sábado, 15 de setembro de 2012


MEDO DE ASILO

José Henrique Ferreira Leite
Poeta bissexto

Muitas vezes questiono e indago:
Quando haverei eu de morrer?
A resposta é sempre a mesma:
Ninguém sabe ao certo dizer.

Será hoje, amanhã, no outro mês?
Ou agora, já no próximo instante?
Morrerei afinal na virada do ano?
Ou terei de viver tanto e bastante

Até que chegue provecta velhice?
Deus me livre que tal me ocorra
Tenho horror de parar num asilo.

 Se por medo de eventual rabugice
Puserem-me ali antes que eu morra,
Com mil perdões: boto fogo naquilo!


NOS TEMPOS DO PAPA-FIGO[1]
José Henrique F. Leite –
Escritor bissexto

Lá pelo final da década de cinquenta, precisamente o ano de 1959, Boa Vista não passava de uma cidadezinha provinciana, com seus – não mais de – dois mil habitantes. Respirava, ainda, o pesado ar de uma acirrada campanha política ocorrida no ano anterior, quando os ratos, liderados pelo astuto cacique político Félix Valois foram exemplarmente batidos pelos macacos que formaram a aguerrida coligação liderada por Valério Magalhães.
Naquele tempo, nas rodadas formadas pelos adultos nas frentes das suas casas, nos terreiros iluminados pela lua cheia, a façanha de um corajoso João Firmino, que silenciara a valentia de um pistoleiro de aluguel era uma das estórias recorrentes, entre muitas outras, entre um gole e outro do cheiroso cafezinho caseiro recém-passado servido no bule esmaltado. Além das futricas políticas, um assunto tão a gosto daquela pequena cidade, os adultos daquelas priscas eras aproveitavam os momentos ali reunidos para ouvir nos seus potentes Transglobe[2] de nove faixas, as poderosas transmissões da BBC de Londres e da “A voz da América”, que transmitiam notícias e propaganda política para o mundo, além do que, apresentavam boletins detalhados sobre a guerra do Vietnan, da guerra fria e da corrida do homem à lua travada entre americanos e russos.
Vivia-se, naquele tempo, distante do restante do país. A única notícia que chegava daquelas bandas e que tinha alguma repercussão naquelas tradicionais rodadas de bate-papo era a construção de Brasília, futura capital do Brasil, obra tocada com grande estardalhaço pelo então Presidente da República Jucelino Kubitscheck. Notícias daquela grandiosa obra chegavam ao Território do Rio Branco através da “Hora do Brasil”, depois “Voz do Brasil”, que os bons Transglobe, também captavam.
Já no final daquelas inesquecíveis rodadas, lá pelas nove e meia da noite – dormia-se cedo por aqueles tempos – alguém gritava pela meninada que se esbaldava em correrias brincando de geral, manja e bandeirinha.
Meninada! Vamos lá. Todos correndo para lavar os pés. Tá na hora de dormir.
Poxa, mãe! Deixa a gente brincar mais um pouquinho...
Ah, é? Pois podem ficar. Vamos ver quem o Papa-figo vai pegar essa noite!
Ai, meu Deus! O tal Papa-figo. E todos corriam para lavar os pés e caíam nas suas redes, amedrontados.
Era assim que os pais daquele tempo se faziam obedecer e respeitar. Bons tempos aqueles em que a meninada acreditava no Papa-figo, no Bicho-papão, na Mula-sem-cabeça, no lobisomem e outros monstros do lendário infantil. Hoje, a moçada sai pra balada só lá pela meia noite e meia das sextas-feiras, na exata hora em que, por aqueles tempos, essas criaturas horrendas saíam à caça de jovens rebeldes e desobedientes que se aventuravam altas horas adentro. Penso que está na hora daquelas figuras fantásticas se reabilitarem para pôr ordem nas madrugadas de hoje.
E, por falar em Papa-figo, faço aqui meu relato sobre meu encontro com um deles quando tinha onze anos.
Corria o finalzinho de 1959. As ruas à noite ficavam em total escuridão, ambiente ideal para esses seres sombrios vagarem. Durante o inverno as largas ruas da capital eram tomadas por uma erva daninha conhecida como mata-pasto. Sobravam para o trânsito estreitos e sinuosos caminhos de terra arenosa dentro daquele matagal infestado de formigas-de-fogo. Por esses caminhos, durante o dia, moradores da cidade circulavam a pé ou em suas bonitas Humber, bicicletas de fabricação inglesa, equipadas com suas sonoras campainhas – que iam abrindo caminho por onde passavam –, retrovisores e excelentes faróis alimentados por dínamos acoplados à roda dianteira.  Veículos automotores transitando pelas ruas era uma raridade. Dava pra contar nos dedos. É desse tempo, o seu Coruja, morador do Rói-Couro, que por essas ruas fazia todo tipo de serviço, principalmente mudanças, no seu bom e ecologicamente correto veículo puxado por uma bonita parelha de bois. 
