OS SAPATOS DOS MEUS SONHOS.
José Henrique Ferreira
Leite
Escritor bissexto
Em
1964, o órgão hoje conhecido pelo pomposo nome de Secretaria de Estado de Educação
e Cultura, tinha um nome curtinho e despretensioso: Diretoria de Educação.
Naquele ano, o titular da pasta, professor Voltaire Pinto Ribeiro, homem culto
e de grande visão educacional resolvera inaugurar mais um curso ginasial, uma
vez que até ali só existia um na capital, o Ginásio Euclides da Cunha, GEC,
conhecido como o Ginásio dos Padres. O ilustre diretor criou o Ginásio Normal
Monteiro Lobato em substituição à antiga Escola Normal, que não mais atendia as
reais demandas estudantis da época.
A
inauguração do segundo ginásio na cidade e sua primeira aula são lembranças que
ficaram gravadas indelevelmente na minha memória. No início daquele ano,
terminadas as formalidades de inauguração de praxe, a primeira turma, da qual
eu fazia parte, constituída de quarenta alunos, dirigiu-se respeitosa e
silenciosamente rumo à espaçosa sala de aula. Cada um procurando ficar o mais
perto possível de um colega já conhecido. Tudo ali era novidade. As carteiras,
diferentemente do grupo escolar não eram destinadas a uma dupla de alunos. Eram
individuais. Se no primário um só professor ou professora dava aula de todas as
matérias, agora, para cada matéria, um professor. Tudo novo e diferente. Era
possível notar a ansiedade que tomava conta dos jovens ginasianos. Por isso, ficar
perto de um colega já conhecido dava algum conforto e segurança. Daquela turma da primeira aula eu conhecia de
vista quase todos. Amigos que conhecia de verdade só o Raul Ribeiro Pinto, meu
vizinho da Ville Roy e o Onildo Andrade Coelho (in memoriam), colega do Grupo
Escolar São Francisco. Sentei-me entre os dois.
Enquanto
aguardávamos o início de nossa primeira aula, notei que meu colega Onildo
calçava um vistoso par de sapatos pretos da marca Vulcabrás com proteção de
metal no bico. Fiquei vidrado naqueles sapatos. Andar com os pés metidos num
autêntico vulcabrás não era pra qualquer um! Aquilo era de meter inveja. Coisa
chique! Para mim, que a duras penas há quatro anos vinha conseguindo a proeza
de enfiar os pés em um velho par de sapatos de segunda mão de camurça bico fino
– segundo par de sapatos herdados dos filhos dos gringos da igreja – aqueles
elegantes sapatos vulcabrás com ponteiras de metal nos bicos arredondados me
deixaram babando. Tamanha era vontade de possuir um par daqueles! Meu colega
Onildo notou meus olhos espichados para os pés dele. Adivinhou meus pensamentos.
Fitou meus sapatos e propôs:
- Quer trocar os sapatos
comigo?
- O quê? Tá falando sério?
- Sim, tenho outro par
igualzinho em casa. Minha mãe comprou pela Hermes[1].
Vamos lá...
A operação troca de sapatos começou ali e no mesmo instante.
Sofregamente arranquei o sapato do pé direito e calcei rapidamente o do colega.
Este fez o mesmo. Com mais dificuldade, porque o velho sapato de camurça de
bico fino dava uma trabalheira danada na hora de meter o pé nele. Justo no
momento de trocar o sapato que faltava, alguém nos cutuca com força avisando
que a professora de português acabava de entrar na sala. A operação foi instantaneamente
abortada. Ficamos paralisados. A fama da professora de português corria longe.
Vinha das bandas do GEC, onde também dava aula. Tudo verdade. O rosto da mestra
parecia desprovido dos músculos que propiciavam o sorriso. O olhar era fixo e
tinha cara de poucos amigos. Usava óculos de grossas lentes. As olheiras
exageradamente arroxeadas em volta dos olhos davam-lhe o ar de uma pessoa
altamente severa e tomada de permanente irritação e cansaço. Para se dirigir
aos alunos inclinava levemente a cabeça e olhava por cima da armação dos
óculos. Era um olhar profundo e penetrante. Capaz de desconsertar qualquer um
que tentasse meter-se a besta.
E agora? Notamos de imediato que estávamos metidos em uma
grande enrascada. Ficamos na difícil situação de não poder continuar a troca
dos sapatos. Tampouco, o de desfazê-la. O riso incontido da turma chamou a atenção
da rígida professora. Sem pestanejar, por sobre a armação de suas grossas
lentes buscava curiosa saber o motivo de tanto riso. Fizemos de tudo para
esconder nossos pés. Em vão. A professora precisou apenas de alguns segundos
para pôr os olhos sobre os sujeitos que davam motivo a tantas risadas. Fitou-nos
fixamente por alguns segundos e, ato contínuo começou a fazer a chamada
compassadamente:
- Onildo Andrade Coelho...
- Presennnte, professora.
Axi! A senhora não vai começar a chamada pela letra A?
- Não, seu Onildo. Começo pela
letra que eu bem entender...
- José Henrique Ferreira
Leite...
- Presennnte! Desculpe
professora, mas a senhora não vai continuar chamando os colegas com nomes
começados pela letra O?
- Vou, sim, senhor José
Henrique... Mas isso não é da sua conta.
-Agora, os dois
engraçadinhos aqui na minha mesa.
Que situação intrigante!
Como a professora na primeira aula já sabia os nossos nomes? Como na primeira
olhadela que deu encontrou os dois sujeitinhos que, segundo ela, na sua primeira
aula já estavam a fim de bagunçar? Não conseguimos jamais descobrir. De
imediato nos fez caminhar até sua mesa. Dali ordenou que fôssemos até ao fundo
da sala, enquanto dizia aos demais alunos que olhassem bem para os pés dos
engraçadinhos. Bullyng, puro! Mas
naquele tempo bulling tinha outros
nomes. Foi uma cena constrangedora. Aquela troca de sapatos não tinha nada a
ver com bagunça. Mas, para nossa infelicidade, a professora assim entendeu.
Aquilo não foi o ato final de uma história de dois alunos
surpreendidos na trivial troca de sapatos. A seguir os dois viram-se obrigados
a passar por mais um vexame. Como já se dizia naquele tempo: o pior estava por
acontecer! Uma vez diante da professora,
sem que pudéssemos explicar o porquê daquela troca de sapatos fomos
encaminhados ao diretor com a solicitação de que fôssemos suspensos por três
dias.
Ali,
na presença do diretor, depois que nosso saudoso inspetor Dalício Farias fez o
relato da falta cometida, com ar solene e severo o diretor acrescentou mais
dois dias de suspensão. Ao todo, pela simples tentativa de troca de sapatos
flagrada em sala de aula, o colega Onildo e eu fomos punidos com cinco dias de
suspensão. Saímos arrasados da diretoria. Só então pudemos notar que
continuávamos com os sapatos parcialmente trocados. Ali estava o motivo de mais
dois dias de suspensão.
PS. Para mim, mais uma má
notícia: o colega desistiu da troca. Adeus vulcabrás!
Em verdade,alem de sermos irmãos acho que temos outas coisas em comum, como saudosismo, esecesso de carinho aos filhos etc. Eu que fui engraxate quando garoto e engraxei vários tipos de sapatos e o da minha predileção era também o vulcabrás, mas quado fui poder comprar um já me engracei mais do passo doble que era semelhante e duradouro também igual o vulcabrás, tanto que usei que abusei e para me livrar do bicho doei para um judas que fizeram na minha rua em longínqua samana santa.
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