terça-feira, 28 de agosto de 2012


RIMAS NOSTÁLGICAS

José Henrique Ferreira Leite
Poeta bissexto


Sinto falta das luas-cheias,
Da sua luz clara e prateada
Esparramada pelos quintais
Do anoitecer à madrugada.

Sinto falta das luas-cheias,
Do folguedo da molecada
Brincando de manja-pega
Ou disputando uma pelada.

Sinto falta das luas-cheias
E das brincadeiras de roda,
Dos suspiros das meninas,
Hoje em dia fora de moda.

Sinto falta das luas-cheias,
Do bom café que era servido
Em um velho bule esmaltado
E no fogão de lenha fervido.

Sinto falta das luas-cheias,
Nos terreiros das fazendas,
Do vovô contando causos,
Histórias de amor e lendas.

Sinto falta das luas-cheias,
Das noites claras quase dia,
Dos maçaricos tagarelando
Noite adentro na pradaria.

Sinto falta das luas-cheias,
Das noites mornas de verão,
Viajando num carro de boi
Assobiando uma canção.



 Lembranças das mansas noites
Sinto correr nas minhas veias.
Sinto que algo aperta meu peito,
Que falta me faz as luas-cheias.  
           




ÚLTIMA ESPIADA NO SORRISO DA NOITE
José Henrique Ferreira Leite
Escritor bissexto.