De volta ao fio da meada, numa daquelas noites de lua em quarto crescente, eu e meu irmão (Dilmar), que tinha oito anos, fomos buscar nossa irmã (Irenilde), que trabalhava na casa de uma família de gringos. A casa ficava na José Magalhães. Das muitas, essa era nossa última obrigação do dia. Fazíamos o percurso sempre com muito medo de encontrar o tal Papa-figo ou o velho Mané-Lúcio, que tinha lá seus poderes mágicos, e que por isso mesmo era também uma das figuras que metia medo às crianças. Até àquele dia, ou melhor, até àquela noite nenhum desses temidos encontros havia acontecido. Mas naquela noite...
Foi assim: Depois de acender o petromax[3] e deixá-lo com sua chiadeira característica dependurado no lugar de sempre, saímos apressadamente para não voltarmos muito tarde. Mas, naquela noite – em que saí calçado num apertado par de sapatos de camurça de segunda mão, de bicos muito finos, presenteado por aqueles gringos – sem nenhuma explicação, sentia certo medo, mais do que das vezes anteriores. Sentia que alguma coisa ia acontecer naquela noite. E, aconteceu. Logo mais à frente, a uma quadra e meia de nossa casa vi um vulto se mexendo. Estávamos perto da taberna do seu Asterclides, um bom comerciante que morava ali próximo. O vulto vinha em nossa direção e, em questão de segundos eu e meu irmão nos vimos frente a frente com um indivíduo alto, magro, roupas rasgadas e cara desfigurada que a luz pálida da lua crescente mostrava de forma especialmente horripilante. Não tivemos dúvida, tratava-se do pavoroso Papa-figo. Pra aumentar mais nosso pavor, aquela figura soturna e esquálida, à medida que se aproximava balbuciava algo que soava aos nossos ouvidos como: eu sou o Papa-figo... Eu sou o Papa-figo!
Só tive tempo de tirar os sapatos, enfiar neles os dedos da mão esquerda, pegar meu irmão pelo braço e sair em desembestada carreira até a taberna do seu Asterclides que, felizmente, estava aberta. Vendo o pavor das nossas caras o bom homem nos serviu um copo d’água e arriscou:
- O que foi meninos, por acaso vocês viram o Papa-figo?
- Vimos, sim, seu Asterclides! E ele está bem ali, apontamos para o rumo donde tínhamos visto a coisa ruim.
- Tá bem... Vou mandar o Manéo dar um tiro nele. Ele nunca mais vai fazer medo a ninguém...
- Mas, e vocês, pra onde vão assim?
- Vamos buscar nossa irmã no trabalho dela, respondemos.
- Então, vou mandar o Manéo levar vocês até lá.
- Obrigado, seu Asterclides!
Em questão de minutos, eu na garupa e meu irmão encarapitado no varão da bicicleta do irmão de seu Asterclides chegamos ao nosso destino.
Mas, aquele não era o meu dia, ou melhor, minha noite. Algo ainda estava por acontecer para aumentar o meu calvário fazendo daquela data uma das piores que já vivi nos meus tempos de menino. O Papa-figo ficara para trás. Cautelosamente, porém, deixei para calçar os sapatos quando chegasse ao meu destino; o que fiz, não sem notar que, desta vez, foi um pouco mais trabalhoso do que das outras vezes. Mas, como estava com os pés empoeirados da carreira que empreendera descalço imaginei que essa fosse a razão para que os sapatos refugassem tanto os meus pés.
Ali chegando, como de costume, D. Atlea, a bondosa missionária americana nos fez sentar no seu confortável sofá servindo-nos como sempre fazia uma gostosa limonada com biscoitos. Desta vez, porém, ao baixar a bandeja para nos servir notei que aquela senhora de olhos azuis e arregalados mirava meus pés. Algo devia estar errado com eles, pensei. Mas o quê? A resposta veio em instantes na forma de uma exclamação, num português sofrível e de sotaque carregado: Ó, Jooosé Henriqueee, os seus sapatos estão brigados!
Explicar por que, não sei. Porém, aquela exclamação teve efeito quase tão devastador quanto aquele encontro com o Papa-figo. Se deste tremia de pavor, daquela delicada gringa, daí em diante, morria de vergonha!
        Felizmente, para fim dos meus sofrimentos, algum tempo depois descobri que o tal Papa-figo não existia. Era apenas um pé-inchado[4] que perambulava pelas ruas noite adentro. Quanto àquela missionária ficou pouco tempo por aqui. Retornou pra sua terra natal levando com ela o motivo de tanta vergonha.


