sábado, 4 de agosto de 2012


NOS TEMPOS DO JOÃO MINEIRO
José Henrique Ferreira Leite
Escritor bissexto.
            Estamos na tarde de um domingo qualquer no início da década de sessenta do século passado. Dia de jogo no Campo de Futebol João Mineiro.  Campo, sim. Era assim que se falava. Essa história de estádio soava bastante estranho aos ouvidos da molecada boa-Vistense daquele tempo. O pomposo nome de Estádio João Mineiro era pouco mencionado. Mas estava escrito lá na parte superior do portal logo abaixo da sigla FRD, ou seja, Federação Rio-branquense de Desporto. Mas, com o passar do tempo o termo estádio foi sendo incorporado gradativamente no linguajar dos aficionados do futebol aqui por estas plagas. O jogo no velho João Mineiro começava cedo. No início dos anos 60 não havia luz elétrica ainda para as bandas do Bairro São Francisco. Por isso, pelas duas horas da tarde o assíduo e severo Joca Farias[1] já plantado no portão, impassível e sereno controlava a entrada e saída dos torcedores pagantes e não pagantes, afugentando sem dó os que dando uma de João sem braço tentavam entrar sem pagar. Fazia isso com competência e seriedade invejável. Era um homem com senso de justiça à flor da pele. Pra ele não tinha essa de filho desse ou filho daquele, não. Tinha de pagar entrada[2]. Ou pagava ou voltava pra casa de rabinho entre as pernas. Os que podiam entrar iam escorando suas bicicletas no pé do muro e os jipes eram enfileirados na área livre de frente para o portal.
            O futebol daquelas tardes de domingo do início dos anos sessenta era superanimado. Acode-me a memória a imagem de times como o Rio Branco, São Paulo, Baré e Roraima; times que levavam ao João Mineiro uma multidão de torcedores. Se o jogo era Baré X Roraima... A coisa pegava! As fanáticas torcidas, de cima de suas respectivas arquibancadas – que não passavam de toscas e desequilibradas armações de pranchetas parafusadas em vigotas de madeira – entre gritos e foguetório provocavam-se reciprocamente. Não raro os insultos terminavam em desforço físico. Tudo ali, na hora! Sob o fogo da paixão pelo time e do sol em brasa das três da tarde. Nada que pudesse preocupar. Naquela praça de esportes todos eram amigos e aparentados entre si. Arrufos da paixão que o futebol despertava e ainda desperta. Os ânimos aliviavam com o declinar do sol e com alguns goles de uma gelada[3].  
            Mas nos dias de futebol no velho João Mineiro havia outras atrações além das primorosas jogadas de atletas como Chico do Baré, Mão-de-remo, Ribeirão, Tracajá, Barrigola, Chico Cafute, Guilherme (goleiro), Piauí, Dermário, Pipira[4] e outros.  Uma dessas atrações era patrocinada pela molecada (minha turma) que morava nos arredores do campo e que consistia nas suas artimanhas para pular o muro. Isso proporcionava correrias e gargalhadas de todos. Não tinha guarda territorial que pudesse controlar os moleques. Nem guardas carrancudos como Mário Borges, Chico Paulino, José Lemos ou mesmo o “valente” guarda Maxixe[5] davam conta. Notava-se que, às vezes, eles faziam vista grossa. Os bons guardas territoriais sabiam das condições dos pais daqueles meninos. Não só eram amigos dos pais da molecada e levavam vidas idênticas, como também tinham filhos que faziam parte da turma dos pula-muro. Por sua vez, os quintais das casas ficavam praticamente grudados no muro do velho João Mineiro. Naquele tempo as ruas não estavam bem definidas ainda. Como negar àqueles meninos sem nenhum tostão uma das poucas diversões coletivas da cidade? No meu caso, o quintal da casa de minha tia Ester e Antônio Seabra, com os quais morava, terminava onde fica a atual Pastelaria Confiança a cerca de cinquenta passos do campo de futebol. Uma tentação!
            Sem um vintém sequer para comprar o bilhete de entrada ou mesmo um picolé, só havia duas maneiras de nossa turma assistir aos jogos: ou subir pelos troncos e se escanchar nos olhos das mangueiras, ou então pular o muro. Do olho da mangueira tinha-se uma visão privilegiada do campo; mas um inconveniente se mostrava insuperável: no momento do gol não era possível pular, correr, dar cambalhotas e bater palmas junto com os demais torcedores. A única reação possível era se esgoelar sozinho até ficar rouco! Como é possível concluir, isso não tinha graça nenhuma! Já pular o muro tinha um quê de especial! Aquele sabor da coisa proibida. Mas requeria certa estratégia e engenhosidade. Em primeiro lugar era preciso ter em mãos pelo menos quatro pedaços de cabo de vassoura de mais ou menos vinte centímetros. Como o muro era bastante alto e sem reboco, os pedaços de cabo de vassoura serviam para enfiar nos buracos dos tijolos que formavam suas colunas, facilitando assim a escalada. Mas só isso não resolvia a questão. Para os que não se lembram no canto interno do muro, do lado esquerdo do portão, sentido de quem entrava, havia uma pequena edificação onde morava um sujeito abusado; o vigia do lugar. O puto tinha o apelido de Galo. Mas ai do moleque que se atrevesse chamá-lo por esse apelido! Se o pegasse o esganaria na hora! Não bastasse o seu Joca Farias que não permitia ninguém desabilitado entrar pelo portão, mais esse tal de Galo com a incumbência de ficar rondando o muro pelo lado de dentro para impedir que os furões o pulassem. Vida difícil a nossa! Por isso, termos que nos garantir de estratégia e engenhosidade para poder torcer pelo time do coração. E o que fazíamos? Um dos moleques utilizando-se dos pedaços de vassoura subia no muro, localizava o Galo e dali ficava gritando e imitando o canto do bicho que lhe emprestara o nome para servir de apelido. O moleque gritava repetidamente: Ei Galo, ei Galo! Cocoricóóóó, cocoricóóóó! O raivoso Galo lançava-se como um foguete no rumo do frangote que o provocava de cima do muro. Avisados da chegada do raivoso vigia, em poucos segundos o restante da meninada rodeava o campo e pulava o muro misturando-se rapidamente com os torcedores. Pouco depois, o provocador dava um jeitinho e pulava o muro também. O resto era só alegria! Já devidamente aboletados nas arquibancadas com os demais torcedores, os furões ajudavam o saudoso João Mineiro pegar fogo diante das jogadas espetaculares e dos gols (Gois) de placa feitos por artistas do drible como o Chico do Baré e outros. Isso era o velho João Mineiro naquelas saudosas tardes de domingo dos pioneiros tempos de uma Boa Vista simples e provinciana que ainda não atingira a casa dos dez mil habitantes.  
            Na hora da saída não havia com que se preocupar. Os furões se misturavam às dezenas de torcedores e tranquilamente capavam o gato[6] sem que seu Joca ou o mal humorado Galo sequer desconfiassem qual daqueles meninos pulara o muro.
            Ei, Galoooo! Cocoricóóóó! Provocava ainda um moleque já distante do portão do Velho João Mineiro.