        Paraense radicado em Roraima desde a década de 40 do século passado, o senhor Francisco Alves de Souza era uma figura muito conhecida na cidade. Meteu-se na política, mas não obteve sucesso. Eleições e eleitores têm manhas que às vezes o candidato não se apercebe. Ele foi um. Ligado ao sindicato dos trabalhadores municipais morreu lutando, mas sem receber os precatórios (URPES) a que tinha direito. Decisão judicial nenhuma foi capaz de obrigar os prefeitos a botarem no orçamento da comuna os valores pelos quais tanto brigou. Que esteja em paz o bravo lutador. No lugar em que está agora certamente não precisará nunca mais nem de mandato nem de grana.  Mas a história aqui é outra. Pelos idos de 1963 ou 1964, não sei precisar bem qual desses anos, seu Souza, como era conhecido resolveu morar um pouco afastado da cidade.  Naquele tempo a última casa de Boa Vista de quem ia pela Ville Roy rumo Centro-Caçari ficava ali pelo posto Canarinho. Daí pra frente tudo era lavrado até a famosa praia Caçari no rio Cauamé. Seu Souza foi construir sua casa lá por perto dos japoneses do Mirandinha. Só que nas imediações e um pouco adiante da atual Praça da Aparecida na Avenida Presidente Dutra. Essa avenida para quem conhece o trecho há muito tempo é um pedaço do caminho que levava à mencionada praia Caçari. Dava-se uma grande volta para chegar lá. Mas era o único caminho.
        Vista por um adolescente, a casa de seu Souza, coberta de palha de buriti e paredes de adobe[1] parecia enorme! No início ficava num grande descampado em pleno lavrado. No entanto, Pouco tempo foi necessário para o proprietário, um homem muito trabalhador formar ali um bonito ambiente com árvores frutíferas. Morava ali com sua esposa, dona Carmita, cujo nome completo era Maria do Carmo Noronha de Souza e a bonita e prendada filha Dalvina Angelina Noronha de Souza. Não sei o que deu na telha para seu Souza ir morar tão distante. Não tinha luz elétrica, servia-se de água de poço e andava numa singela Humber[2], o principal meio de transporte da época.      Mesmo morando tão longe, os irmãos de igreja – a família pertencia aos quadros da tradicional Igreja Batista Regular – vendo todo aquele isolamento, nos finais de semana faziam ali animados piqueniques a que chamavam de convescotes. Tenho a convicção de que essas visitas davam ânimo e conforto principalmente para as duas mulheres da casa. Mas não resta dúvida, mesmo assim a vida devia ser bastante monótona para as duas. Deviam sentir muito medo e chorar, principalmente porque seu Souza era de fazer longas viagens de exploração de garimpos nas matas gerais. Quando estava na cidade fazia empreitadas para fornecer seixo e serviços outros para o governo do Território passando a maior parte do dia fora de casa. Pensando bem, morando naquele lugar tão isolado é de se concluir que na medida em que a filha do casal ia crescendo, morando longe da escola, da igreja e do convívio com parentes e amigos terminaria por impor uma mudança pra mais perto da urbe. E foi no que deu. Não muito tempo depois seu Souza construiu uma casa na Rua Benjamin Constant, Bairro de São Pedro, vendeu o sítio e se mudou com a família para o novo endereço. Que alívio devem ter sentido as duas!
        Não sei quem comprou o imóvel onde até então havia morado aquela solitária família evangélica. Só sei que seu novo dono ao adquiri-lo deu-lhe destino totalmente adverso. Depois de providenciar uma espichada na parte de trás da casa construiu vários cômodos de madeira separados entre si e inaugurou ali uma casa de diversão noturna. Para ser mais claro: um prostíbulo. Que mudança radical sofreu aquele lugar! Se antes uma casa silenciosa e cheia de tédio que poderia muito bem ser chamada de “choro da noite”, agora uma casa cheia de animação com o poético nome de “Sorriso da noite”. Coisas que a vã filosofia não sabe explicar.
        Por aquele tempo a molecada da Ville Roy entre os treze e dezesseis anos não falhava um sábado sequer sem correr para as bandas do Caçari para tomar banho, pescar e bagunçar com casais que aproveitavam a praia para namorar. Percorriam o trajeto de mais ou menos oito quilômetros num fôlego só. Nada chamava a atenção ou fazia a meninada parar durante a carreira até a praia a não ser um tamanduá, uma raposa ou um tatu bola que às vezes cruzavam o caminho.
        Mas, com a novidade surgida no meio do caminho a curiosidade da rapaziada foi aguçada. Alguns que já tinham ouvido falar em casas do gênero cutucavam os demais e instigavam a dar uma olhada no lugar. Criado na ortodoxa doutrina da igreja batista pelava-me de medo de fazer aquilo. No entanto, a curiosidade por conhecer aquele mundo diferente em que diziam que as mulheres andavam peladas arrebentou com meus escrúpulos. Para a turma disse que jamais entraria naquele antro. No meu íntimo, porém, o desejo impunha justamente o contrário. Faria isso a qualquer momento. Sozinho, naturalmente. Ninguém podia saber dos meus planos. Já pensou se seu Antônio Seabra e dona Ester[3] descobrem isso? A coisa ia ficar preta para os lados do José! Mas, como se dizia antigamente: aquilo eram favas contadas. Ideia fixa, brevemente com medo ou não colocaria os pés dentro do Sorriso da Noite. Coisas dos hormônios. Nessa idade, quando os pensamentos bandeiam pra esses lados, não tem igreja ou conselhos de papai e de mamãe que segurem os ímpetos dos moços. O adolescente quer experimentar. Quem na adolescência não quebrou as regras pelo menos uma vez?
        Numa bela tarde de sexta-feira, a pretexto de ir balar[4] peguei a bicicleta de minha tia e parti para a desejada empreitada. Naturalmente que não estava tranquilo; a ansiedade era grande. Só as vigorosas pedaladas disfarçavam o tremor das pernas.  Mas estava decidido. Tomei o rumo do Sorriso da Noite. Estava ali não mais de dez minutos de casa. Saí por volta das três horas da tarde na certeza que nesse horário não tinha nenhum freqüentador na alegre casa noturna. Chegaria como quem não quer nada e bateria palmas à procura do seu Souza. Dito e feito. Menos de dez minutos e já estava no terreiro do Sorriso da Noite em plena luz do dia. O sol ainda ardia feito brasa.  Antes de fazer-me anunciar notei que encostadas na parede lateral direita da casa havia várias bicicletas e dois jipes modelo 101 estacionados na lateral esquerda. Lembro bem: um deles tinha escrito no para-choque dianteiro “EU VI O DISCO”. Tempos depois soube que o dono daquele jipe em uma viagem noturna de Mucajaí pra Boa Vista tinha visto uma bola de fogo que o seguia. Achou que era um disco voador. Por isso escreveu aquilo no para-choque do seu jipe. Bati palmas. Para minha surpresa lá de dentro saiu uma moça muito bem vestida e bem pintada... Ué, não diziam que elas andavam peladas dentro de casa? Aquela, não!
Sem conseguir esconder o nervosismo arrisquei:
        – Moça, seu Souza está?
        – Acho que não... Se estiver aqui não o conheço por esse nome. Mas o que é que um molecote anda fazendo por aqui?
        – É que eu tenho um recado pra ele. Mas se ele não está volto depois.
        A bonita morena fez ar de quem estava acreditando na minha conversa fiada. Pegou-me pelo braço e disse: vamos ao salão, vê se é um daqueles senhores que estão ali...
        Segurando-me ainda pelo braço a mulher me levou até ao salão. Que surpresa! O salão estava apinhado de respeitáveis senhores da cidade. Uma novidade para mim. Primeiro, porque pensava que por ser uma casa noturna, os homens só a frequentavam à noite. Segundo, porque estavam ali pelo menos três grandes amigos do meu carrancudo tio Antônio Seabra: dois magarefes e o dono de um dos boxes do velho mercado de Boa Vista, no qual trabalhava seu Antônio Seabra. Gelei! Num movimento brusco escapei da moça que me segurava pelo braço e rápido como relâmpago já estava na bicicleta de minha tia pedalando como um doido no rumo de casa pensando em nunca mais voltar naquele lugar.
        Ontem, dia vinte e oito de julho de 2012, e aí já se vão seus quarenta e nove anos, passei com minha mulher no exato local onde morou seu Souza e sua família. Onde também funcionou aquela alegre casa da mais antiga profissão do mundo. Uma das mangueiras plantadas pelo seu Souza permanece impassível no mesmo lugar, com sua copa esgalhada fazendo sombra sobre a Avenida Presidente Dutra, como que a contar aos passantes que naquele lugar duas distintas mulheres – mãe e filha – viveram momentos de medo e de tédio. Como que a relatar aos que por ali transitam que no mesmo lugar mulheres e homens viveram fugazes momentos de alegria e amores secretos.
        Não sei quanto tempo a velha mangueira permanecerá ali indicando o exato local em que morou seu Souza e sua família e onde o animado “Bataclan” macuxi viveu seus áureos dias. Ontem, quem sabe, dei a última espiada no Sorriso da Noite.. Quanta emoção! Sei, não: mas tive a impressão de ter ouvido choros e risos entre as folhagens daquela velha mangueira.   


