UMA VIAGEM PRA NUNCA
ESQUECER.
José Henrique F. Leite
Escritor bissexto
A ansiedade pulsava nos corações
daqueles circunspectos senhores. Alguns não conseguiam esconder o medo que
sentiam por estarem na iminência de voar pela primeira vez. No pátio do acanhado
aeroporto da pacata Boa Vista, que ainda dormia, os motores de um velho DC-3 da
Força aérea Brasileira roncavam desesperadamente, fazendo toda a sua estrutura
tremer. Dos canos de descarga em brasa viva saía uma grossa coluna de fumaça
esbranquiçada. Seu Antônio Guida, um calejado agricultor da região do Taiano,
passageiro daquele voo, irrequieto e pálido aproximou-se do mecânico da
aeronave e disparou:
- Ôoo seu oficiá, nois vai vuar nessa
besta fera fumaçando assim?
- Não se preocupe cidadão, esse é o
avião mais seguro que já foi fabricado no mundo. Nem os alemães conseguiram
derrubá-lo na segunda guerra mundial.
O velho passageiro aquiesceu. Mas
sua expressão severa denotava que não ficara de todo satisfeito com as
ponderações do confiante mecânico. A lividez estampada na cara do rijo
agricultor dizia do seu grande arrependimento por ter topado aquela viagem a
Brasília. Para reforçar os seus temores, um casal de maçaricos que morava na
beirada da pista de pouso, incomodado com o movimento anormal daquela manhã, denunciou
a invasão do seu território do jeito que os maçaricos sabem fazer, ou seja,
esguelando-se a mil decibéis! Coisas de maçaricos. Para o seu Guida, aquilo
soou como aviso, um sinal de mau agouro. Ora, mas se ninguém até ali se manifestara,
desistindo da tal viagem, não seria ele, cabra macho que já enfrentara até onça
na mata, que iria dar tamanha mostra de frouxidão. Já estava com um pé na
escada, que viesse o resto, então.
Assim começava a viagem mais dramática
e inusitada da minha vida, a começar pelos sujeitos que me acompanhavam e a
encomenda que deveria entregar a uma alta autoridade da República.
Estávamos ainda envoltos pela
penumbra daquela manhã em que o sol timidamente dardejava os primeiros raios,
quando se ouviu a voz grave do comandante dando a ordem de embarque. Entre
discretos sussurros, dez tensos senhores de meia-idade, esbarrando-se uns nos
outros, subiram e tomaram assento na desconfortável aeronave. Não havia
poltronas. Os assentos, todos de ferro, ficavam dispostos em duas fileiras
fixadas no piso e recostados nas laterais da fuselagem do avião, de sorte que
os passageiros ficavam um de frente para o outro, atracados por rudes cintos de
segurança.
O voo previa escalas nas cidades de
Manaus e Marabá, com pernoite na cidade de Porto Nacional e, finalmente,
Brasília.
Os heroicos passageiros tinham sido
escolhidos entre trabalhadores rurais e urbanos para participarem de um seminário
sobre administração sindical – pasmem – patrocinado pela Presidência da
República. Vivia-se àquela época, 1977, o período de distensão política do
general Geisel, que impôs a transição da ditadura militar para o regime
democrático de forma lenta e gradual. Tão lenta que, depois dele ainda veio o
grosseiro general Batista Figueiredo, um presidente que gostava mais do cheiro
dos cavalos do que do contato com o povo.
Viajar com aqueles homens, na
maioria rudes trabalhadores, não foi tarefa fácil. Não tão delicada, porém, do
que levar a encomenda da tal autoridade, vice-presidente da República. E veja-se
que encomenda! Um casal de jaburus para enfeitar os gramados do palácio que
leva o nome daqueles pernaltas.
Quem conheceu o Palácio Hélio Campos
da década de setenta deve lembrar-se de um casal de jaburus que vivia ali. Com
a morte da fêmea, o macho triste e agressivo passou a oferecer perigo a quem
dele se aproximava. Com o pedido do vice-presidente surgiu a oportunidade de
arranjar-lhe uma nova companheira. E ela existia e já o esperava no zoológico
de Manaus.
A viagem que estava prevista para
dois dias, durou três com dois pernoites.
Ao chegar a Manaus, a companheira do Jaburu de
Boa Vista não estava pronta para embarcar, o que obrigou a pernoitar ali. Na
manhã seguinte, como ocorrera na manhã anterior, os motores da velha aeronave
ao serem ligados começaram a roncar com as falhas já conhecidas. Dessa vez,
porém, a coluna de fumaça saía mais densa e mais escura. O seu Guida, sempre
observador e precavido notou a diferença. Ensaiou dizer alguma coisa, mas
calou-se diante do olhar severo do mecânico.
A aeronave alçou voo de Manaus e
seguia sem transtornos, quando já perto de Marabá um dos motores começou a
pipocar, parando de vez, minutos depois. Diante do medo dos passageiros, o
comandante imediatamente saiu de sua cabina de comando e, sem demonstrar
nenhuma preocupação, pediu calma, informando que o avião tinha condições de
voar o restante do percurso com um só motor e pousar com segurança. Estava
certo. Uma hora depois, sob os aplausos de todos, colocou aquela geringonça suavemente
no chão de Marabá.
