ÚLTIMA ESPIADA NO SORRISO
DA NOITE
José Henrique Ferreira
Leite
Escritor bissexto.
Paraense radicado em Roraima desde a década de 40 do século
passado, o senhor Francisco Alves de Souza era uma figura muito conhecida na
cidade. Meteu-se na política, mas não obteve sucesso. Eleições e eleitores têm
manhas que às vezes o candidato não se apercebe. Ele foi um. Ligado ao
sindicato dos trabalhadores municipais morreu lutando, mas sem receber os
precatórios (URPES) a que tinha direito. Decisão judicial nenhuma foi capaz de
obrigar os prefeitos a botarem no orçamento da comuna os valores pelos quais
tanto brigou. Que esteja em paz o bravo lutador. No lugar em que está agora
certamente não precisará nunca mais nem de mandato nem de grana. Mas a história aqui é outra. Pelos idos de
1963 ou 1964, não sei precisar bem qual desses anos, seu Souza, como era
conhecido resolveu morar um pouco afastado da cidade. Naquele tempo a última casa de Boa Vista de
quem ia pela Ville Roy rumo Centro-Caçari ficava ali pelo posto Canarinho. Daí
pra frente tudo era lavrado até a famosa praia Caçari no rio Cauamé. Seu Souza
foi construir sua casa lá por perto dos japoneses do Mirandinha. Só que nas
imediações e um pouco adiante da atual Praça da Aparecida na Avenida Presidente
Dutra. Essa avenida para quem conhece o trecho há muito tempo é um pedaço do
caminho que levava à mencionada praia Caçari. Dava-se uma grande volta para
chegar lá. Mas era o único caminho.
Vista por um adolescente, a casa de seu Souza, coberta de
palha de buriti e paredes de adobe[1]
parecia enorme! No início ficava num grande descampado em pleno lavrado. No
entanto, Pouco tempo foi necessário para o proprietário, um homem muito
trabalhador formar ali um bonito ambiente com árvores frutíferas. Morava ali
com sua esposa, dona Carmita, cujo nome completo era Maria do Carmo Noronha de
Souza e a bonita e prendada filha Dalvina Angelina Noronha de Souza. Não sei o
que deu na telha para seu Souza ir morar tão distante. Não tinha luz elétrica,
servia-se de água de poço e andava numa singela Humber[2],
o principal meio de transporte da época. Mesmo
morando tão longe, os irmãos de igreja – a família pertencia aos quadros da
tradicional Igreja Batista Regular – vendo todo aquele isolamento, nos finais
de semana faziam ali animados piqueniques a que chamavam de convescotes. Tenho
a convicção de que essas visitas davam ânimo e conforto principalmente para as
duas mulheres da casa. Mas não resta dúvida, mesmo assim a vida devia ser bastante
monótona para as duas. Deviam sentir muito medo e chorar, principalmente porque
seu Souza era de fazer longas viagens de exploração de garimpos nas matas
gerais. Quando estava na cidade fazia empreitadas para fornecer seixo e
serviços outros para o governo do Território passando a maior parte do dia fora
de casa. Pensando bem, morando naquele lugar tão isolado é de se concluir que
na medida em que a filha do casal ia crescendo, morando longe da escola, da
igreja e do convívio com parentes e amigos terminaria por impor uma mudança pra
mais perto da urbe. E foi no que deu. Não muito tempo depois seu Souza
construiu uma casa na Rua Benjamin Constant, Bairro de São Pedro, vendeu o
sítio e se mudou com a família para o novo endereço. Que alívio devem ter
sentido as duas!
Não sei quem comprou o imóvel onde até então havia morado
aquela solitária família evangélica. Só sei que seu novo dono ao adquiri-lo deu-lhe
destino totalmente adverso. Depois de providenciar uma espichada na parte de
trás da casa construiu vários cômodos de madeira separados entre si e inaugurou
ali uma casa de diversão noturna. Para ser mais claro: um prostíbulo. Que
mudança radical sofreu aquele lugar! Se antes uma casa silenciosa e cheia de tédio
que poderia muito bem ser chamada de “choro da noite”, agora uma casa cheia de
animação com o poético nome de “Sorriso da noite”. Coisas que a vã filosofia
não sabe explicar.
Por aquele tempo a molecada da Ville Roy entre os treze e
dezesseis anos não falhava um sábado sequer sem correr para as bandas do Caçari
para tomar banho, pescar e bagunçar com casais que aproveitavam a praia para
namorar. Percorriam o trajeto de mais ou menos oito quilômetros num fôlego só.
