CAIO
VASCONCELOS, UMA RUA DO BARULHO.
José
Henrique Leite
Escritor
bissexto (05/08/2011).
Em junho de 1975, cinco meses depois de casado com Hessy
Nunes Leite, fui ao Recife fazer minha licenciatura de curta duração em
Ciências e Matemática. Viajei deixando minha mulher grávida de um mês da
primogênita Malin (registrada Joessy Mallyn Nunes Leite). Um ano depois, quando
retornei, minha filha já estava completando quatro meses e minha mulher havia
conseguido uma casinha pelo sistema financeiro do BNH. A casa era de alvenaria
coberta de telha brasilit, com dois apertados quartos, duas minúscula salas de
estar e de jantar, uma pequeníssima cozinha e um micro-banheiro. Só. Não havia
muros ainda, e a vizinhança toda se via quando saía ou chegava do trabalho. A
rua, que já era denominada de Caio Vasconcelos, era beneficiada apenas por uma
camada de piçarra, luz e água. A morada era diminuta, mas o fato de chegar para
morar na casa própria, em menos de dois anos de casado, para mim foi motivo de
muita felicidade. Mérito de dona Hessy.
O conjunto BNH 1 foi construído no retângulo formado pelas
duas quadras delimitadas pelas Avenidas Getúlio Vargas e Benjamin Constant, e
transversalmente pela Avenida Surumu, Rua Uraricuera e Araraquara. No sentido
do comprimento o retângulo foi dividido ao meio pela Rua Caio Vasconcelos, a
partir da Avenida Surumu até o muro da cadeia pública, por onde passa a Rua
Araquara. Assim disposto, o conjunto ficou dividido em quatro quadras menores,
com casas fazendo frente para ambos os lados da Rua Caio Vasconcelos e as
demais fazendo frente para as avenidas Getúlio Vargas e Benjamin Constant, num
total de noventa e seis residências.
Mas nosso interesse aqui é falar sobre a Rua Caio Vasconcelos
e seus moradores; uma rua com gente que deixou saudades e desperta até hoje
vivos comentários daqueles que nasceram, cresceram ou chegaram ali bem pequenos.
Os mais velhos, ou seja, os pais da meninada da rua se conheciam, se
cumprimentavam, mas não frequentavam assiduamente a casa um do outro. Isso era
coisa de uma vez ou outra. A maioria trabalhava fora e ao chegar a casa tinha
muito que fazer. Já as crianças, de todos os topes, viviam juntas praticamente
o dia inteiro; só se separavam na hora de dormir ou no horário da escola. Quer
dizer, aqueles que estudavam em escolas diferentes, pois, os meninos, na sua
maioria, forçavam os pais a matriculá-los no mesmo colégio. O GEC era o
preferido. Para onde ia um iam os outros. Na época da matrícula os pais faziam
plantão na calçada daquela escola por mais de uma semana.
O trecho da Caio Vasconcelos onde se concentrava o grosso da
meninada ia da esquina da Avenida Surumu até a esquina da Rua Uraricuera (é
assim que está escrito na placa). Pela parte da tarde, das quatro horas em
diante era bonito de se ver aquele pedaço de rua apinhado de meninos e meninas
passeando nas suas vistosas bicicletas (Freestyle, as preferidas), jogando
bola, brincando de bandeirinha, boca de forno, manja-pega, gato-mia, voleibol,
entre outras brincadeiras. O ponto de concentração era na frente da casa nº 413,
a terceira do lado direito a contar da Avenida Surumu, onde três frondosos
jambeiros faziam (ainda fazem) uma sombra espetacular. Ali, no banco de cimento
(ainda está lá) e espalhados pela calçada e a grande varanda da casa, mais de trinta
meninos e meninas organizavam-se em times e esbaldavam-se em brincadeiras até
lá pelas nove horas da noite, com intervalo para o jantar. Para os padrões de
hoje a turma dormia cedo. Também, pudera, iam pra cama, exaustos!
Nas brincadeiras acontecia de tudo. Raro o dia em que um (a)
ou mais daqueles meninos e meninas não saíam sem uma das unhas, com um xaboque
nos pés à mostra, imensos galos e cortes na cabeça, costas e barriga com marcas
de unhas de cima abaixo, Olho roxo, dente quebrado, nariz sangrando, tufos de
cabelos arrancados, talhos nas canelas e machucões outros sem nomes
específicos. Sem contar que houve casos de gente que saiu da rua com um dos
braços quebrados. Nessas horas, mães de primeira viagem rodavam a baiana,
querendo botar culpa em alguém. Mas tudo se acalmava instantes depois. Nunca
houve acidentes com maior gravidade.