[1] Papa-figo – Indivíduo muito mau que vagava pelas noites e, que segundo os mais velhos atacava crianças para tirar-lhes o fígado.
[2] Transglobe – Bonitos e excelentes aparelhos de rádio de nove faixas que captavam transmissões radiofônicas de todos os pontos do globo.
[3] Petromax – Certo tipo de lampião a querosene, com camisa, que dispunha de um mecanismo (êmbolo) para injetar ar comprimido no bujão, que por sua vez empurrava o querosene que alimentava a chama brilhante da camisa do petromax.
[4] Bêbado

terça-feira, 28 de agosto de 2012


RIMAS NOSTÁLGICAS

José Henrique Ferreira Leite
Poeta bissexto


Sinto falta das luas-cheias,
Da sua luz clara e prateada
Esparramada pelos quintais
Do anoitecer à madrugada.

Sinto falta das luas-cheias,
Do folguedo da molecada
Brincando de manja-pega
Ou disputando uma pelada.

Sinto falta das luas-cheias
E das brincadeiras de roda,
Dos suspiros das meninas,
Hoje em dia fora de moda.

Sinto falta das luas-cheias,
Do bom café que era servido
Em um velho bule esmaltado
E no fogão de lenha fervido.

Sinto falta das luas-cheias,
Nos terreiros das fazendas,
Do vovô contando causos,
Histórias de amor e lendas.

Sinto falta das luas-cheias,
Das noites claras quase dia,
Dos maçaricos tagarelando
Noite adentro na pradaria.

Sinto falta das luas-cheias,
Das noites mornas de verão,
Viajando num carro de boi
Assobiando uma canção.



 Lembranças das mansas noites
Sinto correr nas minhas veias.
Sinto que algo aperta meu peito,
Que falta me faz as luas-cheias.  
           




ÚLTIMA ESPIADA NO SORRISO DA NOITE
José Henrique Ferreira Leite
Escritor bissexto.