[1] Pequeno bloco semelhante ao tijolo, preparado com barro e que não era levado ao forno para queimar.
[2] Marca de antigas bicicletas de fabricação inglesa contrabandeadas para Roraima através Lethen, Guyana.
[3] Meus tios com os quais morava e membros fervorosos da Igreja Batista.
[4] Péssimo costume dos meninos da época de sair matando passarinhos de baladeira (estilingue).

sábado, 18 de agosto de 2012


ÁGUA FRIA
José Henrique Ferreira Leite
Poeta bissexto.

Existe um lugar incrustado nas serras
Tão bonito e tão exuberante
Que mesmo o maior diamante
Frente a ele perde o valor.              
É um lugar encantado
Obra de arte e fantasia
Toque de esmero e magia
Projeto do divino escultor.
Nesse lindo lugar nada foi esquecido:
Nem rochas nem matas nem rios nem cristais,
Nem ouro, nem diamantes nem outros minerais,
Nada que o Criador não tenha previsto.
Das encostas das serras despencam cascatas
Olhos d’água brotam do sopé das colinas
Que à medida que descem formam piscinas
Recortadas nas pedras com graça e arte.
Por fim, escavados nas pedras imensas
Indeléveis desenhos e outros sinais
Deixados ali por nossos ancestrais,
Apontando o rumo de antigos caminhos.

.
Há por acaso lugar mais bonito?
Que encha os olhos dos visitantes
Com cenários assim tão excitantes
Quanto aos que aqui temos visto?
O lugar tem algo de mágico!
Decerto o poeta exclamaria
Ao ver incrustado na serrania
A pequena e linda ÁGUA FRIA!

CAIO VASCONCELOS, UMA RUA DO BARULHO.
José Henrique Leite
Escritor bissexto (05/08/2011).