Como em todo agrupamento humano, naqueles pequenos já dava
pra notar suas diferenças, seus dons, suas preferências e algumas
personalidades singulares. Não dá para falar de todos. Citam-se aqui os mais
velhos da turma, adiantando que entre os mais novos surgiram, também, figuras
talentosas em diversas áreas.
O líder inconteste e de índole pacificadora que conseguiu anos
a fio juntar toda aquela moçada debaixo daqueles jambeiros respondia pelo carinhoso
apelido de Black. O Rodrigo era assim conhecido até pelos vizinhos adultos da
Caio Vasconcelos. Lamentavelmente, no dia trinta de agosto de 1993, uma doença
raríssima e fulminante (miastenia gravis) o levou aos dezesseis anos, deixando
todos seus amigos desolados até hoje.
O Xerife da rua, flamenguista doente desde que lhes nasceram
os dentes sempre foi o Márcio/Maru. Enquanto morou ali, nenhum moleque de
outras redondezas se meteu a besta com a turma da Caio Vasconcelos.
Já o André Luís/Bola, é o que se podia chamar de um amigo
leal. Leal e prestativo. Podia-se contar com ele pra tudo e em todos os
momentos.
Das meninas, a Mariana escandalosa que só ela mesma, nasceu
com o dom para a comunicação e jornalismo. Ainda menina já era radialista. Seu
programa fazia sucesso nas mais diferentes camadas da sociedade Boa-vistense na
década de noventa.
A Mallyn ou Malin, como prefiro grafar, desde pequena gostou
de organizar festinhas e brincadeiras. Impetuosa, comunicativa e com forte
inclinação para as artes dramáticas, com sua peça “Loucuras de Uma empregada”,
escrita e representada na escola em 1988, quando tinha doze anos, por pouco não
desbanca Shakespeare do seu posto de maior dramaturgo de todos os tempos.
Exagero de pai coruja, claro!
Por muitos anos, Malin e Mariana (não se trata de dupla
sertaneja) foram as grandes responsáveis pelos eventos da Caio Vasconcelos.
Aniversários, dias das mães, festas juninas, natal, etc., nada passava
despercebido aos olhos daquelas pequenas miniaturas de gente. Elas colocavam os
pais e vizinhos em polvorosa para arrumar barracas, mesas, cadeiras, cordas
fios, lâmpadas, caixas de isopor, refrigerantes e bugigangas outras, tudo para
que suas festas alcançassem o maior sucesso. As mães, coitadas! Tinham que cair
em campo para arrumar o material da decoração, comidas, bolos, tortas,
salgadinhos, sorvetes picolés, etc. Os fogos de artifícios e certos detalhes da
decoração ficavam a cargo do nosso bom vizinho Walniro. Tudo isso marcou fundo
a vida de todos nós que moramos na inesquecível Caio Vasconcelos. Mas cabe
relembrar mais uma vez: as festas juninas organizadas por essas duas meninas
marcaram época naquela rua. Naqueles bons tempos, depois de combinado com os
vizinhos fechava-se o trecho entre a Avenida Surumu e a Rua Uraricuera, com
entrada e saída restritas aos residentes daquele pedaço. Na frente da casa
número 413, onde eram esticadas bandeirolas e demais enfeites da festa, a turma
da Caio Vasconcelos apresentava sua animada quadrilha. Tão animadas eram aquelas
festas que, em uma das vezes, sem que fossem convidadas, apareceram duas
quadrilhas pedindo para se apresentarem. Permissão dada, as danças rolaram até
tarde daquela noite. Nem precisaria falar das barraquinhas que tinham de tudo:
arroz, vatapá, cachorro-quente, canjica, pamonha, milho verde (assado e
cozido), pé-de-moleque, aluá e refrigerantes.
Quanta saudade daqueles tempos e daquela meninada que até
netos já nos deram!
Mas as histórias da Caio Vasconcelos e seus moradores não
acabam por aqui. Os pais dessa meninada, com raríssimas exceções, tinham plena
confiança uns nos outros. Todos sabiam e tacitamente assumiam a obrigação de
cuidar dos filhos alheios assim como cuidavam dos seus. Para todos os efeitos,
os adultos eram tios e os meninos viviam como se fossem primos entre si. Em
suma, os residentes da Caio Vasconcelos formavam uma grande família. E era por
conta dessa mútua confiança que, ignorando as regras de segurança no trânsito,
certa senhora da casa número 413 entupia sua pampa de meninos, doze ao todo,
levando-os e trazendo-os da escola diariamente. Às vezes fazia mais de uma
viagem só porque todos queriam andar na pampa do tio José, dirigida pela tia
Hessy.
Outra história envolvendo os moradores daquela rua está
ligada ao seu imbatível time de futebol mirim, formado e dirigido por um
técnico que, se perguntado pelo formato de uma bola de futebol, não saberia responder.