        Paraense radicado em Roraima desde a década de 40 do século passado, o senhor Francisco Alves de Souza era uma figura muito conhecida na cidade. Meteu-se na política, mas não obteve sucesso. Eleições e eleitores têm manhas que às vezes o candidato não se apercebe. Ele foi um. Ligado ao sindicato dos trabalhadores municipais morreu lutando, mas sem receber os precatórios (URPES) a que tinha direito. Decisão judicial nenhuma foi capaz de obrigar os prefeitos a botarem no orçamento da comuna os valores pelos quais tanto brigou. Que esteja em paz o bravo lutador. No lugar em que está agora certamente não precisará nunca mais nem de mandato nem de grana.  Mas a história aqui é outra. Pelos idos de 1963 ou 1964, não sei precisar bem qual desses anos, seu Souza, como era conhecido resolveu morar um pouco afastado da cidade.  Naquele tempo a última casa de Boa Vista de quem ia pela Ville Roy rumo Centro-Caçari ficava ali pelo posto Canarinho. Daí pra frente tudo era lavrado até a famosa praia Caçari no rio Cauamé. Seu Souza foi construir sua casa lá por perto dos japoneses do Mirandinha. Só que nas imediações e um pouco adiante da atual Praça da Aparecida na Avenida Presidente Dutra. Essa avenida para quem conhece o trecho há muito tempo é um pedaço do caminho que levava à mencionada praia Caçari. Dava-se uma grande volta para chegar lá. Mas era o único caminho.
        Vista por um adolescente, a casa de seu Souza, coberta de palha de buriti e paredes de adobe[1] parecia enorme! No início ficava num grande descampado em pleno lavrado. No entanto, Pouco tempo foi necessário para o proprietário, um homem muito trabalhador formar ali um bonito ambiente com árvores frutíferas. Morava ali com sua esposa, dona Carmita, cujo nome completo era Maria do Carmo Noronha de Souza e a bonita e prendada filha Dalvina Angelina Noronha de Souza. Não sei o que deu na telha para seu Souza ir morar tão distante. Não tinha luz elétrica, servia-se de água de poço e andava numa singela Humber[2], o principal meio de transporte da época.      Mesmo morando tão longe, os irmãos de igreja – a família pertencia aos quadros da tradicional Igreja Batista Regular – vendo todo aquele isolamento, nos finais de semana faziam ali animados piqueniques a que chamavam de convescotes. Tenho a convicção de que essas visitas davam ânimo e conforto principalmente para as duas mulheres da casa. Mas não resta dúvida, mesmo assim a vida devia ser bastante monótona para as duas. Deviam sentir muito medo e chorar, principalmente porque seu Souza era de fazer longas viagens de exploração de garimpos nas matas gerais. Quando estava na cidade fazia empreitadas para fornecer seixo e serviços outros para o governo do Território passando a maior parte do dia fora de casa. Pensando bem, morando naquele lugar tão isolado é de se concluir que na medida em que a filha do casal ia crescendo, morando longe da escola, da igreja e do convívio com parentes e amigos terminaria por impor uma mudança pra mais perto da urbe. E foi no que deu. Não muito tempo depois seu Souza construiu uma casa na Rua Benjamin Constant, Bairro de São Pedro, vendeu o sítio e se mudou com a família para o novo endereço. Que alívio devem ter sentido as duas!
        Não sei quem comprou o imóvel onde até então havia morado aquela solitária família evangélica. Só sei que seu novo dono ao adquiri-lo deu-lhe destino totalmente adverso. Depois de providenciar uma espichada na parte de trás da casa construiu vários cômodos de madeira separados entre si e inaugurou ali uma casa de diversão noturna. Para ser mais claro: um prostíbulo. Que mudança radical sofreu aquele lugar! Se antes uma casa silenciosa e cheia de tédio que poderia muito bem ser chamada de “choro da noite”, agora uma casa cheia de animação com o poético nome de “Sorriso da noite”. Coisas que a vã filosofia não sabe explicar.
        Por aquele tempo a molecada da Ville Roy entre os treze e dezesseis anos não falhava um sábado sequer sem correr para as bandas do Caçari para tomar banho, pescar e bagunçar com casais que aproveitavam a praia para namorar. Percorriam o trajeto de mais ou menos oito quilômetros num fôlego só. Nada chamava a atenção ou fazia a meninada parar durante a carreira até a praia a não ser um tamanduá, uma raposa ou um tatu bola que às vezes cruzavam o caminho.
        Mas, com a novidade surgida no meio do caminho a curiosidade da rapaziada foi aguçada. Alguns que já tinham ouvido falar em casas do gênero cutucavam os demais e instigavam a dar uma olhada no lugar. Criado na ortodoxa doutrina da igreja batista pelava-me de medo de fazer aquilo. No entanto, a curiosidade por conhecer aquele mundo diferente em que diziam que as mulheres andavam peladas arrebentou com meus escrúpulos. Para a turma disse que jamais entraria naquele antro. No meu íntimo, porém, o desejo impunha justamente o contrário. Faria isso a qualquer momento. Sozinho, naturalmente. Ninguém podia saber dos meus planos. Já pensou se seu Antônio Seabra e dona Ester[3] descobrem isso? A coisa ia ficar preta para os lados do José! Mas, como se dizia antigamente: aquilo eram favas contadas. Ideia fixa, brevemente com medo ou não colocaria os pés dentro do Sorriso da Noite. Coisas dos hormônios. Nessa idade, quando os pensamentos bandeiam pra esses lados, não tem igreja ou conselhos de papai e de mamãe que segurem os ímpetos dos moços. O adolescente quer experimentar. Quem na adolescência não quebrou as regras pelo menos uma vez?
        Numa bela tarde de sexta-feira, a pretexto de ir balar[4] peguei a bicicleta de minha tia e parti para a desejada empreitada. Naturalmente que não estava tranquilo; a ansiedade era grande. Só as vigorosas pedaladas disfarçavam o tremor das pernas.  Mas estava decidido. Tomei o rumo do Sorriso da Noite. Estava ali não mais de dez minutos de casa. Saí por volta das três horas da tarde na certeza que nesse horário não tinha nenhum freqüentador na alegre casa noturna. Chegaria como quem não quer nada e bateria palmas à procura do seu Souza. Dito e feito. Menos de dez minutos e já estava no terreiro do Sorriso da Noite em plena luz do dia. O sol ainda ardia feito brasa.  Antes de fazer-me anunciar notei que encostadas na parede lateral direita da casa havia várias bicicletas e dois jipes modelo 101 estacionados na lateral esquerda. Lembro bem: um deles tinha escrito no para-choque dianteiro “EU VI O DISCO”. Tempos depois soube que o dono daquele jipe em uma viagem noturna de Mucajaí pra Boa Vista tinha visto uma bola de fogo que o seguia. Achou que era um disco voador. Por isso escreveu aquilo no para-choque do seu jipe. Bati palmas. Para minha surpresa lá de dentro saiu uma moça muito bem vestida e bem pintada... Ué, não diziam que elas andavam peladas dentro de casa? Aquela, não!
Sem conseguir esconder o nervosismo arrisquei:
        – Moça, seu Souza está?
        – Acho que não... Se estiver aqui não o conheço por esse nome. Mas o que é que um molecote anda fazendo por aqui?
        – É que eu tenho um recado pra ele. Mas se ele não está volto depois.
        A bonita morena fez ar de quem estava acreditando na minha conversa fiada. Pegou-me pelo braço e disse: vamos ao salão, vê se é um daqueles senhores que estão ali...
        Segurando-me ainda pelo braço a mulher me levou até ao salão. Que surpresa! O salão estava apinhado de respeitáveis senhores da cidade. Uma novidade para mim. Primeiro, porque pensava que por ser uma casa noturna, os homens só a frequentavam à noite. Segundo, porque estavam ali pelo menos três grandes amigos do meu carrancudo tio Antônio Seabra: dois magarefes e o dono de um dos boxes do velho mercado de Boa Vista, no qual trabalhava seu Antônio Seabra. Gelei! Num movimento brusco escapei da moça que me segurava pelo braço e rápido como relâmpago já estava na bicicleta de minha tia pedalando como um doido no rumo de casa pensando em nunca mais voltar naquele lugar.
        Ontem, dia vinte e oito de julho de 2012, e aí já se vão seus quarenta e nove anos, passei com minha mulher no exato local onde morou seu Souza e sua família. Onde também funcionou aquela alegre casa da mais antiga profissão do mundo. Uma das mangueiras plantadas pelo seu Souza permanece impassível no mesmo lugar, com sua copa esgalhada fazendo sombra sobre a Avenida Presidente Dutra, como que a contar aos passantes que naquele lugar duas distintas mulheres – mãe e filha – viveram momentos de medo e de tédio. Como que a relatar aos que por ali transitam que no mesmo lugar mulheres e homens viveram fugazes momentos de alegria e amores secretos.
        Não sei quanto tempo a velha mangueira permanecerá ali indicando o exato local em que morou seu Souza e sua família e onde o animado “Bataclan” macuxi viveu seus áureos dias. Ontem, quem sabe, dei a última espiada no Sorriso da Noite.. Quanta emoção! Sei, não: mas tive a impressão de ter ouvido choros e risos entre as folhagens daquela velha mangueira.   