        Em junho de 1975, cinco meses depois de casado com Hessy Nunes Leite, fui ao Recife fazer minha licenciatura de curta duração em Ciências e Matemática. Viajei deixando minha mulher grávida de um mês da primogênita Malin (registrada Joessy Mallyn Nunes Leite). Um ano depois, quando retornei, minha filha já estava completando quatro meses e minha mulher havia conseguido uma casinha pelo sistema financeiro do BNH. A casa era de alvenaria coberta de telha brasilit, com dois apertados quartos, duas minúscula salas de estar e de jantar, uma pequeníssima cozinha e um micro-banheiro. Só. Não havia muros ainda, e a vizinhança toda se via quando saía ou chegava do trabalho. A rua, que já era denominada de Caio Vasconcelos, era beneficiada apenas por uma camada de piçarra, luz e água. A morada era diminuta, mas o fato de chegar para morar na casa própria, em menos de dois anos de casado, para mim foi motivo de muita felicidade. Mérito de dona Hessy.
        O conjunto BNH 1 foi construído no retângulo formado pelas duas quadras delimitadas pelas Avenidas Getúlio Vargas e Benjamin Constant, e transversalmente pela Avenida Surumu, Rua Uraricuera e Araraquara. No sentido do comprimento o retângulo foi dividido ao meio pela Rua Caio Vasconcelos, a partir da Avenida Surumu até o muro da cadeia pública, por onde passa a Rua Araquara. Assim disposto, o conjunto ficou dividido em quatro quadras menores, com casas fazendo frente para ambos os lados da Rua Caio Vasconcelos e as demais fazendo frente para as avenidas Getúlio Vargas e Benjamin Constant, num total de noventa e seis residências.
        Mas nosso interesse aqui é falar sobre a Rua Caio Vasconcelos e seus moradores; uma rua com gente que deixou saudades e desperta até hoje vivos comentários daqueles que nasceram, cresceram ou chegaram ali bem pequenos. Os mais velhos, ou seja, os pais da meninada da rua se conheciam, se cumprimentavam, mas não frequentavam assiduamente a casa um do outro. Isso era coisa de uma vez ou outra. A maioria trabalhava fora e ao chegar a casa tinha muito que fazer. Já as crianças, de todos os topes, viviam juntas praticamente o dia inteiro; só se separavam na hora de dormir ou no horário da escola. Quer dizer, aqueles que estudavam em escolas diferentes, pois, os meninos, na sua maioria, forçavam os pais a matriculá-los no mesmo colégio. O GEC era o preferido. Para onde ia um iam os outros. Na época da matrícula os pais faziam plantão na calçada daquela escola por mais de uma semana.
        O trecho da Caio Vasconcelos onde se concentrava o grosso da meninada ia da esquina da Avenida Surumu até a esquina da Rua Uraricuera (é assim que está escrito na placa). Pela parte da tarde, das quatro horas em diante era bonito de se ver aquele pedaço de rua apinhado de meninos e meninas passeando nas suas vistosas bicicletas (Freestyle, as preferidas), jogando bola, brincando de bandeirinha, boca de forno, manja-pega, gato-mia, voleibol, entre outras brincadeiras. O ponto de concentração era na frente da casa nº 413, a terceira do lado direito a contar da Avenida Surumu, onde três frondosos jambeiros faziam (ainda fazem) uma sombra espetacular. Ali, no banco de cimento (ainda está lá) e espalhados pela calçada e a grande varanda da casa, mais de trinta meninos e meninas organizavam-se em times e esbaldavam-se em brincadeiras até lá pelas nove horas da noite, com intervalo para o jantar. Para os padrões de hoje a turma dormia cedo. Também, pudera, iam pra cama, exaustos!
        Nas brincadeiras acontecia de tudo. Raro o dia em que um (a) ou mais daqueles meninos e meninas não saíam sem uma das unhas, com um xaboque nos pés à mostra, imensos galos e cortes na cabeça, costas e barriga com marcas de unhas de cima abaixo, Olho roxo, dente quebrado, nariz sangrando, tufos de cabelos arrancados, talhos nas canelas e machucões outros sem nomes específicos. Sem contar que houve casos de gente que saiu da rua com um dos braços quebrados. Nessas horas, mães de primeira viagem rodavam a baiana, querendo botar culpa em alguém. Mas tudo se acalmava instantes depois. Nunca houve acidentes com maior gravidade.
        Como em todo agrupamento humano, naqueles pequenos já dava pra notar suas diferenças, seus dons, suas preferências e algumas personalidades singulares. Não dá para falar de todos. Citam-se aqui os mais velhos da turma, adiantando que entre os mais novos surgiram, também, figuras talentosas em diversas áreas.
        O líder inconteste e de índole pacificadora que conseguiu anos a fio juntar toda aquela moçada debaixo daqueles jambeiros respondia pelo carinhoso apelido de Black. O Rodrigo era assim conhecido até pelos vizinhos adultos da Caio Vasconcelos. Lamentavelmente, no dia trinta de agosto de 1993, uma doença raríssima e fulminante (miastenia gravis) o levou aos dezesseis anos, deixando todos seus amigos desolados até hoje.
        O Xerife da rua, flamenguista doente desde que lhes nasceram os dentes sempre foi o Márcio/Maru. Enquanto morou ali, nenhum moleque de outras redondezas se meteu a besta com a turma da Caio Vasconcelos.
        Já o André Luís/Bola, é o que se podia chamar de um amigo leal. Leal e prestativo. Podia-se contar com ele pra tudo e em todos os momentos.