Aquela era uma situação que os
tripulantes, ao que parece, já haviam encarado muitas vezes. O sargento
mecânico conhecia as manhas daquela máquina. Não precisou de mais de quarenta
minutos para fazer os motores rugirem novamente.
Nova ordem de embarque e lá
estávamos obedientes e submissos dentro daquela geringonça que a toda hora
ameaçava despencar. Não completara vinte minutos de voo e o segundo motor que
até ali resistira bravamente, também deu sinais de que iria parar. Foi o que aconteceu
logo a seguir. O medo tomou conta de vez dos passageiros. Só os jaburus
pareciam não se preocupar com aquele alvoroço todo. Também, pudera, sabiam
voar... Mas o comandante era dos bons.
Pouco tempo depois estávamos pisando o chão de Marabá outra vez. Nesse ponto
alguns já queriam desistir da viagem. Mas de que jeito? Como voltar pra casa
daquele lugar tão desconhecido?
Não havia outra opção senão encarar
o velho avião mais uma vez. Ele já provara por duas vezes que era duro na
queda. E, entre orações, rezas e esconjuros, outra vez embarcamos naquela
geringonça, agora com proa direcionada para Belém, onde o comandante contava
com a possibilidade de trocá-la por outra que pudesse levar a todos sãos e
salvos ao destino traçado.
Afora os pipocos dos motores que se repetiram
na decolagem, nada de mais extraordinário aconteceu até Brasília. Isso fez
renovar as esperanças e colocar fé nas palavras do mecânico de que se os
alemães não conseguiram derrubar aquela aeronave, não seriam alguns pipocos que
o fariam.
O segundo pernoite foi nos
alojamentos do aeroporto militar de Belém. Malgrado o cansaço, ninguém
conseguia dormir. As conversas giravam sempre em torno do longo e desastrado voo.
Será que aquela velha carcaça voadora suportaria o tranco até Brasília? A desconfiança
era grande. No dia seguinte, contudo, embarcamos em um aparentemente mais
conservado DC-3, o que trouxe relativa tranquilidade aos ressabiados
passageiros.
Como das vezes anteriores, a
decolagem foi às cinco horas da manhã. Depois de mais de duas horas de voo sem
maiores percalços, a confiança de todos retornava pouco a pouco. Já havia até
disposição para comer algo, coisa que no dia anterior ninguém sentira vontade.
Não era para menos!
Os jaburus recusavam alimentos.
Durante os três dias de viagem simplesmente rejeitaram os peixes oferecidos.
Enfim, Porto Nacional, última escala antes de
chegar a Brasília. Nessa altura é bom lembrar-se de dois personagens que
fizeram parte daquela inesquecível viagem. O Salomão Filho, na época um rapaz dos
seus vinte anos de idade que pegara carona em Boa Vista. Ia encontrar-se com
o pai que já estava em Brasília para uma reunião de agropecuaristas. A outra
carona, uma mulher atraente de aparentes quarenta anos, que se dizia
enfermeira, embarcou em Belém, entocando-se na cabine de comando. Das vezes que
saiu para conhecer os demais colegas de viagem, mostrou-se comunicativa e
desenvolta. Tinha um jeito misterioso de falar e de olhar. Era, na verdade, uma
personagem intrigante. Mas foi muito útil como se demonstrará a seguir.
Ao levantar voo de Porto Nacional, o
cansaço era geral. Ninguém aguentava mais ficar sentado naqueles assentos de
ferro. Cada um se arrumava como podia, procurando uma posição menos
desconfortável. E, aqui, entra na história a figura do primeiro carona, um
sujeito magricela e alto que possuía um enorme nariz, aliás, possui, pois está
vivinho da silva.
Todos caiam de sono quando o
magricela buscando posição mais confortável desafivelou o cinto de segurança e
escorou-se no engradado em que estava um dos jaburus. O pernalta, que há a três
dias não comia, meteu o enorme bico por uma das brechas do engradado e aplicou
certeiro golpe naquele narigão, quase o decepando da cara do infeliz. Foi um
momento de pavor! No primeiro instante, ninguém sabia o que tinha acontecido
com o carona que, aos pulos, com a cara lavada de sangue e o nariz dependurado
gritava desesperado: foi o jaburu, foi o jaburu! O bicho queria comer o meu
nariz... A tal enfermeira, então, entrou em ação e pôs as ventas do sujeito no
lugar, segurando-as até chegar a Brasília.
Assim chegamos a Brasília: Um grupo
de estropiados trabalhadores, um carona com seu grande nariz seccionado e um
casal de famintos jaburus. Ainda bem que chegados à capital do país, fomos
alojados em um excelente hotel, o que nos permitiu uma bela noite de sono.
Quanto ao carona, foi encaminhado a uma clínica para reparar o narigão avariado.
