NOS TEMPOS DO
PAPA-FIGO[1]
José Henrique F. Leite
–
Escritor bissexto
Lá pelo final da década de cinquenta,
precisamente o ano de 1959, Boa Vista não passava de uma cidadezinha provinciana,
com seus – não mais de – dois mil habitantes. Respirava, ainda, o pesado ar de
uma acirrada campanha política ocorrida no ano anterior, quando os ratos,
liderados pelo astuto cacique político Félix Valois foram exemplarmente batidos
pelos macacos que formaram a aguerrida coligação liderada por Valério
Magalhães.
Naquele tempo, nas rodadas formadas
pelos adultos nas frentes das suas casas, nos terreiros iluminados pela lua
cheia, a façanha de um corajoso João Firmino, que silenciara a valentia de um
pistoleiro de aluguel era uma das estórias recorrentes, entre muitas outras,
entre um gole e outro do cheiroso cafezinho caseiro recém-passado servido no
bule esmaltado. Além das futricas políticas, um assunto tão a gosto daquela
pequena cidade, os adultos daquelas priscas eras aproveitavam os momentos ali
reunidos para ouvir nos seus potentes Transglobe[2]
de nove faixas, as poderosas transmissões da BBC de Londres e da “A voz da
América”, que transmitiam notícias e propaganda política para o mundo, além do
que, apresentavam boletins detalhados sobre a guerra do Vietnan, da guerra fria
e da corrida do homem à lua travada entre americanos e russos.
Vivia-se, naquele tempo, distante do
restante do país. A única notícia que chegava daquelas bandas e que tinha
alguma repercussão naquelas tradicionais rodadas de bate-papo era a construção
de Brasília, futura capital do Brasil, obra tocada com grande estardalhaço pelo
então Presidente da República Jucelino Kubitscheck. Notícias daquela grandiosa
obra chegavam ao Território do Rio Branco através da “Hora do Brasil”, depois
“Voz do Brasil”, que os bons Transglobe,
também captavam.
Já no final daquelas inesquecíveis
rodadas, lá pelas nove e meia da noite – dormia-se cedo por aqueles tempos –
alguém gritava pela meninada que se esbaldava em correrias brincando de geral,
manja e bandeirinha.
Meninada! Vamos lá. Todos correndo
para lavar os pés. Tá na hora de dormir.
Poxa, mãe! Deixa a gente brincar
mais um pouquinho...
Ah, é? Pois podem ficar. Vamos ver
quem o Papa-figo vai pegar essa noite!
Ai, meu Deus! O tal Papa-figo. E
todos corriam para lavar os pés e caíam nas suas redes, amedrontados.
Era assim que os pais daquele tempo
se faziam obedecer e respeitar. Bons tempos aqueles em que a meninada
acreditava no Papa-figo, no Bicho-papão, na Mula-sem-cabeça, no lobisomem e
outros monstros do lendário infantil. Hoje, a moçada sai pra balada só lá pela
meia noite e meia das sextas-feiras, na exata hora em que, por aqueles tempos,
essas criaturas horrendas saíam à caça de jovens rebeldes e desobedientes que
se aventuravam altas horas adentro. Penso que está na hora daquelas figuras fantásticas
se reabilitarem para pôr ordem nas madrugadas de hoje.
E, por falar em Papa-figo, faço aqui
meu relato sobre meu encontro com um deles quando tinha onze anos.
Corria o finalzinho de 1959. As ruas
à noite ficavam em total escuridão, ambiente ideal para esses seres sombrios
vagarem. Durante o inverno as largas ruas da capital eram tomadas por uma erva
daninha conhecida como mata-pasto. Sobravam para o trânsito estreitos e sinuosos
caminhos de terra arenosa dentro daquele matagal infestado de formigas-de-fogo.
Por esses caminhos, durante o dia, moradores da cidade circulavam a pé ou em
suas bonitas Humber, bicicletas de
fabricação inglesa, equipadas com suas sonoras campainhas – que iam abrindo
caminho por onde passavam –, retrovisores e excelentes faróis alimentados por
dínamos acoplados à roda dianteira. Veículos
automotores transitando pelas ruas era uma raridade. Dava pra contar nos dedos.
É desse tempo, o seu Coruja, morador do Rói-Couro, que por essas ruas fazia
todo tipo de serviço, principalmente mudanças, no seu bom e ecologicamente
correto veículo puxado por uma bonita parelha de bois.
De volta ao fio da meada, numa
daquelas noites de lua em quarto crescente, eu e meu irmão (Dilmar), que tinha
oito anos, fomos buscar nossa irmã (Irenilde), que trabalhava na casa de uma
família de gringos. A casa ficava na José Magalhães. Das muitas, essa era nossa
última obrigação do dia. Fazíamos o percurso sempre com muito medo de encontrar
o tal Papa-figo ou o velho Mané-Lúcio, que tinha lá seus poderes mágicos, e que
por isso mesmo era também uma das figuras que metia medo às crianças. Até
àquele dia, ou melhor, até àquela noite nenhum desses temidos encontros havia
acontecido. Mas naquela noite...