        Das meninas, a Mariana escandalosa que só ela mesma, nasceu com o dom para a comunicação e jornalismo. Ainda menina já era radialista. Seu programa fazia sucesso nas mais diferentes camadas da sociedade Boa-vistense na década de noventa.
        A Mallyn ou Malin, como prefiro grafar, desde pequena gostou de organizar festinhas e brincadeiras. Impetuosa, comunicativa e com forte inclinação para as artes dramáticas, com sua peça “Loucuras de Uma empregada”, escrita e representada na escola em 1988, quando tinha doze anos, por pouco não desbanca Shakespeare do seu posto de maior dramaturgo de todos os tempos. Exagero de pai coruja, claro!
        Por muitos anos, Malin e Mariana (não se trata de dupla sertaneja) foram as grandes responsáveis pelos eventos da Caio Vasconcelos. Aniversários, dias das mães, festas juninas, natal, etc., nada passava despercebido aos olhos daquelas pequenas miniaturas de gente. Elas colocavam os pais e vizinhos em polvorosa para arrumar barracas, mesas, cadeiras, cordas fios, lâmpadas, caixas de isopor, refrigerantes e bugigangas outras, tudo para que suas festas alcançassem o maior sucesso. As mães, coitadas! Tinham que cair em campo para arrumar o material da decoração, comidas, bolos, tortas, salgadinhos, sorvetes picolés, etc. Os fogos de artifícios e certos detalhes da decoração ficavam a cargo do nosso bom vizinho Walniro. Tudo isso marcou fundo a vida de todos nós que moramos na inesquecível Caio Vasconcelos. Mas cabe relembrar mais uma vez: as festas juninas organizadas por essas duas meninas marcaram época naquela rua. Naqueles bons tempos, depois de combinado com os vizinhos fechava-se o trecho entre a Avenida Surumu e a Rua Uraricuera, com entrada e saída restritas aos residentes daquele pedaço. Na frente da casa número 413, onde eram esticadas bandeirolas e demais enfeites da festa, a turma da Caio Vasconcelos apresentava sua animada quadrilha. Tão animadas eram aquelas festas que, em uma das vezes, sem que fossem convidadas, apareceram duas quadrilhas pedindo para se apresentarem. Permissão dada, as danças rolaram até tarde daquela noite. Nem precisaria falar das barraquinhas que tinham de tudo: arroz, vatapá, cachorro-quente, canjica, pamonha, milho verde (assado e cozido), pé-de-moleque, aluá e refrigerantes.
        Quanta saudade daqueles tempos e daquela meninada que até netos já nos deram!
        Mas as histórias da Caio Vasconcelos e seus moradores não acabam por aqui. Os pais dessa meninada, com raríssimas exceções, tinham plena confiança uns nos outros. Todos sabiam e tacitamente assumiam a obrigação de cuidar dos filhos alheios assim como cuidavam dos seus. Para todos os efeitos, os adultos eram tios e os meninos viviam como se fossem primos entre si. Em suma, os residentes da Caio Vasconcelos formavam uma grande família. E era por conta dessa mútua confiança que, ignorando as regras de segurança no trânsito, certa senhora da casa número 413 entupia sua pampa de meninos, doze ao todo, levando-os e trazendo-os da escola diariamente. Às vezes fazia mais de uma viagem só porque todos queriam andar na pampa do tio José, dirigida pela tia Hessy.
        Outra história envolvendo os moradores daquela rua está ligada ao seu imbatível time de futebol mirim, formado e dirigido por um técnico que, se perguntado pelo formato de uma bola de futebol, não saberia responder. Mesmo assim, seu time, o Zepinheiro Futebol Clube, arrebatou todos os troféus de campeonatos de que participou. Dá para entender isso? Claro, coisas de um técnico que tinha para incentivá-lo um bom escocês 18 anos e o hino do time composto pela torcedora número um, Mariana Pinheiro, que tinha como refrão: “Passou, passou... Passou um avião e nele estava escrito: Zepinheiro é campeão!”.
        A última história – existem centenas delas – para encerrar o texto que já está longo, tem como protagonistas a vizinha que morava do lado direito da casa número 413 e todos os meninos da rua; inclusive dois dos que vinham das redondezas: Sdaourleos e Jocemar/Arroz, amigos inseparáveis do Black. Embora na casa de dona Darci tivesse um banheiro interno, este era minúsculo e fazia muito calor. Por isso, ela gostava de usar o banheiro que ficava do lado de fora, fechado precariamente com algumas tábuas. Dona Darci era uma boa vizinha com seu quintal repleto de plantas e flores. Mas ela tinha ciúme exagerado de seu jardim. Qualquer plantinha ou vaso quebrado era motivo de denúncias aos pais daquela meninada encapetada. Sabendo disso, eles não a deixavam em paz.   De cima do muro da casa 413, descobriram os pivetes que dava para ver dona Darci tomando banho. E de lá eles cantavam uma música cheia de provocações inventada pelo Sdaourleos, que dizia: “Ô Darci você tá muito boa! Muito boa muito, muito boa!”. A seguir pulavam de cima do muro e saiam em disparada. Eles faziam essas presepadas quando os pais não estavam por perto. Por isso, quando ela vinha fuxicar, nem dávamos trela a suas queixas. Achávamos que era exagero de sua parte. Quando que meninos tão “comportados” iriam brechar uma velhinha tomando banho? Claro que sabíamos daquelas peraltices. Mas, fazer o quê?