Nada chamava a atenção ou fazia a meninada parar durante a carreira até a praia
a não ser um tamanduá, uma raposa ou um tatu bola que às vezes cruzavam o
caminho.
Mas, com a novidade surgida no meio do caminho a curiosidade
da rapaziada foi aguçada. Alguns que já tinham ouvido falar em casas do gênero cutucavam
os demais e instigavam a dar uma olhada no lugar. Criado na ortodoxa doutrina
da igreja batista pelava-me de medo de fazer aquilo. No entanto, a curiosidade
por conhecer aquele mundo diferente em que diziam que as mulheres andavam
peladas arrebentou com meus escrúpulos. Para a turma disse que jamais entraria
naquele antro. No meu íntimo, porém, o desejo impunha justamente o contrário. Faria
isso a qualquer momento. Sozinho, naturalmente. Ninguém podia saber dos meus
planos. Já pensou se seu Antônio Seabra e dona Ester[3]
descobrem isso? A coisa ia ficar preta para os lados do José! Mas, como se
dizia antigamente: aquilo eram favas contadas. Ideia fixa, brevemente com medo
ou não colocaria os pés dentro do Sorriso da Noite. Coisas dos hormônios. Nessa
idade, quando os pensamentos bandeiam pra esses lados, não tem igreja ou
conselhos de papai e de mamãe que segurem os ímpetos dos moços. O adolescente
quer experimentar. Quem na adolescência não quebrou as regras pelo menos uma
vez?
Numa bela tarde de sexta-feira, a pretexto de ir balar[4]
peguei a bicicleta de minha tia e parti para a desejada empreitada.
Naturalmente que não estava tranquilo; a ansiedade era grande. Só as vigorosas
pedaladas disfarçavam o tremor das pernas. Mas estava decidido. Tomei o rumo do Sorriso
da Noite. Estava ali não mais de dez minutos de casa. Saí por volta das três
horas da tarde na certeza que nesse horário não tinha nenhum freqüentador na
alegre casa noturna. Chegaria como quem não quer nada e bateria palmas à
procura do seu Souza. Dito e feito. Menos de dez minutos e já estava no
terreiro do Sorriso da Noite em plena luz do dia. O sol ainda ardia feito
brasa. Antes de fazer-me anunciar notei
que encostadas na parede lateral direita da casa havia várias bicicletas e dois
jipes modelo 101 estacionados na lateral esquerda. Lembro bem: um deles tinha
escrito no para-choque dianteiro “EU VI O DISCO”. Tempos depois soube que o
dono daquele jipe em uma viagem noturna de Mucajaí pra Boa Vista tinha visto
uma bola de fogo que o seguia. Achou que era um disco voador. Por isso escreveu
aquilo no para-choque do seu jipe. Bati palmas. Para minha surpresa lá de
dentro saiu uma moça muito bem vestida e bem pintada... Ué, não diziam que elas
andavam peladas dentro de casa? Aquela, não!
Sem conseguir esconder o
nervosismo arrisquei:
– Moça, seu Souza está?
– Acho que não... Se estiver aqui não o conheço por esse
nome. Mas o que é que um molecote anda fazendo por aqui?
– É que eu tenho um recado pra ele. Mas se ele não está volto
depois.
A bonita morena fez ar de quem estava acreditando na minha
conversa fiada. Pegou-me pelo braço e disse: vamos ao salão, vê se é um
daqueles senhores que estão ali...
Segurando-me ainda pelo braço a mulher me levou até ao salão.
Que surpresa! O salão estava apinhado de respeitáveis senhores da cidade. Uma
novidade para mim. Primeiro, porque pensava que por ser uma casa noturna, os
homens só a frequentavam à noite. Segundo, porque estavam ali pelo menos três
grandes amigos do meu carrancudo tio Antônio Seabra: dois magarefes e o dono de
um dos boxes do velho mercado de Boa Vista, no qual trabalhava seu Antônio
Seabra. Gelei! Num movimento brusco escapei da moça que me segurava pelo braço
e rápido como relâmpago já estava na bicicleta de minha tia pedalando como um
doido no rumo de casa pensando em nunca mais voltar naquele lugar.