Mesmo assim, seu time, o Zepinheiro Futebol Clube, arrebatou todos os troféus
de campeonatos de que participou. Dá para entender isso? Claro, coisas de um
técnico que tinha para incentivá-lo um bom escocês 18 anos e o hino do time composto
pela torcedora número um, Mariana Pinheiro, que tinha como refrão: “Passou, passou... Passou um avião e nele
estava escrito: Zepinheiro é campeão!”.
A última história – existem centenas delas – para encerrar o
texto que já está longo, tem como protagonistas a vizinha que morava do lado
direito da casa número 413 e todos os meninos da rua; inclusive dois dos que
vinham das redondezas: Sdaourleos e Jocemar/Arroz, amigos inseparáveis do
Black. Embora na casa de dona Darci tivesse um banheiro interno, este era
minúsculo e fazia muito calor. Por isso, ela gostava de usar o banheiro que
ficava do lado de fora, fechado precariamente com algumas tábuas. Dona Darci
era uma boa vizinha com seu quintal repleto de plantas e flores. Mas ela tinha
ciúme exagerado de seu jardim. Qualquer plantinha ou vaso quebrado era motivo
de denúncias aos pais daquela meninada encapetada. Sabendo disso, eles não a
deixavam em paz. De cima do muro da casa 413, descobriram os
pivetes que dava para ver dona Darci tomando banho. E de lá eles cantavam uma
música cheia de provocações inventada pelo Sdaourleos, que dizia: “Ô Darci
você tá muito boa! Muito boa muito, muito boa!”. A seguir pulavam de cima
do muro e saiam em disparada. Eles faziam essas presepadas quando os pais não
estavam por perto. Por isso, quando ela vinha fuxicar, nem dávamos trela a suas
queixas. Achávamos que era exagero de sua parte. Quando que meninos tão “comportados”
iriam brechar uma velhinha tomando banho? Claro que sabíamos daquelas
peraltices. Mas, fazer o quê?
PS.
Relação da turma da Caio Vasconcelos a partir de 1976. Se alguém foi esquecido,
grite de onde estiver.
Lado
direito – saindo da Av. Surumu até a Rua Uraricuera:
01. Mariana Gomes Pinheiro;
02. Daniel Gomes Pinheiro;
03. Natália Gomes Pinheiro (Ratinho)
04. Joessy Mallyn Nunes Leite (Malin)
05. Rodrigo Nunes Leite (Black) in
memoriam;
06. Diego Nunes Leite (Pingos Cliff)
07. Juliana Nunes Leite (Juju);
08. Francisquinho (neto de dona Darci),
09. Elisandra;
10. Júnior (irmão da Elisandra);
11. Natali;
12. Suzane;
13. Alexandre;
14. Wagner (Chinga),
15. Charlene;
16. Fredson;
17. Frediane;
18. Anchieta Jr. (in memoriam);
19. Ana Paula (amiga);
20. Maurício;
21. Jana;
22. Marina;
23. Márcio;
Lado
esquerdo – saindo da Av. Surumu até a Rua Uraricuera:
24. Arlisson Tobias;
25. Lice;
26. Adaiane;
27. André Luis Pinheiro de Melo (Bola);
28. Bruno Pinheiro de Melo;
29. Lubênia Pinheiro de Melo;
30. Márcio (Maru);
31. Marcela (Maruquinha);
32. Gilfredo (Gil);
33. Gabriela (Gabi);
34. Illo;
35. Igor;
36. Alessandro (Tiquinho);
37. Taironi;
38. Antonio Jr. (Júnior);
39. Fabiana;
40. Ivan (Nego Ivan);
41. Raphaela (rasgaela);
42. Antoneli (Pituca);
43. Antoniela (Curumim Nenem);
44. José (Zezo);
45. Lara;
46. Janderson;
Lado
direito – saindo da Rua Uraricuera até a Rua Araraquara:
47. Lidiane;
48. Lidinara;
Lado
esquerdo – saindo da Rua Uraricuera até a Rua Araraquara:
49. Carlos
Magalhães (Suni);
50. Ezélio;
51. Arimatéia
(Tetéia);
52. Gisele Tajujá;
Meninos
de outras ruas do BNH 1 e redondezas que faziam parte da turma da Caio
Vasconcelos:
53. Alessandro (Diabo Louro);
54. Alisson (Testa);
55. Jocemar (Arroz);
56. Sdaourleos (Doidão);
57. Márcio (Orelha);
58. Francisco (Chico);
59. Márcio André;
60. Jorge Rafael;
61. Ângelo;
62. Emílio Bernardon;
63. Nerion;
64. Silvio Botelho;
65. Victor
Botelho.
Linda e saudosa história, Wilson F Leite.
ResponderExcluirAcessar (Jornal Turma da Barra) nos Email dos leitores e vê umas bobagens que escrevi.
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