PS. Relação da turma da Caio Vasconcelos a partir de 1976. Se alguém foi esquecido, grite de onde estiver.
Lado direito – saindo da Av. Surumu até a Rua Uraricuera:
01.   Mariana Gomes Pinheiro;
02.   Daniel Gomes Pinheiro;
03.   Natália Gomes Pinheiro (Ratinho)
04.   Joessy Mallyn Nunes Leite (Malin)
05.   Rodrigo Nunes Leite (Black) in memoriam;
06.   Diego Nunes Leite (Pingos Cliff)
07.   Juliana Nunes Leite (Juju);
08.   Francisquinho (neto de dona Darci),
09.   Elisandra;
10.   Júnior (irmão da Elisandra);
11.   Natali;
12.   Suzane;
13.   Alexandre;
14.   Wagner (Chinga),
15.   Charlene;
16.   Fredson;
17.   Frediane;
18.   Anchieta Jr. (in memoriam);
19.   Ana Paula (amiga);
20.   Maurício;
21.   Jana;
22.   Marina;
23.   Márcio;

Lado esquerdo – saindo da Av. Surumu até a Rua Uraricuera:

24.   Arlisson Tobias;
25.   Lice;
26.   Adaiane;
27.   André Luis Pinheiro de Melo (Bola);
28.   Bruno Pinheiro de Melo;
29.   Lubênia Pinheiro de Melo;
30.   Márcio (Maru);
31.   Marcela (Maruquinha);
32.   Gilfredo (Gil);
33.   Gabriela (Gabi);
34.   Illo;
35.  Igor;
36.   Alessandro (Tiquinho);
37.   Taironi;
38.   Antonio Jr. (Júnior);
39.   Fabiana;
40.   Ivan (Nego Ivan);
41.   Raphaela (rasgaela);
42.   Antoneli (Pituca);
43.   Antoniela (Curumim Nenem);
44.   José (Zezo);
45.   Lara;
46.   Janderson;
Lado direito – saindo da Rua Uraricuera até a Rua Araraquara:
47.   Lidiane;
48.   Lidinara;

Lado esquerdo – saindo da Rua Uraricuera até a Rua Araraquara:
49.  Carlos Magalhães (Suni);
50.  Ezélio;
51.  Arimatéia (Tetéia);
52.   Gisele Tajujá;

Meninos de outras ruas do BNH 1 e redondezas que faziam parte da turma da Caio Vasconcelos:

53.   Alessandro (Diabo Louro);
54.   Alisson (Testa);
55.   Jocemar (Arroz);
56.   Sdaourleos (Doidão);
57.   Márcio (Orelha);
58.   Francisco (Chico);
59.   Márcio André;
60.   Jorge Rafael;
61.  Ângelo;
62.   Emílio Bernardon;
63.   Nerion;
64.   Silvio Botelho;
65.  Victor Botelho.

sábado, 11 de agosto de 2012


RASCUNHO
José Henrique Ferreira Leite
Poeta bissexto

Não tenho a verdade absoluta,
Não sou Deus.
Sou obra em construção,
Sou rabiscos no papel,
Sou intenção.
Sou urdidura não exaurida,
Sou gesto inacabado.
Sou rascunho.
Isso mesmo. Rascunho é o que sou:
Com mil desfechos prováveis,
Com mil sonhos realizáveis.

