com frete de ônibus por conta dos componentes do coral. Por isso, as promoções para arrecadar recursos.
        Em 1978 a população de Boa Vista não chegava a 100 mil pessoas. Dava para envolver significativa parcela da sociedade em favor de uma específica atividade cultural. Para aquela viagem promoveu-se vários eventos como festas dançantes, bingo, feijoada, rifas de animais doados por fazendeiros, sorteio de quadros dos reconhecidos pintores regionais Walniro e Cardoso e um livro de ouro para receber doações de empresários, comerciantes e quaisquer outras pessoas que quisessem participar do projeto. Na época ainda existiam os mecenas da cultura. Além disso, como estímulo às doações, o coral se apresentava no Palácio da cultura, escolas, igrejas e sedes de municípios vizinhos.

        As promoções deram certo. Juntou-se recurso suficiente para fretar o ônibus e pagar alimentação para todo o grupo durante a viagem e mais uma pequena provisão para despesas não previstas.
        Aqui começa concretamente a história do grande susto que levei. Na qualidade de presidente do grupo, do qual gozava total confiança, saí de Boa Vista três dias antes da viagem para fretar o ônibus e esperar a turma já no aeroporto de Ponta Pelada, Belém, e dali mesmo seguir viagem para Recife. Na época não se dispunha dos bons e seguros cartões de plástico (débito/crédito) hoje tão difundidos e necessários. Tampouco, os caixas eletrônicos que tanto facilitam nossas vidas hoje em dia.
Embarquei com toda a grana arrecadada nas promoções. Algo (se atualizada) em torno de 30 mil reais. Como naquele momento não tinha uma bolsa a tiracolo, peguei a grana toda e coloquei dentro de uma daquelas pastas de cartolina com elástico e meti-a num enorme envelope pardo. Passei fita adesiva (durex) para fechar o envelope e escrevi em letras bem graúdas: “Encomenda aos cuidados do senhor José Henrique Ferreira Leite para ser entregue na casa das madres em Recife”. No outro lado do envelope tinha o meu endereço e telefone de Boa Vista e o mesmo do local em que o coral se hospedaria em Recife, um casarão habitado por madres. Viajei com aquela “encomenda” colada debaixo do braço. Compraria uma bolsa a tiracolo logo ao chegar ao aeroporto de Manaus no intervalo da conexão do voo para Belém.
        Cheguei na capital Manauara por volta das duas horas da madrugada. O voo para Belém estava previsto para as sete da manhã. Não era prudente nem compensaria ir para algum hotel da cidade naquele horário. Resolvi ficar ali mesmo no aeroporto até que abrissem as lojas. Nas vitrines de várias delas vi bonitas bolsas do tipo que desejava comprar.
        Como o movimento no aeroporto era quase nenhum, resolvi acomodar-me em uma das poltronas da sala de espera. Mas ao chegar à sala dei de cara com a colega Fátima Nogueira, integrante do coral, que vinha de um encontro de professores em Brasília e que também esperava conexão para Belém onde se juntaria ao grupo. Seu voo estava previsto para as oito horas em outra companhia aérea. No que Começamos a papear, informando-lhe o horário e a companhia em que viajaria, convenceu-me a transferir meu bilhete de passagem para o seu voo. Pertinho de onde estávamos, coisa de uns cinquenta metros, ficava o balcão da companhia da colega. Fui até lá pra fazer a transferência de voo. Maldita transferência! No que peguei o meu bilhete de passagem para entregar à funcionária que efetuaria a mudança, tirei o bendito envelope que carregava colado debaixo do braço esquerdo e o coloquei sobre o balcão com os cotovelos em cima dele. Efetuada a operação de mudança de voo, peguei o novo bilhete e saí tranquilamente, agora balançando os dois braços. Nem notei que algo se despregara do meu corpo.
        Lá pelas quatro da madruga, já cansado de papear, pedi licença da colega e busquei um jeitinho na desconfortável poltrona para tirar uma soneca. Ao tentar forrar a cabeça com o tal envelope recheado de dinheiro, a surpresa! Ele tinha sumido. Meu Deus! Como teria alguém furtado aquele pacote que andava grudado no meu corpo? Fiquei pálido e totalmente perturbado! Contei rapidamente para a colega o que tinha acontecido. E agora, o que fazer?
Naquele horário, afora alguns taxistas que conversavam na área externa do aeroporto não havia mais ninguém. Somente eu e a colega Fátima Nogueira naquela sala de espera. Em estado de choque, esquecera totalmente de que saíra para providenciar a transferência de voo. Minha colega então falou:
– José, meu amigo, vi quando você saiu com aquele pacote debaixo do braço. Quem sabe não o deixaste em cima do balcão na hora de transferir o bilhete? A funcionária com certeza o guardou até o dono o procurar. Desespera, não...
        Nem quis ouvir mais nada. Saí em desembestada carreira chegando àquele balcão em pouquíssimos segundos. Não havia mais ninguém ali. Mas, em uma das prateleiras do balcão, lá estava um envelope pardo exatamente igual ao que carregava debaixo do braço desde que saíra de Boa Vista. Não pensei duas vezes: De um salto passei pra dentro do compartimento, agarrei com força o bendito envelope e corri para o banheiro mais próximo. Tranquei-me em um dos boxes e sentei no vaso já me desmanchando por dentro. Rasguei o envelope. Arranquei os elásticos da pasta e conferi a grana ali mesmo. Cédula por cédula. Não havia motivo para tanto desespero. O dinheiro estava todo ali.
        Ao retornar para junto da colega meu ânimo já era outro. A barriga totalmente esvaziada não doía mais e meu coração que havia disparado agora estava no seu tic-tac normal. O sono era coisa do passado. Estava amanhecendo. Algumas lojas já abriam suas portas. Corri para a mais próxima que abriu, comprei uma bonita bolsa a tiracolo da boa marca Sansonite e botei tudo dentro dela; inclusive o susto e a promessa da amiga Fátima de que jamais contaria essa história sem a minha permissão. Como estou contando isso agora, ela está livre para falar.
        Tirei uma boa lição disso. Não se deve andar por aí com envelopes soltos. Em algum momento ou em algum lugar você poderá esquecê-los.

5 comentários:

  1. Meu irmão, realmente foi um baita susto que da para desonerar qualquer barriga, felizmente deu tempo o mano chegar até ao banheiro, acredito se fosse um eu talvez não tivesse dado tempo.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Apesar de não ter conhecido a galera, adorei as fotografias ainda mais por serem antigas, mesmo assim ainda reconheci três da família. Veja meu blog na página de memorias.

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    1. Nesse coral da nossa família participavam: Irenilde, Ilmar,Dário (falecido) e eu. Bons tempos, aqueles.

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  4. Pois é, mano, são histórias que me aconteceram ao longo desses meus 64 anos. Tem outra que brevemente postarei sobre um cidadão que quis me fazer medo. O tiro saiu pela culatra.

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