[1] Pequeno bloco semelhante ao tijolo, preparado com barro e que não era levado ao forno para queimar.
[2] Marca de antigas bicicletas de fabricação inglesa contrabandeadas para Roraima através Lethen, Guyana.
[3] Meus tios com os quais morava e membros fervorosos da Igreja Batista.
[4] Péssimo costume dos meninos da época de sair matando passarinhos de baladeira (estilingue).

sábado, 18 de agosto de 2012


ÁGUA FRIA
José Henrique Ferreira Leite
Poeta bissexto.

Existe um lugar incrustado nas serras
Tão bonito e tão exuberante
Que mesmo o maior diamante
Frente a ele perde o valor.              
É um lugar encantado
Obra de arte e fantasia
Toque de esmero e magia
Projeto do divino escultor.
Nesse lindo lugar nada foi esquecido:
Nem rochas nem matas nem rios nem cristais,
Nem ouro, nem diamantes nem outros minerais,
Nada que o Criador não tenha previsto.
Das encostas das serras despencam cascatas
Olhos d’água brotam do sopé das colinas
Que à medida que descem formam piscinas
Recortadas nas pedras com graça e arte.
Por fim, escavados nas pedras imensas
Indeléveis desenhos e outros sinais
Deixados ali por nossos ancestrais,
Apontando o rumo de antigos caminhos.

.
Há por acaso lugar mais bonito?
Que encha os olhos dos visitantes
Com cenários assim tão excitantes
Quanto aos que aqui temos visto?
O lugar tem algo de mágico!
Decerto o poeta exclamaria
Ao ver incrustado na serrania
A pequena e linda ÁGUA FRIA!