OS SAPATOS DOS MEUS SONHOS.
José Henrique Ferreira Leite
Escritor bissexto
Em 1964, o órgão hoje conhecido pelo pomposo nome de Secretaria de Estado de Educação e Cultura, tinha um nome curtinho e despretensioso: Diretoria de Educação. Naquele ano, o titular da pasta, professor Voltaire Pinto Ribeiro, homem culto e de grande visão educacional resolvera inaugurar mais um curso ginasial, uma vez que até ali só existia um na capital, o Ginásio Euclides da Cunha, GEC, conhecido como o Ginásio dos Padres. O ilustre diretor criou o Ginásio Normal Monteiro Lobato em substituição à antiga Escola Normal, que não mais atendia as reais demandas estudantis da época.
A inauguração do segundo ginásio na cidade e sua primeira aula são lembranças que ficaram gravadas indelevelmente na minha memória. No início daquele ano, terminadas as formalidades de inauguração de praxe, a primeira turma, da qual eu fazia parte, constituída de quarenta alunos, dirigiu-se respeitosa e silenciosamente rumo à espaçosa sala de aula. Cada um procurando ficar o mais perto possível de um colega já conhecido. Tudo ali era novidade. As carteiras, diferentemente do grupo escolar não eram destinadas a uma dupla de alunos. Eram individuais. Se no primário um só professor ou professora dava aula de todas as matérias, agora, para cada matéria, um professor. Tudo novo e diferente. Era possível notar a ansiedade que tomava conta dos jovens ginasianos. Por isso, ficar perto de um colega já conhecido dava algum conforto e segurança.  Daquela turma da primeira aula eu conhecia de vista quase todos. Amigos que conhecia de verdade só o Raul Ribeiro Pinto, meu vizinho da Ville Roy e o Onildo Andrade Coelho (in memoriam), colega do Grupo Escolar São Francisco. Sentei-me entre os dois.
Enquanto aguardávamos o início de nossa primeira aula, notei que meu colega Onildo calçava um vistoso par de sapatos pretos da marca Vulcabrás com proteção de metal no bico. Fiquei vidrado naqueles sapatos. Andar com os pés metidos num autêntico vulcabrás não era pra qualquer um! Aquilo era de meter inveja. Coisa chique! Para mim, que a duras penas há quatro anos vinha conseguindo a proeza de enfiar os pés em um velho par de sapatos de segunda mão de camurça bico fino – segundo par de sapatos herdados dos filhos dos gringos da igreja – aqueles elegantes sapatos vulcabrás com ponteiras de metal nos bicos arredondados me deixaram babando. Tamanha era vontade de possuir um par daqueles! Meu colega Onildo notou meus olhos espichados para os pés dele. Adivinhou meus pensamentos. Fitou meus sapatos e propôs:
- Quer trocar os sapatos comigo?
- O quê? Tá falando sério?
- Sim, tenho outro par igualzinho em casa. Minha mãe comprou pela Hermes[1]. Vamos lá...
        A operação troca de sapatos começou ali e no mesmo instante. Sofregamente arranquei o sapato do pé direito e calcei rapidamente o do colega. Este fez o mesmo. Com mais dificuldade, porque o velho sapato de camurça de bico fino dava uma trabalheira danada na hora de meter o pé nele. Justo no momento de trocar o sapato que faltava, alguém nos cutuca com força avisando que a professora de português acabava de entrar na sala. A operação foi instantaneamente abortada. Ficamos paralisados. A fama da professora de português corria longe. Vinha das bandas do GEC, onde também dava aula. Tudo verdade. O rosto da mestra parecia desprovido dos músculos que propiciavam o sorriso. O olhar era fixo e tinha cara de poucos amigos. Usava óculos de grossas lentes. As olheiras exageradamente arroxeadas em volta dos olhos davam-lhe o ar de uma pessoa altamente severa e tomada de permanente irritação e cansaço. Para se dirigir aos alunos inclinava levemente a cabeça e olhava por cima da armação dos óculos. Era um olhar profundo e penetrante. Capaz de desconsertar qualquer um que tentasse meter-se a besta.
        E agora? Notamos de imediato que estávamos metidos em uma grande enrascada. Ficamos na difícil situação de não poder continuar a troca dos sapatos. Tampouco, o de desfazê-la. O riso incontido da turma chamou a atenção da rígida professora. Sem pestanejar, por sobre a armação de suas grossas lentes buscava curiosa saber o motivo de tanto riso. Fizemos de tudo para esconder nossos pés. Em vão. A professora precisou apenas de alguns segundos para pôr os olhos sobre os sujeitos que davam motivo a tantas risadas. Fitou-nos fixamente por alguns segundos e, ato contínuo começou a fazer a chamada compassadamente:
-  Onildo Andrade Coelho...
- Presennnte, professora. Axi! A senhora não vai começar a chamada pela letra A?
- Não, seu Onildo. Começo pela letra que eu bem entender...
- José Henrique Ferreira Leite...
- Presennnte! Desculpe professora, mas a senhora não vai continuar chamando os colegas com nomes começados pela letra O?
- Vou, sim, senhor José Henrique... Mas isso não é da sua conta.
-Agora, os dois engraçadinhos aqui na minha mesa.
Que situação intrigante! Como a professora na primeira aula já sabia os nossos nomes? Como na primeira olhadela que deu encontrou os dois sujeitinhos que, segundo ela, na sua primeira aula já estavam a fim de bagunçar? Não conseguimos jamais descobrir. De imediato nos fez caminhar até sua mesa. Dali ordenou que fôssemos até ao fundo da sala, enquanto dizia aos demais alunos que olhassem bem para os pés dos engraçadinhos. Bullyng, puro! Mas naquele tempo bulling tinha outros nomes. Foi uma cena constrangedora. Aquela troca de sapatos não tinha nada a ver com bagunça. Mas, para nossa infelicidade, a professora assim entendeu.
        Aquilo não foi o ato final de uma história de dois alunos surpreendidos na trivial troca de sapatos. A seguir os dois viram-se obrigados a passar por mais um vexame. Como já se dizia naquele tempo: o pior estava por acontecer!  Uma vez diante da professora, sem que pudéssemos explicar o porquê daquela troca de sapatos fomos encaminhados ao diretor com a solicitação de que fôssemos suspensos por três dias.
                Ali, na presença do diretor, depois que nosso saudoso inspetor Dalício Farias fez o relato da falta cometida, com ar solene e severo o diretor acrescentou mais dois dias de suspensão. Ao todo, pela simples tentativa de troca de sapatos flagrada em sala de aula, o colega Onildo e eu fomos punidos com cinco dias de suspensão. Saímos arrasados da diretoria. Só então pudemos notar que continuávamos com os sapatos parcialmente trocados. Ali estava o motivo de mais dois dias de suspensão.
PS. Para mim, mais uma má notícia: o colega desistiu da troca. Adeus vulcabrás!