PS. João Mineiro foi um Mestre de Obras responsável por muitas construções no recém-criado Território do Rio Branco. Apaixonado por futebol construiu por conta própria junto com seus funcionários o velho Estádio João Mineiro com capacidade para dois mil torcedores. Segundo se conta, seus funcionários foram jogadores do time que fundou: o “OPERÁRIO”.    


[1] Seu Joca Farias foi um roraimense que ficou muito conhecido por sua severidade e alto senso de disciplina e justiça. Era temido pela moçada de Boa Vista nas suas atuações como porteiro nos campos de futebol, festas e como inspetor de escola. Nos piqueniques das escolas era sempre chamado para preparar e distribuir o churrasco.
[2] Pagar entrada: expressão local e da época equivalente a comprar o bilhete de entrada.
[3] Cerveja.
[4] Apelidos dos jogadores mais conhecidos do fim da década de 50 e década adentro de 60.
[5] Esse foi um Guarda Territorial que ficou conhecido por ser o mais medroso da sua turma. Sua história faz parte do folclore da cidade. Dizem que mesmo fardado, ao abordar um sujeito qualquer, bastava que este batesse os pés com força no chão ameaçando confrontá-lo para o guarda Maxixe fugir em desembestada carreira. 
[6] Capar o gato: o mesmo que fugir. Há quem diga capar o mato. Os bons dicionários atestam essa expressão.

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