Não se sabe se as aves sobreviveram, uma vez que durante a viagem rejeitaram os
peixes oferecidos e o único alimento que despertou o apetite de um dos pernaltas
escapou-lhe por um triz. Aquele enorme nariz bem que daria uma boa refeição
para o faminto jaburu.
A semana na capital do país deixou a
turma de trabalhadores deslumbrada. Rapidamente todos esqueceram a dramática
viagem. O assunto agora estava voltado para o seminário, os passeios turísticos
pela cidade, a excelente hospedagem, a apetitosa comida e o encontro com o
presidente Geisel no palácio do planalto.
Mas, algo me atormentava. O retorno
previsto para as cinco da manhã do sábado que estava às portas. Até ali eu me
esforçara para demonstrar coragem e calma. Mas só eu sabia do medo que se
apossara de mim. Não dormi um só minuto daquela noite que antecedeu o retorno.
Porém, meus companheiros de viagem, com exceção do senhor Guida, davam sinais
de tranqu/ilidade e mostravam-se felizes. Nenhuma lembrança da fatídica viagem
da semana anterior parecia atormentá-los.
Cinco horas da manhã no aeroporto
Internacional de Brasília. O ronco dos motores do velho DC-3 já se fazia ouvir.
Seu Guida, despachado como sempre, não vendo sair fumaça escura dessa vez, foi
logo disparando: É... Meus amigo, num tô vendo sair fumaça feia desse aí, não!
Agora nois vai chegar é ligeiro! Tô falando pra vocês.
E o velho DC-3 não decepcionou, mesmo. No
mesmo dia, já pertinho das cinco horas da tarde, como previsto, estávamos na
capital amazonense. Deu até tempo para fazer umas comprinhas na Zona Franca de
Manaus.
Cinco horas da manhã. Aeroporto de
Ponta Pelada. Pessoal na pista e mais uma vez o ronco dos motores do velho DC-3.
- E aí seu Guida, tá feliz?
Perguntou um dos companheiros de viagem. Daqui a pouco, a gente bota os pés na
terrinha, né?
- Num sei, não! Tu num tá vendo que
a besta fera tá cum barulho deferente, agora? E oia a fumaça preta de novo! Agora
só tá faltando os diabo dos maçarico...
O seu Guida estava certo. Com menos
de duas horas de vôo os motores do avião começaram a pipocar. Agora eram os
dois ao mesmo tempo. O avião começou a perder altura. Imediatamente o
comandante saiu da cabina de comando e ordenou: sargento, abra a porta do
avião. Vamos aliviar o peso da aeronave. Quem tiver dinheiro, documentos ou
outros objetos de valor dentro das malas ou sacolas, retire-os para si e joguem
toda a bagagem fora, imediatamente. Se necessário, vamos fazer um pouso de
emergência no primeiro retão da estrada. Todos nos seus assentos com os cintos
de segurança afivelados, peito sobre as pernas e boa sorte!
O avião perdia altura e agora voava
baixo sobre a estrada. Era tempo de rezar e entregar a alma a Deus. A aeronave
baixava cada vez mais. As copas das árvores mais altas já podiam ser vistas
acima das nossas cabeças. Pavor generalizado! Só a tripulação se mantinha calma.
Os dois motores pararam simultaneamente seguidos de vários baques sob nossos
pés. Uma nuvem de poeira avermelhada fez a mata sumir. De repente uma forte pancada
na asa direita fez a aeronave rodopiar sobre a piçarra, parando logo a seguir.
Do assento do seu Guida ouviu-se um grito de alívio: Ai meu Deus! Nois tamo tudo
vivo!
O velho DC-3 batera no tronco de uma
imbaúba, o que o fizera rodopiar sobre o próprio eixo sem sair da estrada. Isso
foi tudo. Ninguém saiu ferido com gravidade, a não ser alguns com pequenas
escoriações e outros reclamando de dores na coluna por não terem se agachado
direito.
De resto, não havia o que fazer a
não ser exercitar a paciência e esperar os carros que vinham de Manaus – na
época, um aqui outro acolá – e pedir deles uma carona. E foi de carona que os
passageiros daquele velho DC-3 – que nem os alemães conseguiram derrubar –
chegaram a Boa Vista.
Uma viagem pra jamais ser esquecida!
.
PS: Relação de
passageiros da inesquecível viagem:
1) Antônio Guida – Taiano (in
memoriam);
2) Raulino Castro – Taiano (in
memoriam);
3) Jonas Lima –Cantá – (in memoriam);
4) Raimundo Cardoso – Cantá (in
memoriam);
5) Alquelino Cunha – Boa Vista (in
memoriam);
6) Rubem Bento – Boa Vista (in
memoriam);
7) Adonias Araújo – Boa Vista (in
memoriam);
8) Alencar de Melo Magalhães – Boa
Vista;
9) Francisco das Chagas – Caracaraí;
10) Salomão Lima Filho – Boa Vista;
11) José Henrique Ferreira Leite – Boa
Vista.

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