[1] Antiga empresa que funciona até hoje com vendas por catálogo.

sábado, 4 de agosto de 2012


NOS TEMPOS DO JOÃO MINEIRO
José Henrique Ferreira Leite
Escritor bissexto.
            Estamos na tarde de um domingo qualquer no início da década de sessenta do século passado. Dia de jogo no Campo de Futebol João Mineiro.  Campo, sim. Era assim que se falava. Essa história de estádio soava bastante estranho aos ouvidos da molecada boa-Vistense daquele tempo. O pomposo nome de Estádio João Mineiro era pouco mencionado. Mas estava escrito lá na parte superior do portal logo abaixo da sigla FRD, ou seja, Federação Rio-branquense de Desporto. Mas, com o passar do tempo o termo estádio foi sendo incorporado gradativamente no linguajar dos aficionados do futebol aqui por estas plagas. O jogo no velho João Mineiro começava cedo. No início dos anos 60 não havia luz elétrica ainda para as bandas do Bairro São Francisco. Por isso, pelas duas horas da tarde o assíduo e severo Joca Farias[1] já plantado no portão, impassível e sereno controlava a entrada e saída dos torcedores pagantes e não pagantes, afugentando sem dó os que dando uma de João sem braço tentavam entrar sem pagar. Fazia isso com competência e seriedade invejável. Era um homem com senso de justiça à flor da pele. Pra ele não tinha essa de filho desse ou filho daquele, não. Tinha de pagar entrada[2]. Ou pagava ou voltava pra casa de rabinho entre as pernas. Os que podiam entrar iam escorando suas bicicletas no pé do muro e os jipes eram enfileirados na área livre de frente para o portal.
            O futebol daquelas tardes de domingo do início dos anos sessenta era superanimado. Acode-me a memória a imagem de times como o Rio Branco, São Paulo, Baré e Roraima; times que levavam ao João Mineiro uma multidão de torcedores. Se o jogo era Baré X Roraima... A coisa pegava! As fanáticas torcidas, de cima de suas respectivas arquibancadas – que não passavam de toscas e desequilibradas armações de pranchetas parafusadas em vigotas de madeira – entre gritos e foguetório provocavam-se reciprocamente. Não raro os insultos terminavam em desforço físico. Tudo ali, na hora! Sob o fogo da paixão pelo time e do sol em brasa das três da tarde. Nada que pudesse preocupar. Naquela praça de esportes todos eram amigos e aparentados entre si. Arrufos da paixão que o futebol despertava e ainda desperta. Os ânimos aliviavam com o declinar do sol e com alguns goles de uma gelada[3].  
            Mas nos dias de futebol no velho João Mineiro havia outras atrações além das primorosas jogadas de atletas como Chico do Baré, Mão-de-remo, Ribeirão, Tracajá, Barrigola, Chico Cafute, Guilherme (goleiro), Piauí, Dermário, Pipira[4] e outros.  Uma dessas atrações era patrocinada pela molecada (minha turma) que morava nos arredores do campo e que consistia nas suas artimanhas para pular o muro. Isso proporcionava correrias e gargalhadas de todos. Não tinha guarda territorial que pudesse controlar os moleques. Nem guardas carrancudos como Mário Borges, Chico Paulino, José Lemos ou mesmo o “valente” guarda Maxixe[5] davam conta. Notava-se que, às vezes, eles faziam vista grossa. Os bons guardas territoriais sabiam das condições dos pais daqueles meninos. Não só eram amigos dos pais da molecada e levavam vidas idênticas, como também tinham filhos que faziam parte da turma dos pula-muro. Por sua vez, os quintais das casas ficavam praticamente grudados no muro do velho João Mineiro. Naquele tempo as ruas não estavam bem definidas ainda. Como negar àqueles meninos sem nenhum tostão uma das poucas diversões coletivas da cidade? No meu caso, o quintal da casa de minha tia Ester e Antônio Seabra, com os quais morava, terminava onde fica a atual Pastelaria Confiança a cerca de cinquenta passos do campo de futebol. Uma tentação!
            Sem um vintém sequer para comprar o bilhete de entrada ou mesmo um picolé, só havia duas maneiras de nossa turma assistir aos jogos: ou subir pelos troncos e se escanchar nos olhos das mangueiras, ou então pular o muro. Do olho da mangueira tinha-se uma visão privilegiada do campo; mas um inconveniente se mostrava insuperável: no momento do gol não era possível pular, correr, dar cambalhotas e bater palmas junto com os demais torcedores. A única reação possível era se esgoelar sozinho até ficar rouco! Como é possível concluir, isso não tinha graça nenhuma! Já pular o muro tinha um quê de especial! Aquele sabor da coisa proibida. Mas requeria certa estratégia e engenhosidade. Em primeiro lugar era preciso ter em mãos pelo menos quatro pedaços de cabo de vassoura de mais ou menos vinte centímetros. Como o muro era bastante alto e sem reboco, os pedaços de cabo de vassoura serviam para enfiar nos buracos dos tijolos que formavam suas colunas, facilitando assim a escalada. Mas só isso não resolvia a questão. Para os que não se lembram no canto interno do muro, do lado esquerdo do portão, sentido de quem entrava, havia uma pequena edificação onde morava um sujeito abusado; o vigia do lugar. O puto tinha o apelido de Galo. Mas ai do moleque que se atrevesse chamá-lo por esse apelido! Se o pegasse o esganaria na hora! Não bastasse o seu Joca Farias que não permitia ninguém desabilitado entrar pelo portão, mais esse tal de Galo com a incumbência de ficar rondando o muro pelo lado de dentro para impedir que os furões o pulassem. Vida difícil a nossa! Por isso, termos que nos garantir de estratégia e engenhosidade para poder torcer pelo time do coração. E o que fazíamos? Um dos moleques utilizando-se dos pedaços de vassoura subia no muro, localizava o Galo e dali ficava gritando e imitando o canto do bicho que lhe emprestara o nome para servir de apelido. O moleque gritava repetidamente: Ei Galo, ei Galo! Cocoricóóóó, cocoricóóóó! O raivoso Galo lançava-se como um foguete no rumo do frangote que o provocava de cima do muro. Avisados da chegada do raivoso vigia, em poucos segundos o restante da meninada rodeava o campo e pulava o muro misturando-se rapidamente com os torcedores. Pouco depois, o provocador dava um jeitinho e pulava o muro também. O resto era só alegria! Já devidamente aboletados nas arquibancadas com os demais torcedores, os furões ajudavam o saudoso João Mineiro pegar fogo diante das jogadas espetaculares e dos gols (Gois) de placa feitos por artistas do drible como o Chico do Baré e outros. Isso era o velho João Mineiro naquelas saudosas tardes de domingo dos pioneiros tempos de uma Boa Vista simples e provinciana que ainda não atingira a casa dos dez mil habitantes.  
            Na hora da saída não havia com que se preocupar. Os furões se misturavam às dezenas de torcedores e tranquilamente capavam o gato[6] sem que seu Joca ou o mal humorado Galo sequer desconfiassem qual daqueles meninos pulara o muro.
            Ei, Galoooo! Cocoricóóóó! Provocava ainda um moleque já distante do portão do Velho João Mineiro.

PS. João Mineiro foi um Mestre de Obras responsável por muitas construções no recém-criado Território do Rio Branco. Apaixonado por futebol construiu por conta própria junto com seus funcionários o velho Estádio João Mineiro com capacidade para dois mil torcedores. Segundo se conta, seus funcionários foram jogadores do time que fundou: o “OPERÁRIO”.    


[1] Seu Joca Farias foi um roraimense que ficou muito conhecido por sua severidade e alto senso de disciplina e justiça. Era temido pela moçada de Boa Vista nas suas atuações como porteiro nos campos de futebol, festas e como inspetor de escola. Nos piqueniques das escolas era sempre chamado para preparar e distribuir o churrasco.
[2] Pagar entrada: expressão local e da época equivalente a comprar o bilhete de entrada.
[3] Cerveja.
[4] Apelidos dos jogadores mais conhecidos do fim da década de 50 e década adentro de 60.
[5] Esse foi um Guarda Territorial que ficou conhecido por ser o mais medroso da sua turma. Sua história faz parte do folclore da cidade. Dizem que mesmo fardado, ao abordar um sujeito qualquer, bastava que este batesse os pés com força no chão ameaçando confrontá-lo para o guarda Maxixe fugir em desembestada carreira. 
[6] Capar o gato: o mesmo que fugir. Há quem diga capar o mato. Os bons dicionários atestam essa expressão.