Foi assim: Depois de acender o
petromax[3]
e deixá-lo com sua chiadeira característica dependurado no lugar de sempre,
saímos apressadamente para não voltarmos muito tarde. Mas, naquela noite – em
que saí calçado num apertado par de sapatos de camurça de segunda mão, de bicos
muito finos, presenteado por aqueles gringos – sem nenhuma explicação, sentia
certo medo, mais do que das vezes anteriores. Sentia que alguma coisa ia
acontecer naquela noite. E, aconteceu. Logo mais à frente, a uma quadra e meia
de nossa casa vi um vulto se mexendo. Estávamos perto da taberna do seu Asterclides,
um bom comerciante que morava ali próximo. O vulto vinha em nossa direção e, em
questão de segundos eu e meu irmão nos vimos frente a frente com um indivíduo
alto, magro, roupas rasgadas e cara desfigurada que a luz pálida da lua
crescente mostrava de forma especialmente horripilante. Não tivemos dúvida, tratava-se
do pavoroso Papa-figo. Pra aumentar mais nosso pavor, aquela figura soturna e esquálida,
à medida que se aproximava balbuciava algo que soava aos nossos ouvidos como: eu
sou o Papa-figo... Eu sou o Papa-figo!
Só tive tempo de tirar os sapatos,
enfiar neles os dedos da mão esquerda, pegar meu irmão pelo braço e sair em
desembestada carreira até a taberna do seu Asterclides que, felizmente, estava
aberta. Vendo o pavor das nossas caras o bom homem nos serviu um copo d’água e
arriscou:
- O que foi meninos, por acaso vocês
viram o Papa-figo?
- Vimos, sim, seu Asterclides! E ele
está bem ali, apontamos para o rumo donde tínhamos visto a coisa ruim.
- Tá bem... Vou mandar o Manéo dar
um tiro nele. Ele nunca mais vai fazer medo a ninguém...
- Mas, e vocês, pra onde vão assim?
- Vamos buscar nossa irmã no trabalho
dela, respondemos.
- Então, vou mandar o Manéo levar
vocês até lá.
- Obrigado, seu Asterclides!
Em questão de minutos, eu na garupa
e meu irmão encarapitado no varão da bicicleta do irmão de seu Asterclides
chegamos ao nosso destino.
Mas, aquele não era o meu dia, ou
melhor, minha noite. Algo ainda estava por acontecer para aumentar o meu
calvário fazendo daquela data uma das piores que já vivi nos meus tempos de
menino. O Papa-figo ficara para trás. Cautelosamente, porém, deixei para calçar
os sapatos quando chegasse ao meu destino; o que fiz, não sem notar que, desta
vez, foi um pouco mais trabalhoso do que das outras vezes. Mas, como estava com
os pés empoeirados da carreira que empreendera descalço imaginei que essa fosse
a razão para que os sapatos refugassem tanto os meus pés.
Ali chegando, como de costume, D.
Atlea, a bondosa missionária americana nos fez sentar no seu confortável sofá
servindo-nos como sempre fazia uma gostosa limonada com biscoitos. Desta vez,
porém, ao baixar a bandeja para nos servir notei que aquela senhora de olhos
azuis e arregalados mirava meus pés. Algo devia estar errado com eles, pensei.
Mas o quê? A resposta veio em instantes na forma de uma exclamação, num
português sofrível e de sotaque carregado: Ó, Jooosé Henriqueee, os seus
sapatos estão brigados!
Explicar por que, não sei. Porém,
aquela exclamação teve efeito quase tão devastador quanto aquele encontro com o
Papa-figo. Se deste tremia de pavor, daquela delicada gringa, daí em diante,
morria de vergonha!
Felizmente, para fim dos meus
sofrimentos, algum tempo depois descobri que o tal Papa-figo não existia. Era
apenas um pé-inchado[4]
que perambulava pelas ruas noite adentro. Quanto àquela missionária ficou pouco
tempo por aqui. Retornou pra sua terra natal levando com ela o motivo de tanta
vergonha.
[1]
Papa-figo – Indivíduo muito mau que vagava pelas noites e, que segundo os mais
velhos atacava crianças para tirar-lhes o fígado.
[2]
Transglobe – Bonitos e excelentes aparelhos de rádio de nove faixas que
captavam transmissões radiofônicas de todos os pontos do globo.
[3] Petromax
– Certo tipo de lampião a querosene, com camisa, que dispunha de um mecanismo
(êmbolo) para injetar ar comprimido no bujão, que por sua vez empurrava o
querosene que alimentava a chama brilhante da camisa do petromax.
[4] Bêbado
KKKKKK O que o medo não faz, calçar os sapados errado e não perceber, nessa situação eu também morreria de vergonha a não ser que tivesse amenos um saca pra meter a cara, pobre mano. Eu também já me assombrei uma vez que quase perdi a fala, só que o meu bicho era o come miolo naturalmente irmão do papa-figo, e que também tinha entre dez a onze anos de idade. Um abraço mano.
ResponderExcluirRapaz, as histórias são parecidas em todos os lugares. Criança passa por cada uma.... Abração pra tods de casa.
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