Ontem, dia vinte e oito de julho de 2012, e aí já se vão seus
quarenta e nove anos, passei com minha mulher no exato local onde morou seu
Souza e sua família. Onde também funcionou aquela alegre casa da mais antiga
profissão do mundo. Uma das mangueiras plantadas pelo seu Souza permanece
impassível no mesmo lugar, com sua copa esgalhada fazendo sombra sobre a
Avenida Presidente Dutra, como que a contar aos passantes que naquele lugar duas
distintas mulheres – mãe e filha – viveram momentos de medo e de tédio. Como
que a relatar aos que por ali transitam que no mesmo lugar mulheres e homens
viveram fugazes momentos de alegria e amores secretos.
Não sei quanto tempo a velha mangueira permanecerá ali indicando
o exato local em que morou seu Souza e sua família e onde o animado “Bataclan”
macuxi viveu seus áureos dias. Ontem, quem sabe, dei a última espiada no
Sorriso da Noite.. Quanta emoção! Sei, não: mas tive a impressão de ter ouvido
choros e risos entre as folhagens daquela velha mangueira.
[1]
Pequeno bloco semelhante ao tijolo, preparado com barro e que não era levado ao
forno para queimar.
[2]
Marca de antigas bicicletas de fabricação inglesa contrabandeadas para Roraima através
Lethen, Guyana.
[3] Meus
tios com os quais morava e membros fervorosos da Igreja Batista.
[4]
Péssimo costume dos meninos da época de sair matando passarinhos de baladeira
(estilingue).
Belíssima crônica meu querido mano.
ResponderExcluirObrigado, mano. Estou escrevendo alguma crônicas referentes ao período de 1959 (quando cheguei nesta terra) a 1969. Boa Vista era miudinha quando cheguei aqui. Amo esta cidade. Por isso, muito do que não existe mais, mas que conservo na memória, vou fazer lembrança por meio destas crônicas. São lugares, edifícios, pessoas, eventos, fatos, etc.
ExcluirCom isso estou a cutucar a memória dos meus contemporâneos e levando ao conhecimento das gerações mais novas a história de nossa cidade. Tento também despertar o gosto pela poesia. Tenho lido e aplaudido sua crítica política através do Rebelde Solitário. Parabéns, mano. Feliz por essa sua veia e verve política. Mete o pau nesses safados. Aqui é a mesma coisa. abraços
Li e reli suas notas nostálgicas na Turma da Barra. Muito joia!
ExcluirFiquei pensando: como pode? criação tão diferente, lugares tão diferentes onde fomos criados e a mesma veia literária... Eta genética! Vá em frente mano. Sua pena se aperfeiçoa a cada dia. Olha, ontem recebi o prefaciamento do meu livro pelo Senador e meu amigo Mozarildo, que espero lançar até dezembro. É também um livro sobre a república de estudantes de Roraima em Belém. Tem histórias do arco da velha.kkkkk. Quando sair mandarei alguns pra vocês.
Obrigado, mano. Estou escrevendo alguma crônicas referentes ao período de 1959 (quando cheguei nesta terra) a 1969. Boa Vista era miudinha quando cheguei aqui. Amo esta cidade. Por isso, muito do que não existe mais, mas que conservo na memória, vou fazer lembrança por meio destas crônicas. São lugares, edifícios, pessoas, eventos, fatos, etc.
ResponderExcluirCom isso estou a cutucar a memória dos meus contemporâneos e levando ao conhecimento das gerações mais novas a história de nossa cidade. Tento também despertar o gosto pela poesia. Tenho lido e aplaudido sua crítica política através do Rebelde Solitário. Parabéns, mano. Feliz por essa sua veia e verve política. Mete o pau nesses safados. Aqui é a mesma coisa. abraços.
Li e reli suas notas nostálgicas na Turma da Barra. Gostei imensamente. Descobri uma coisa: o mano tem a mesma queda e o mesmo gosto do mano daqui dessas lonjuras. Vai em frente, mano. A literatura memorialista está nas suas veias e no seu baú de memória. Como pode? Criados tão distantes um do outro, criação tão diferente e vocação literária parecidíssimas... Isso é que é genética!
ResponderExcluirÉ claro que tem que ser expotaneo, mas estou esperando a próxima história, realmente sou por demais saudosista,escrevi mais duas pequenas memórias no turma da Barra veja,com um detalhe, quando sito uma irmã, é adotiva. um abraço pra você e outro especialmente para minha cunhada. Wilson F Leite.
ResponderExcluir